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Poema em prosa em Mário Máximo

21.02.2008
 
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Que estes poemas em prosa são tributários de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, não há dúvida. Basta ler esta peça de Máximo: “Não tenho notícia de nenhuma notícia. Informações de nenhuma fonte. Recado de nenhuma influência. Leio apenas sinais nos desvãos do vento. Chegam-me sinais todos os dias. Todos os instantes de todas as horas”. E compará-la com esta de Fernando Pessoa/Bernardo Soares: “Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e apenas esse, o sentido de minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores de minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela de dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento”.

Quem lê estes dois fragmentos logo percebe que ambos utilizam equilibradamente a linguagem denotativa (simbólica) e a conotativa (subjetiva) e que há ritmo nas palavras, o que é uma condição sine qua non do poema, mas não essencial à prosa. Isto é: o ritmo da prosa obedece ao mesmo ritmo que se observa comumente em poemas. Até porque o ritmo não depende do meio de expressão (linha contínua ou descontínua).

Afinal, se estas linhas fossem divididas em segmentos, também poderiam passar apenas por poemas (sem rima e sem métrica). Até porque nem a rima nem a métrica caracteriza a poesia: pode-se escrever em hendecassílabos uma fórmula matemática, uma receita culinária, o cerco de Tróia e uma sucessão de palavras desconexas, diz Octavio Paz (1914-1998) em O Arco e a Lira (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982, p.85).

São, portanto, poemas em prosa da mais alta qualidade estes de Mário Máximo, ou seja, constituem pequenas peças líricas em que toda a primazia é do “eu”, o “eu-profundo”, uma voz que reflete o interior do poeta. Como se percebe também neste fragmento: “As paisagens marítimas são paisagens mutantes assim como as do amor e do desejo. Os olhares em forma de fotografia são o que existe nesta disciplina contemplativa. Cada momento do amor é uma fotografia: irrepreensível no rigor da imagem mas irrepetível. As paisagens do amor e do desejo são paisagens marítimas. E por isso mutantes. E por isso únicas”.

IV

Lisboeta, Mário Máximo viveu em Olival Basto, freguesia do concelho de Odivelas, até aos sete anos de idade, morando em Lisboa até aos 35, quando passou a residir em Odivelas, onde está há mais de 15 anos. Desde bastante cedo ligado às questões da literatura e da criatividade literária, deram os jornais a conhecer muitos dos seus poemas, mas também o conto e a crónica. Escrever roteiros para a televisão tem sido outra das suas ocupações. Em 1986, publicou o primeiro livro, Um Milhão de Anos (Perspectivas & Realidades), poemas.

A partir dessa coletânea, sucederam-se o romance A Ilha (Hugin Editores) e mais estes livros de poesia: Meridiano Agreste (Tertúlia Editora,1991); Hedonista (Tertúlia Editora, 1994); Paisagens da Utopia, (Tertúlia Editora, 1996); Arte Real (Hugin Editores); Oração Pagã (Hugin Editores); Dezanove Sonetos (Edições Cesdis, 2003) e Prima Materia (Hugin Editores, 2003). Depois de Hangar de Sonhos, já publicou Diário de uma ilha distante (Editora Sete Caminhos, 2007), poesia. Além de ter participado de várias antologias, desenvolveu, ao longo dos últimos 15 anos, intensa atividade como diseur de textos literários.

O espetáculo As Palavras e a Música na Poesia de Mário Máximo – que apresenta peças originais para piano, flauta, violoncelo e guitarra, compostas para os poemas a dizer – já esteve no teatro A Barraca, no Centro Cultural de Belém e no Auditório Amélia Rey Colaço.

Todo este trabalho culminou com a edição do CD DizerPessoa, que reúne 17 (poemas de Fernando Pessoa e seus heterônimos ditos por Mário Máximo e acompanhados por composições específicas da autoria do compositor Paulo Nazareth. Este CD contou com o apoio das Câmaras de Lisboa e de Odivelas e do Instituto Camões.

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HANGAR DE SONHOS (ODES BRANCAS) , de Mário Máximo, prefácio de Ernesto de Melo e Castro. Lisboa: Editora Sete Caminhos, 2006, 90 págs. E-mail: setecaminhos@iol.pt

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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