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Clovis Moura: 5 anos sem o "pensador quilombola"

20.11.2008
 
Pages: 1234

Tinha aversão aos estudiosos de gabinete, os quais sempre trataram o povo e os movimentos sociais apenas como objeto de suas pesquisas, de forma distante e fria. Ao contrário daqueles, Clóvis Moura fez parte da pesquisa que fazia, sendo um ator do processo que estudava ou herdeiro das tradições de lutas que buscava compreender. Por isso, a militância dos trabalhadores, dos operários, dos negros e dos camponeses o reconhecem como aquele que colocou a sua arte e seu conhecimento a serviço da libertação dos oprimidos, sendo um intelectual indignado e, ao mesmo tempo, generoso, movido pela razão, mas também pela emoção.

Escreveu, entre outros, Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha (1964), O preconceito de cor na literatura de cordel (1976), O negro: de bom escravo a mau cidadão? (1976), Os quilombos e a rebelião negra (1981), Brasil: raízes do protesto negro (1983), Diário da Guerrilha do Araguaia (Apresentação, de 1985), Quilombos – resistência ao escravismo (1987), Sociologia do negro brasileiro (1988), História do negro brasileiro (1989), As injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira (1990), Dialética radical do Brasil Negro (1994), Sociologia política da guerra camponesa de Canudos: da destruição de Belo Monte ao aparecimento do MST (2000), Os quilombos na dinâmica social do Brasil (2001), Dicionário da escravidão no Brasil (2004)[5] e o clássico Rebeliões de senzala, editado pela primeira vez em 1959, com reedições em 1972, 1981 e 1988.

Em seus estudos, como bem observou José Carlos Ruy,[6] destacaram-se a premissa teórica marxista fundamental: a existência da luta de classes na sociedade escravista também existiu luta de classes, abrindo “uma vertente que levaria, nos anos seguintes, a um reconhecimento aprofundado da luta escrava e sua importância para a dinâmica da sociedade brasileira”, levando ao “reconhecimento de que a história do negro no Brasil se confunde com a história do povo brasileiro”. Sobretudo com Rebeliões, podemos “compreender como, a partir daquelas contradições de nosso passado histórico, o Brasil tornou-se o que é hoje”, pois “foi a relevância numérica da escravidão, seu tempo de duração e a forma como foi abolida no Brasil que "determinaram a emergência do modelo do capitalismo dependente em que vivemos até hoje". Para Ruy, Rebeliões da Senzala é, talvez, “o primeiro estudo onde a história do escravo (e do negro) brasileiro é colocada no seu justo lugar de história do povo brasileiro, e não de um segmento populacional à parte, específico e segmentado”, pois o livro “reata, assim, a história do povo brasileiro de nossos dias com a história daqueles que, antes de 1888, mourejavam sob o instituto infame e desumano que foi a escravidão”.[7]

Nesta obra de Clóvis Moura podemos compreender o fundamento da sociedade escravista, não apenas pela dominação dos senhores sobre os escravos, mas a sua essência: de que, como o próprio autor considerou na conclusão de Rebeliões: “as revoltas dos escravos, como apresentamos neste livro, formaram um dos termos de antinomia dessa sociedade”. Ou seja, não há como entender a dominação do modo de produção escravista no Brasil sem estudar o seu antônimo, a resistência de classe perpetrada pelos próprios escravos. Para Moura, que alarga esse entendimento mais ainda, as revoltas não foram apenas um dos termos dessa antinomia. Pelo contrário, “foram um dos seus elementos mais dinâmicos, porque contribuíram para solapar as bases econômicas desse tipo de sociedade”, criando “as premissas para que, no seu lugar, surgisse outro tipo” de sociedade. Assim, completa o autor, “as lutas dos escravos, ao invés de consolidar, enfraqueceram aquele regime de trabalho, fato que, aliado a outros fatores, levou o mesmo a ser substituído pelo trabalho livre”.[8]

É justamente esta a inovação central da obra de Clóvis Moura, em contraposição a uma historiografia tradicional que apenas apresenta o escravo como elemento positivo da sociedade escravista, no qual o escravo aceitou passivamente a sujeição que lhe era imposta pelos senhores de escravos. Para Moura, mesmo quando a resistência era passiva, ela contribuía, no geral, para a luta contra a própria escravidão.

Para Clóvis Moura, esta resistência veio de várias formas: as formas passivas: a) o suicídio, a depressão psicológica (o banzo); b) o assassínio dos próprios filhos ou de outros elementos escravos; c) a fuga tradicional; d) a fuga coletiva; e e) a organização de quilombos longes das cidades; as formas ativas: 1) as revoltas cotidianas pela tomada do poder; 2) as guerrilhas nas matas e estradas; 3) a participação em movimentos não escravos; 4) a resistência armada dos quilombos às invasões repressoras; e 5) a violência pessoal ou coletiva contra senhores ou feitores.[9]

Para José Carlos Ruy, ao aprofundar o conhecimento de nosso passado, e demonstrar que a história da história da escravidão faz parte do fio contínuo da história de nosso povo, a obra de Clóvis Moura aprofundou, também, e inovou o pensamento marxista e contribuiu para aprofundar a consciência socialista e o anti-preconceito das gerações seguintes de historiadores e militantes do movimento revolucionário e anti-racista brasileiro. Para o autor, “uma dessas inovações é a lição fundamental, aprofundada nas obras que vieram depois de Rebeliões da Senzala, de que, em sociedades como as nossas, os conceitos de classe e raça são inseparáveis para a compreensão da situação das classes dominadas”, pois. elas “imbricam-se, e conferem características próprias às relações de dominação em nossas sociedades”.

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