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Montezuma e Eça de Queirós

21.06.2009
 
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Montezuma e Eça de Queirós

Adelto Gonçalves (*)

I

Joaquim de Montezuma de Carvalho (1928-2008), escritor barroco perdido no século XX, nunca se rendeu à modernidade. Escreveu numerosos artigos, que hoje estão espalhados por jornais e revistas de Portugal, Brasil, África lusófona e até do mundo hispânico, além de vários livros. Os últimos, que se saiba, são Do Tempo e dos Homens – Da historia literária à historia da cultura, v.1 (Lisboa: Instituto Piaget, Divisão Editorial, 2007) e Manuel Bandeira – Cartas a Joaquim de Montezuma de Carvalho (São Paulo: Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, 2007), livro que teve tiragem limitada de 50 exemplares, distribuídos entre amigos e bibliotecas.

O advogado criminalista Montezuma, a princípio, escrevia à máquina suas petições, cartas e artigos que distribuía pelo mundo a centenas, mas parece que nunca se aproximou de um computador. Da Internet nem pensar. Era seu filho quem entrava na rede e capturava e imprimia seus artigos que, nos últimos anos, eram publicados no extinto suplemento Das Artes Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, às segundas-feiras. Não tinha paciência para aguardar a chegada do exemplar impresso pelo correio. E o filho, também advogado criminalista, era quem lhe fazia esse favor na madrugada de domingo ou na própria segunda-feira.

De preferência, escrevia mesmo à mão, com caneta-tinteiro, porque entendia que assim lhe saíam melhor os pensamentos. Mas, nestes tempos apressados, seus textos constituíam o “terror” das redatoras do suplemento do Primeiro de Janeiro, que tinham de copiá-los no programa Word do computador, como uma delas me confessou, certo dia de novembro de 2005, quando passei pela antiga redação que ficava à Rua Coelho Neto, no centro do Porto.

Sua letra era esmerada de quem escrevia com vagar, mas, de repente, como se impulsionada por um afã que lhe atravessasse o pensamento, tornava-se pouco legível – por isso, muitas vezes, saíam algumas impropriedades no texto impresso porque quem o copiava certamente não o fazia com a devida atenção ou porque não entendia alguma nuance da escrita. Por isso, as fotocópias que costumava enviar aos amigos vinham minuciosamente revisadas com numerosas correções.

Sem contar que, com o texto, seguiam muitos retalhos de jornais ou revistas fotocopiados que ele, invariavelmente, recolhia na Biblioteca do Exército, em frente à estação ferroviária de Santa Apolônia, a poucos metros de seu apartamento, na Rua dos Remédios, no bairro da Alfama, em Lisboa. Seus envelopes pardos sempre chegavam recheados de muitos recortes – os quais, traziam muitas anotações às margens – e com um pedido inevitável: a devolução dos selos para a coleção do neto. A mim teve sempre a espontânea preocupação de enviar os recortes de meus artigos que saíam no Diário dos Açores.

Para homenageá-lo, o Boletim Cultural Póvoa de Varzim, v.42, 2008, da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, terra natal de Eça, publicou uma de suas últimas colaborações, “A razão por que Eça foi para Paris”, da qual fez separata que distribuiu para alguns de seus amigos e admiradores. É um texto do começo de 2005, que Montezuma encaminhou à Dra. Maria da Conceição Nogueira, diretora do Boletim Cultural, a 21 de janeiro de 2008, a título de colaboração, porque àquela altura a doença que o vitimou já o impedia de escrever textos mais longos que o bilhete que acompanhou o material enviado à redação. Montezuma morreu a 6 de março de 2008.

II

O texto publicado postumamente foi definido por Montezuma como uma colagem porque traz dois recortes de jornais e duas cartas de Eça de Queirós (1845-1900) que ele extraiu da revista Ocidente, de Lisboa (nº 56, vol.XVIII, 1942), além de suas observações à mão, como se pode constatar porque o Boletim Cultural fez também a reprodução do original do autor. Montezuma começou por destacar uma caricatura rara de Eça de Queirós, desenhada por Emílio Pimentel, que encontrou no livro Memórias do professor Thomaz de Mello Breyner, 4º conde de Mafra 1869-1880 (Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1930), em que se vê o escritor vestido à moda parisiense como um dândi da belle époque.

A reprodução era só um mote para Montezuma lembrar que, como anunciava notícia reproduzida do Diário dos Açores, de Ponta Delgada, de 15/1/2005, Eça de Queirós seria homenageado em Neuilly-sur-Seine, em Paris, na Praça Saint Jean Baptiste, com a colocação de um busto, na presença de autoridades francesas. Como se sabe, foi naquela localidade que Eça exerceu as funções de cônsul de Portugal em Paris, entre 1888 e 1900, data de sua morte.

Montezuma reproduz também outra notícia do Diário dos Açores, de 8 de fevereiro de 2005, que dá conta da inauguração do busto, com a presença de cerca de duas centenas de portugueses emigrantes, todos orgulhosos com o fato, embora, segundo o jornal, quando questionados, muitos tivessem respondido que desconheciam por completo o escritor, “enquanto outros identificavam o nome, mas não a sua obra nem a sua passagem por Paris”.

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