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Poema em prosa em Mário Máximo

21.02.2008
 
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Poema em prosa em Mário Máximo

Adelto Gonçalves (*)

I

O crítico norte-americano (nascido em Havana) René Garay (1949-2006), ex-professor do City College-Graduate School/City University of New York (Cuny), autor de Judith Teixeira: o Modernismo Sáfico Português (Lisboa, Universitária Editora, 2002), em seus últimos anos de vida, andava às voltas com estudos sobre o poema em prosa. De seu trabalho em parceria com Raúl Romero, publicou o ensaio “Epifanía y poema en prosa (El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares“) na Revista Forma Breve, da Universidade de Aveiro (nº 2, 2004, pp.71-80), e na Revista do Centro de Estudos Portugueses, da Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, nº 34, v. 25, jan.-dez. 2005, pp.13-22).

Para escrever esse trabalho, pesquisou na Biblioteca Nacional de Lisboa e entrou em contato com investigadores e escritores portugueses. Ao poeta Mário Máximo, em 2005, lançou o desafio de produzir um livro de poemas em prosa, comprometendo-se a escrever um prefácio em que gostaria de acrescentar o que estudara depois da conclusão daquele trabalho que se pretendia inaugural.

No começo de 2006, Garay estava disposto trocar de novo Nova York por Lisboa por alguns meses e dedicar-se ao texto introdutório ao livro de Máximo. Mas não pôde viajar. Uma doença insidiosa, cujos primeiros sintomas sentira durante a temporada que passara a viajar quase diariamente de Sesimbra a Lisboa no começo de 2005, começou a lhe perseguir os passos. No dia 29 de abril, seu coração deixou de bater.

Seis meses depois, saía à luz Hangar de Sonhos (odes brancas), de Mário Máximo (1956), sem o prometido estudo introdutório de René Garay, mas com prefácio que o poeta e crítico Ernesto de Melo e Castro (1932), um dos introdutores e mais persistentes animadores do experimentalismo poético em Portugal, seu teórico e praticante, escreveu em outubro daquele ano, às vésperas da publicação do livro. Na dedicatória, Máximo diz que “sem o impulso e entusiasmo de René Garay este livro nunca teria acontecido”.

II

O poema em prosa, como se sabe, é uma herança do movimento cultural francês do século 19, que nasceu, a rigor, com o livro Gaspard de la Nuit: fantasias à maneira de Rembrandt e de Callot, de Aloysius Bertrand, aliás, Louis-Jacques-Napoléon Bertrand (1807-1841), que se pode encontrar em recente tradução de José Jeronymo Rivera (Brasília, Thesaurus Editora, 2003).

Filho de um militar francês e uma italiana, casal que se fixou em Dijon, na França, depois da queda do império napoleônico, Bertrand nasceu em Ceva, no Piemonte, e, boêmio, morreu jovem, aos 34 anos, sem tempo de ver impresso seu único livro, trabalho de toda uma vida, concluído em 1836 e, desde então, nas mãos de um livreiro-impressor que não o publicou. A obra só sairia à luz em 1842 pelas mãos de outro editor e precedida por uma Notice assinada por ninguém menos que Charles-Augustin Sainte-Beuve (1804-1869).

O livro de Bertrand foi, desde o começo, uma obra rara, acessível apenas a poucos literatos, como Charles Baudelaire (1821-1867), que admitiu tê-lo lido pelo menos vinte vezes numa confissão que fez em Le spleen de Paris, conhecido geralmente por Petits poèmes en prose. Mas, depois da “descoberta” de Baudelaire, foi grande a fortuna crítica do livro de Bertrand, reeditado e analisado na França, lido e traduzido em outras partes.


III

Como observam Garay e Romero no ensaio citado, o poema em prosa é uma manifestação individual de lirismo que não respeita as formas tradicionais e convencionais do verso. E atua como um poema no sentido de que se vale das estratégias e táticas da poesia, da mesma maneira que o verso livre o faz com a métrica e a rima. Ou seja: este subgênero literário se vale dos meios e instrumentos da prosa com os objetivos da poesia.

E exige do autor um estado epifânico, semelhante ao estado de iluminação ou relevação típico de uma experiência mística religiosa.

Tal como se vê em Fernando Pessoa (1888-1935) no Livro do Desasossego, atrás do semi-heterônimo Bernardo Soares, dizem Garay e Romero, citando o ensaio “Prosa poética e poema em prosa no Livro do Desassossego”, deste articulista que faz parte do livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Universidade Santa Cecília, 1997), que Garay localizou na Biblioteca Nacional de Lisboa, e originalmente saiu na Revista Vértice (Lisboa, nº 59, mar.-abr.1994, pp.120-123).

É também o que se constata em Hangar de Sonhos (odes brancas), de Mário Máximo, que reúne 71 poemas em prosa, de pequeno tamanho, que vão de quatro a 12 linhas, com exceção de uma peça que ocupa uma página inteira e do penúltimo texto que ocupa uma página e meia que, como diz Ernesto de Melo e Castro, “tem a natureza de um metatexto, crítico e justificativo do programa poético a que o livro obedece”.

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