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Clovis Moura: 5 anos sem o "pensador quilombola"

20.11.2008
 
Pages: 1234

Por outro lado, continua Ruy, Rebeliões da Senzala “preparou também o rompimento com os esquemas fossilizados do oficialismo marxista e eurocêntrico de então, que impunham uma evolução das sociedades obrigatoriamente em cinco estágios sucessivos - comunidade primitiva, escravismo, feudalismo, capitalismo e socialismo”. Na obra foi demonstrado o nosso passado escravista colonial, de onde o modo de produção capitalista emergiu, depois de uma lenta transição, da desagregação do escravismo - e não do feudalismo, como na versão clássica européia.

Ruy salienta que Rebeliões da Senzala mostrou que a complexidade da formação social brasileira teve influências externas que interagiram com a dinâmica interna, fazendo com que nossa história resultasse da combinação deste processo colonial e neocolonial (e imperialista, hoje), com os interesses que dominam nossa sociedade até os dias atuais.

Finalmente, como enfatiza José Carlos Ruy, o conjunto da obra de Clóvis Moura, se sintetiza “na rebeldia escrava, na consideração da ação dirigida contra a manutenção do escravismo como principal elemento para a compreensão das contradições fundamentais não só daquele modo de produção, como do capitalismo que o sucedeu, e das formas políticas que, sobreviventes do passado, estão ainda baseadas num autoritarismo gerado e nutrido no domínio da senzala pela casa-grande”.

Este domínio desembocava no conflito, sendo este “parte cotidiana da vida do escravo”, podendo “variar de grau e intensidade, de pequenas resistências diárias no trabalho, à morte de feitores e senhores ou à rebelião aberta, e sua eclosão quebrava todos os véus, dilacerava os disfarces que a negociação construía, opondo as duas facetas contraditórias e inconciliáveis daquela relação, o senhor e o escravo”.

Com esta lógica argumentativa, que explicita o processo real de nossa formação histórica, desfaz-se o mito da negociação para o fim da escravidão. Desfaz-se o mito da democracia racial, construída nos tempos coloniais e escravistas, tão ao gosto das análises freyreanas de nossa classe dominante. Desfaz-se o mito da passividade dos segmentos sociais dominados. Desfaz-se o mito de uma historiografia comprometida com o status quo.

O significado da obras de Clóvis Moura nos faz entender melhor, porque o intelectual, jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor e escritor, autor de Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas, se tornou um marco como intérprete do pensamento social brasileiro, sendo parte da pesquisa que fazia, o que o fez juntar-se aos trabalhadores, aos operários, aos negros e camponeses, colocando seu conhecimento para a libertação de todos os oprimidos, em especial para a continuidade da construção da consciência negra em nosso País.

Notas

[1] As reflexões apresentadas abaixo contém extratos do seguinte artigo: KONRAD, Diorge Alceno. Na senzala a resistência, no quilombo a liberdade: a obra de Clóvis Moura. In: SANTOS, Júlio Ricardo Quevedo dos; DUTRA, Maria Rita Py (orgs.). Nas trilhas da negritude: consciência e afirmação. 1ª ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2007, p. 115-133.

[2] Estas considerações conclusivas não são apresentadas na primeira edição de Rebeliões de senzala, lançada peal Edições Zumbi, em 1959. Conferi-las em MOURA, Clóvis. Rebeliões de senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas. 4 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988, p. 269 e 271.

[3] Tive a honra de conhecer Clóvis Moura em Porto Alegre, em 1994, em lançamento-debate de sua obra Dialética radical do Brasil Negro. Tornei a revê-lo no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, em 1999, no Seminário “40 anos de Rebeliões de senzala”, o qual teve a participação também de Soraya Moura, José Carlos Ruy, Octávio Ianni, Robert Slenes, Élide Bastos, Ângela Figueiredo, Sílvia Hunold Lara e Lívio Sansone.

[4] Informações mais desenvolvidas sobre a trajetória de Clóvis Moura podem ser encontradas em MESQUITA. Érika. Clóvis Moura (1923-2003). In. Afro-Ásia, n. 31, Salvador, UFBA, p. 337-56. Cf. o texto na íntegra em http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/770/77003111.pdf . Acesso em 6/09/2007. Da mesma autora também pode ser consultado o artigo “Clóvis Moura e a sociologia da práxis”. In. Estudos Afro-Asiáticos, vol. 25, n. 3. Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-546X2003000300007&script=sci_arttext . Acesso em 2/05/2005.

[5] No Dicionário, Clóvis Moura destacou mais de 800 verbetes. Esta obra é o resultado de mais de 30 anos de pesquisa, revelando os aspectos do Brasil escravocrata e do Brasil escravizado, auxiliando a entender parte da luta e da cultura brasileira que dura mais de 4 séculos.

[6] Estudioso da obra de Clóvis Moura, José Carlos Ruy foi seu amigo durante longos anos e companheiro de movimentos políticos e sociais desde a época da resistência contra a Ditadura Civil-Militar, até o falecimento do autor, ocorrido no final de 2003, quando tinha 78 anos.

[7] Ver as opiniões desenvolvidas por José Carlos Ruy no artigo Clóvis Moura investigava o passado histórico para compreender melhor as lutas do presente, publicada na Revista Espaço Acadêmico, n. 32, jan. 2004. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/032/32cruy.htm . Acesso em 2/05/2005.

[8] As considerações acima se encontram em MOURA, Clóvis, op. cit., 1988, p. 269.

[9] Idem, p. 273.

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*Diorge Alceno Konrad, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP

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