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Os movimentos sociais na luta contra a pobreza

21.12.2006
 
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Os movimentos sociais na luta contra a pobreza

Há movimentos sociais espontâneos e efêmeros (o recente protesto de jovens da periferia francesa contra o consumismo, através da queima de carros), bem como os que se prolongam no tempo e adquirem formas distintas para reivindicar um único direito, como a isonomia das mulheres em relação aos homens


Frei Betto *


Adital - Movimentos sociais são organizações da sociedade civil que pressionam a sociedade política (Estado e instituições afins) visando à defesa e/ou conquista de direitos (humanos, civis, políticos, econômicos, ecológicos etc).

Há movimentos sociais espontâneos e efêmeros (o recente protesto de jovens da periferia francesa contra o consumismo, através da queima de carros), bem como os que se prolongam no tempo e adquirem formas distintas para reivindicar um único direito, como a isonomia das mulheres em relação aos homens (cf.: a peça "Lisístrata", do grego Aristófanes, nascido no século V a.C., e o movimento feminista da segunda metade do século XX).A organização da sociedade em movimentos sociais é inerente à sua estrutura de poder. O teatro teve na Grécia antiga o papel político de dotar a população de razão crítica através de uma expressão estética, como comprova, na obra de Sófocles, Antígona frente a Creonte (a consciência do indivíduo calcada na justiça perante a legalidade do poder respaldada na tradição), como ocorreu recentemente em Guernica, de Picasso, espelho dos horrores causados pelo fascismo.

Os movimentos sociais adquirem, através da história, distintas expressões: estética, religiosa, econômica, ecológica etc. A partir do século I, o Império Romano teve suas bases solapadas por um movimento social de caráter religioso - o Cristianismo - que se recusou a reconhecer a divindade de César e propalou a radical dignidade de todo ser humano, chamado à comunhão de amor com os semelhantes e com Deus, segundo a mensagem proferida por uma vítima do Império - Jesus de Nazaré - em quem os adeptos da nova fé reconheciam a presença de Deus na Terra.

Os movimentos sociais tendem a se revestir do caráter predominante do poder vigente numa sociedade. Assim, durante a Idade Média os umiliati de Milão se constituíram em força de pressão em prol da deselitização da Igreja, culminando no franciscanismo, assim como as confrarias e irmandades do Brasil colonial podem ser consideradas antecipações arcaicas dos sindicatos.

Autonomia dos movimentos sociais

Desde a Revolução Francesa a sociedade civil passou a se mobilizar mais freqüentemente em movimentos sociais. Porém, é recente a noção de que a sociedade civil deve se organizar para pressionar o poder público, e não necessariamente para almejar também "a tomada do poder". Isso ensejou o caráter multifacetado dos movimentos - indígenas, negros, mulheres, migrantes, homossexuais etc. - e o fato de constituírem instâncias políticas nem sempre partidárias. Essa "laicização" dos movimentos sociais é que permitiu alcançarem autonomia em relação às instâncias de poder - político, religioso, econômico etc. - e, ao mesmo tempo, despontarem como forças de alteridade perante o poder institucionalizado. É o fenômeno recente do empoderamento da sociedade civil que, quanto mais forte, mais logra transmutar a democracia meramente representativa em democracia efetivamente participativa.

Fome e pobreza no Terceiro Milênio

O mais grave sintoma de nosso atraso civilizatório é a existência da pobreza como fenômeno coletivo. Segundo a ONU, somos 6,5 bilhões de habitantes, dos quais 2/3 vivem abaixo da linha da pobreza, ou seja, sobrevivem com renda mensal per capita equivalente a, no máximo, US$ 60, ou diária de US$ 2. Isso significa que não apenas o modelo de socialismo europeu fracassou, mas também o próprio capitalismo, já que suas riquezas e avanços tecnocientíficos só beneficiam uma parcela mínima da sociedade. Esta pôs os pés na Lua e se aproxima de Marte, porém ainda não logra pôr nutrientes suficientes no estômago de 1,3 bilhão de pessoas que sobrevivem em situação permanente de insegurança alimentar e nutricional.

Dados da FAO revelam que a cada hora morrem 1 mil seres humanos em decorrência da desnutrição, dos quais, anualmente, 5 milhões são crianças com menos de 5 anos de idade. E isso não ocorre devido à falta de alimentos ou ao excesso de bocas. A FAO assegura que o planeta produz alimentos suficientes para 11 bilhões de pessoas, quase o dobro da população atual. Portanto, a principal causa é a falta de justiça, de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

Há no mundo atual apenas quatro causas de morte precoce: doenças (câncer, aids etc.); acidentes (de trânsito e de trabalho); violência (homicídios, suicídios, terrorismo e guerra); e a fome. Esta última é a que causa mais vítimas e, no entanto, a que provoca menos mobilização da sociedade para que seja erradicada.

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