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Os "Velho" na Rússia

21.06.2007
 
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Os "Velho" na Rússia

"José Pedro Celestino Velho, mercador do Porto, foi vender o mundialmente conhecido néctar de uva português no mercado russo. Quando, finalmente, Lisboa e São Petersburgo estabeleceram relações diplomáticas em 1778, o número de portugueses que viviam em várias cidades do Império Russo já era significativo.

 A Corte Portuguesa precisava de quadros competentes e, por isso, a Rainha D. Maria I nomeou-o cônsul em São Petersburgo. Mas José Velho, insatisfeito com a inactividade das autoridades portuguesas, passou a servir a Corte da Rússia, fazendo uma brilhante carreira, continuada por filhos e netos que chegaram a lugares de destaque na hierarquia do poder russo.

A nomeação de Velho como "Consul Geral da Nação Portugueza nos Dominios do dito Imperio, Cidade de S. Petersburgo, e mais Portos Maritimos dos referidos Estados" foi feita em 25 de Abril de 1781, tinha ele 26 anos, afirma o cientista português Rómulo de Carvalho na sua obra "Relações entre Portugal e a Rússia no séc. XVIII". Ele só chegou à Rússia em Dezembro desse ano. Além de cônsul, Celestino Velho era também um dos quatro administradores da Casa Portuguesa de Comércio em S. Petersburgo, criada em 1781 pela administração da Companhia do Alto Douro para incentivar as trocas comerciais.

Ao fim de 12 anos, por volta de 1793, o mercador e diplomata abandonou o serviço da Coroa Portuguesa para se dedicar aos seus próprios negócios. A julgar pelos documentos conhecidos, a razão desse passo deve-se, provavelmente, ao facto de não ter sido nomeado "ministro plenipotenciário de Portugal na Rússia" - ou então de ver que o seu país perdia oportunidades únicas de incentivar as exportações para o Império Russo. Rómulo de Carvalho remata assim a sua investigação: "Não sabemos até quando Celestino Velho viveu na Rússia, nem se lá acabou os seus dias". Mas sabe-se que morreu em 1802 e casou com Sophie Severin (1770-1839), filha de um comerciante francês que, tal como ele, se estabeleceu definitivamente em território russo.

Os arquivos e bibliotecas russas guardam numerosos testemunhos de que José Pedro Celestino Velho teve uma brilhante carreira na Corte de São Petersburgo. Ainda ao serviço de Portugal, aprendeu o russo, algo pouco frequente entre os numerosos estrangeiros que viviam na Rússia, pois o francês era, na prática, a língua oficial entre a nobreza. A par disso, o português conseguiu boas relações nas mais altas esferas do poder russo. Ele próprio o sublinhou em carta dirigida ao secretário de Estado Martinho de Melo e Castro: "por felicidade e fortuna minha particular estou bem conceituado nesta Corte, e com os Ministros e Secretários de estado, conhecendo muito bem não só esta Capital como o interior deste Império".

Tudo isto lhe permitiu chegar ao cargo de banqueiro de Pavel I (1754-1801), Imperador da Rússia, e desempenhado essas funções com êxito. Em 14 de Junho de 1800, o imperador assinou um decreto que fez entrar Velho na nobreza russa: "... manifestando a benevolência monárquica de Sua Realeza Imperial para com o serviço e afinco de Velho, Sua Alteza concede a ele e aos seus filhos que nascerem depois, bem como aos seus descendentes, a dignidade de barão do Império Russo", com direito a escudo, pormenorizadamente descrito no "Livro de Linhagens da Rússia".

O novo barão russo construiu uma das suas residências em Tsarskoe Selo (Vila Real), nos arredores de São Petersburgo que, tal como Sintra em Portugal, foi escolhida pelo czar e pela nobreza para fixar as residências de Verão. A nova casa transformou-se rapidamente em lugar de encontros frequentes da nobreza e da intelectualidade. Terá acontecido lá, por exemplo, o primeiro encontro do czar Alexandre I (1777-1825) com o poeta Alexandre Puschkin (1799-1837).

Entre 1811 e 1817, Puschkin, na altura aluno do Liceu de Tsarskoe Selo, uma escola média para os filhos da nobreza russa, era um visitante frequente dos Velho e de outra família influente, os Tepper, que não eram apenas vizinhos mas tinham laços de parentesco: Guilherme Tepper de Ferguson, compositor e professor de música no liceu local, estava casado com Janette Severin, irmã da mulher de Velho. As visitas de Puschkin pareciam também dever-se ao facto de o maior dos poetas russos, como outros estudantes, ser atraído pela beleza das duas filhas de José Celestino: Sofia e Josefina. Puschkin dedicou mesmo a Sofia o poema "Para o Palácio de Babolovski", lugar de encontros românticos entre ela e o czar Alexandre I; o poeta é incapaz de esconder os seus ciúmes. A ligação amorosa parece explicar a protecção que Alexandre I irá conceder, mais tarde, ao irmão de Sofia, Ossip (José) Velho.

Terá sido através dos Velho que Puschkin entrou em contacto com a cultura portuguesa. Em 1814, no primeiro poema que publicou, "Ao amigo poeta", Puschkin recorda o destino triste e abandonado de grandes literatos, nomeadamente do grande Luís de Camões: "Todos elogiam os poetas,/ mas apenas as revistas os mantêm; / A roda da fortuna passa ao lado deles; / Rousseau nasceu e morreu nu; / Camões partilhou o leito com miseráveis; / Kostrov morreu esquecido num sótão; / Foi enterrado por outros; /A vida deles é um rosário de tristezas,/A glória não passou de um sonho". E em 1825 traduziu para russo o poema "Recordações", de Tomás António de Gonzaga (1744-1807), dando-lhe o título "Tradução do Português".

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