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Machado de Assis: tradutor ou recriador?

21.05.2009
 
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Machado de Assis: tradutor ou recriador?

Se Machado de Assis é hoje, com certeza, o autor brasileiro mais discutido e analisado pela academia nacional, além de bastante estudado em universidades estrangeiras, é de lamentar que tenha sido necessário um período de quase quatro décadas para que A juventude de Machado de Assis (1839-1870): ensaio de biografia intelectual (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971), de Jean-Michel Massa, recebesse uma nova edição, embora as livrarias do País estejam abarrotadas de obras sem a menor importância.

Adelto Gonçalves (*)

I

Se Machado de Assis (1839-1908) é hoje, com certeza, o autor brasileiro mais discutido e analisado pela academia nacional, além de bastante estudado em universidades estrangeiras, é de lamentar que tenha sido necessário um período de quase quatro décadas para que A juventude de Machado de Assis (1839-1870): ensaio de biografia intelectual (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971), de Jean-Michel Massa, recebesse uma nova edição, embora as livrarias do País estejam abarrotadas de obras sem a menor importância e de conteúdo duvidoso, o que é um indicador da pujança de nosso mercado editorial – que se equivaleria ao mercado de língua espanhola em termos econômicos --, mas também da indigência cultural à que a população, de um modo geral, está relegada.

Se A juventude de Machado de Assis chega agora em junho de 2009 às livrarias em lançamento da Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é bom que o leitor saiba que, em 2008, a Crisálida Livraria e Editora, de Belo Horizonte, deu à estampa o ensaio Machado de Assis tradutor, com tradução do editor Oséias Silas Ferraz, que constitui um complemento à tese de doutoramento que o professor Jean-Michel Massa defendeu em 1969 na Faculdade de Letras da Universidade de Poitiers, na França, e que resultou naquela monumental biografia.

Originalmente, essa tese complementar traz um apêndice com traduções (inéditas) de duas peças por Machado de Assis, “Os burgueses de Paris” e “Tributos da mocidade”, que, porém, não constam deste livro impresso. Ao lado de uma terceira peça traduzida, “Forca por forca”, essas duas peças, aliás, compõem Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis, com notas de Jean-Michel Massa, que, em lançamento da Crisálida, chega às livrarias juntamente que a segunda edição de A juventude (...). Feliz coincidência.

Organizador de Dispersos de Machado de Assis (1965) e de Bibliographie descriptive, analytique et critique de Machado de Assis (1957-1958) e autor de numerosos artigos e ensaios sobre a produção machadiana, com destaque para “La bibliothèque de Machado de Assis”, em que identifica 718 obras que pertenceram ao acervo particular do escritor, Massa, 79 anos, é um grande estudioso da literatura brasileira dos séculos XIX e XX, com trabalhos sobre Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), José de Alencar (1829-1877) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), do qual traduziu Reunião (1983).

Em parceria com sua mulher, a professora Françoise Massa, também organizou o Dictionnaire Encyclopedique de la Langue Portugaise, do qual já foram publicados três volumes: um sobre a Guiné-Bissau, outro sobre São Tomé e Príncipe e um terceiro sobre Cabo Verde.

II

Apesar de todo esse currículo, o que tornou o nome do professor Massa um pouco mais conhecido entre nós foi que, por meio de suas pesquisas, acabou por provar que Machado de Assis não era o autor de Queda que as mulheres têm para os tolos, como a crítica brasileira, contra todas as evidências, assegurou por muito tempo e até recentemente por desconhecimento da própria obra do estudioso francês, que saiu no Brasil em 1971, mas que hoje constitui livro difícil de encontrar.

Aliás, Machado de Assis nunca disse que era autor de Queda (...), pois na primeira edição da obra no Brasil, em 1861, pela Tipografia de F.de Paula Brito, consta na capa com todas as letras que se trata de “tradução do snr. Machado de Assis”. Mesmo assim, não foram poucos os que insistiram que Machado seria o verdadeiro autor do opúsculo, embora Massa já tivesse localizado o original num antigo catálogo de obras anônimas da Biblioteca Nacional de Paris atribuído ao belga Victor Hénaux.

Se alguma contribuição este historiador literário pode dar a essa discussão depois de ter estudado a fundo as obras de dois poetas setecentistas, é que no século XVIII e, provavelmente, no XIX, não havia ainda a consciência ou o consenso de que a tradução deveria ser o mais fiel possível ao original. Pelo contrário, o comum é que o tradutor tomasse muitas liberdades -- que hoje não seriam admitidas -- em relação ao texto original. Muitas vezes, alterava tanto o original de um poema ou um trecho de prosa que acabava sentindo que fizera outro texto. Outras vezes, anunciava que fizera determinado poema “à imitação de (...)”. Ou seja, inspirava-se num poema que quase sempre seria francês para escrever outro em português.

Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), por exemplo, traduziu muito do francês – entre outros, Grecourt, Piron, Dorat, Logouvé, Chenier, Bernard, Fontanel, Delille, Castel, segundo José Agostinho de Macedo (1761-1831) -- e sempre com excessiva liberdade (aos menos para os olhos de hoje). Em alguns poemas, valeu-se do recurso “à imitação de (...)”, como no caso do poema em que deixou explícito que imitara o francês Évariste de Parny (1753-1814). Já em outros poemas permanecem dúvidas quanto à autoria. É o caso de Cartas de Olinda a Alzira (ilustradas), trabalho de alto mérito literário, filosófico, científico e moral atribuído ao grande poeta Bocage (Porto, s/d) em que não há uma mínima referência a Portugal, o que leva à suspeita de que seja uma tradução.

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