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Sobre o ensino religioso

22.05.2007
 
Sobre o ensino religioso

A recorrente lembrança do jornalista Cyro Siqueira ao seu pai em sua crônica semanal, o Reverendo Siqueira, sob cujas abençoadas mãos passaram várias gerações de mineiros nos diversos campos das letras, da ciência e da política, faz-me voltar ao inesgotável tema dos discursos aqui proferidos pelo Papa Bento XVI, agora vítima de mais uma patuscada do falastrão Hugo Chavez , o novo ídolo da esquerda brasileira e latino-americana

*Murilo Badaró – Presidente da Academia Mineira de Letras

A recorrente lembrança do jornalista Cyro Siqueira ao seu pai em sua crônica semanal, o Reverendo Siqueira, sob cujas abençoadas mãos passaram várias gerações de mineiros nos diversos campos das letras, da ciência e da política, faz-me voltar ao inesgotável tema dos discursos aqui proferidos pelo Papa Bento XVI, agora vítima de mais uma patuscada do falastrão Hugo Chavez , o novo ídolo da esquerda brasileira e latino-americana.

A recordação do famoso colégio erigido nas serranias do Caparão, onde se ministrava ensino religioso com a seriedade com que o reverendo Siqueira imprimia à sua casa de ensino, dá como procedimento costumeiro nos vários estabelecimentos colegiais daquele tempo. Minha geração, por exemplo, assistiu às aulas de religião no Instituto Padre Machado, seguidas sempre de parêneses com que o austero professor Lara Rezende brindava os alunos do internato todas as noites no auditório. Pela mesma forma, o acatado Colégio Isabela Hendrix ensinava suas pupilas a religião de seus fundadores, tal e qual o colégio Batista, da Floresta, prescrevia lições religiosas ao seu alunado.

O discursivo presidente Lula timbrou em acentuar haver dito ao Papa que o Estado brasileiro era laico. E insistiu no tema a servir de mote à funcionária da embaixada brasileira na Santa Sé em suas declarações sobre a laicidade do governo. Como o Brasil e seu povo apreciam o palavrório, ambos se esqueceram de que desde 1891 o nome de Deus está insculpido no pórtico de todas as Constituições pátrias, referência que não é mero jogo de palavras, mas uma conseqüência da natureza das coisas num país de população majoritariamente católica.

Se o Papa Bento XVI teria insistido no ensino religioso, matéria ainda não desvendada de uma suposta proposta de concordata com o Vaticano, normalmente seu espírito de chefe de uma igreja católica insinuaria o ensino religioso católico. Mas o que o governo brasileiro, sempre desatento às coisas que suscitam exame sério e descompromissado com políticas e ideologias, não percebeu é que a intenção do sucessor de Pedro foi tão somente inocular desde cedo na mocidade, uma de suas preocupações mais sentidas, os preceitos morais que compõem a pedra basilar de qualquer religião, seja ela católica e as demais filiadas ao cristianismo, também o budismo, o islamismo.

No período em que o reverendo Siqueira e os demais colégios espalhados pela imensidão destas Minas Gerais ensinavam religião, não obrigando qualquer aluno a assistir às aulas, é bem possível deduzir que os padrões morais da sociedade eram bastante mais alevantados, comparados aos de hoje. O que de fato existe é a crescente frouxidão moral e o patrulhamento que inibe os colégios de assumirem ostensivamente esta atitude, que corresponde inteiramente aos anseios do mais acendrado patriotismo. Terão medo da alcunha de direitistas, esquecidos de que todas as velhas civilizações que sucumbiram ou por outras foram dominadas encontraram na delinquescência moral sua principal e mais próxima causa.

Estamos bem distantes do Império quando a religião católica era a oficial do Estado, posição atenuada pela Constituição de 1891 e mantida até hoje. O fato de Lula repetir com insistência o regime de laicidade do Estado brasileiro, ele, que se confessa católico, não deveria ter receios de enfrentar abertamente a questão do ensino religioso nas escolas, menos com o propósito de agradar os milhões de cristãos em que se funde o Brasil do que ir, através dele, aprimorando o comportamento da mocidade brasileira.

Os altos índices de corrupção apurados na arena política e estatal brasileira são o mais expressivo indicador da falência da educação moral dos adolescentes, mais tarde políticos e administradores. A escritora Ana Maria Machado, em seu mais recente livro “Balaio”, dá notícia de sua conversa com antropólogo peruano de origem quéchua (uma cultura iletrada, segundo ela) que analisava a situação da sociedade atual da América Latina pelos baixos níveis de leitura da população, responsáveis pelo medíocre desempenho dos políticos locais, uma vez que a população iletrada “é presa fácil da superficialidade dos chavões dos discursos vazios, enganadores e populistas”. Se não se pode mudar este quadro, que pelo menos estimulem as escolas a inocular na juventude preceitos morais capazes de libertá-la.


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