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Lá há de chegar

22.05.2011
 

Adelto Gonçalves (*)

Lá há de chegar. 15023.jpegMinhas relações com o Porto cultural pode-se dizer que começaram em 1999, à época em que eu morava em Oeiras para pesquisar nos arquivos portugueses documentos que pudessem reconstituir a trajetória e a obra do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). Por incrível coincidência, ao final daquele ano, a desaparecida Nova Arrancada Sociedade Editorial, de Lisboa, lançou o meu romance Barcelona Brasileira, que, escrito no começo da década de 1980, sairia à luz primeiro em Portugal e só em 2002 no Brasil.

            Como necessitava de alguma forma anunciar ao mundo cultural luso o lançamento do romance, entrei em contato com o suplemento Das Artes Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, pelo e-mail que eu usava no Centro dos Correspondentes Estrangeiros, no Palácio Foz, aos Restauradores, em Lisboa. E conversei por telefone com a Dra. Nassalete Miranda, diretora do jornal,que foi quem franqueou as páginas do Das Artes Das Letras para a divulgação de meu romance no Norte de Portugal.

            Desde então, mantive uma colaboração regular com o Das Artes Das Letras, que só se interrompeu em agosto de 2008, quando o suplemento deixou de circular por opção editorial da nova direção que assumiu o Primeiro de Janeiro. Lembro-me que, nestes anos todos, aguardava com ansiedade a noite de domingo para acessar pela Internet a edição de segunda-feira do jornal, favorecido pelo fuso-horário, para ver se o Das Artes Das Letras havia trazido algum texto de minha autoria.

            Foi com pesar que senti o fim do Das Artes Das Letras, assim como o falecimento, pouco meses antes, do escritor Joaquim de Montezuma de Carvalho (1928-2008), que era, por assim dizer, uma marca registrada do suplemento. Por intermédio de Montezuma, passei a colaborar com o Diário dos Açores, cujos recortes de minhas colaborações ele se apressava em me enviar por correio. Fechava-se assim um círculo que se iniciara em 1994, quando comecei a publicar com regularidade ensaios e recensões na revista Vértice, da Editorial Caminho, de Lisboa, colaboração que faço questão de manter até hoje.

            Por isso, foi com redobrado entusiasmo que recebi a notícia de que a Dra. Nassalete Miranda, ex-diretora do Primeiro de Janeiro, decidira lançar em maio de 2009 a publicação As Artes entre as Letras, que seria uma continuação do antigo Das Artes Das Letras, com periodicidade quinzenal e impressa em papel de superior qualidade. Seria uma forma de garantir a inserção de meus textos no mundo cultural português, que se havia ampliado também com colaborações publicadas na revista Forma Breve, da Universidade de Aveiro.

            É de ressaltar que essa colaboração é vital - porque estimulante - para um intelectual que, no Brasil, não encontra muito espaço para colocar suas meditações. E não é por falta de melhores relações com as redações, mas porque o panorama literário no Brasil é cada vez mais deprimente, depois do desaparecimento de tradicionais suplementos literários como o Ideias, do Jornal do Brasil, e o Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, de São Paulo.

            Restaram-me o suplemento Opção Cultural do semanário Jornal Opção, de Goiânia, e colaborações esporádicas no suplemento cultural de A Tarde, de Salvador, e num ou noutro jornal fora do eixo Rio-São Paulo. Em compensação, são muitos os sites na Internet que abrigam as minhas colaborações tanto em Portugal como no Brasil, ainda que o mundo virtual não substitua o prazer que oferece a palavra impressa, ao menos para um escriba já de cabelos encanecidos.

            Por isso, é com imenso prazer que escrevo estas linhas para saudar a direção do As Artes entre as Letras pela passagem do segundo aniversário da existência da publicação, que espero duradoura, ainda que não sejam poucos os obstáculos materiais que se levantam. Com certeza, como aquelas caravelas da época dos Descobrimentos, esta nau haverá de prosseguir sua jornada que tem a nobre missão de preservar e difundir a língua do poeta Luís de Camões (c.1524-1580), que, um dia, deixou escrito que, "se mais mundo houvera, (a nau portuguesa) lá chegara". O As Artes entre as Letras, pelo estoicismo de sua diretora e de sua equipe, lá há de chegar.

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

 

Texto publicado no quinzenário As Artes Entre as Letras, do Porto, nº 50, de 11/5/2011, pág.7, por ocasião da edição comemorativa do segundo aniversário da publicação portuense.


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