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Clovis Moura: 5 anos sem o "pensador quilombola"

20.11.2008
 
Pages: 1234
formas e exemplos de resistência antiescravista e contra o preconceito racial enraizado no Brasil, faz parte desta reflexão. Reflexão para a ampliação da consciência negra, em particular, e da consciência de todos, em geral. No rumo da construção de uma sociedade na qual a discriminação e o preconceito étnico, bem como a exploração social e econômica (também fundada na discriminação e no preconceito), sejam parte do passado de nossa história.

Boa parte disso aprendemos com as obras e os estudos de Clóvis Moura.[3]


Clóvis Moura: engajamento como parte da práxis

Clóvis Steiger de Assis Moura nasceu em 10 de julho de 1925, em Amarante, no Piauí. Jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor e escritor.

Membro de uma família de classe média-baixa, filho de mãe branca e pai negro tem, entre seus antepassados, um barão do Império prussiano, seu bisavô Ferdinando Von Steiger; pelo lado paterno, a escrava Carlota, sua avó e escrava de seu avô, senhor de engenho do Nordeste açucareiro. Clóvis, ainda criança, mudou-se com a família para Natal (RN), onde residiu de 1935 a 1941. Ali, a partir da Insurreição Comunista de 1935, passou a simpatizar com as idéias da esquerda. Iniciou seus estudos num colégio de padres maristas, o Colégio Santo Antônio. Ainda muito jovem fundou, à revelia dos irmãos maristas, o Grêmio Cívico-Literário "12 de Outubro", onde eram realizadas reuniões semanais para discussão de literatura e política. Segundo Moura, o grêmio cresceu e prosperou, chegando a possuir quarenta membros, participantes ativos, "cada um com seu patrono à maneira da Academia Brasileira de Letras". Comenta, ainda, que "o Grêmio contou com sócios honoráveis, como Luís da Câmara Cascudo, Elói de Souza, dentre outros autores regionais de renome". Possuiu também um jornal literário de nome O Potiguar, sob sua direção, no qual publicou o primeiro de muitos artigos sobre o Brasil, este versando sobre a Inconfidência Mineira.

Quando Clóvis Moura e seu irmão se mudaram para Salvador, em 1942, findou-se o Grêmio, muito conhecido pelos debates e publicações literárias. Na Bahia, Clóvis não chega a graduar-se em Humanidades naquele ano, e ingressou na carreira jornalística por meio do jornal O Momento, diário do Partido Comunista do Brasil - PCB. É quando há o contato com o PCB, em Juazeiro, que se constitui na oportunidade para que ele se aprofundasse nas teorias marxistas e pecebista da III e IV Internacionais. Já em 1945 tornou-se militante e, em 1947, elegeu-se deputado estadual pelo Partido, mas tem sua candidatura cassada pelo Tribunal Eleitoral, devido a uma manobra política proveniente dos partidos de ocasião, em torno de um comício no qual estava em Juazeiro, no dia 1º de maio.[4]

Em seguida, transferiu-se para São Paulo, atuando no periódico Notícias de Hoje e na Frente Cultural do PCB, ao lado de Caio Prado Jr., Villanova Artigas e Artur Neves e outros. Na ruptura dos comunistas, em 1962, foi um dos raros intelectuais a acompanhar o PCdoB.

A partir dos anos 1970, destacou-se pela militância junto ao movimento negro brasileiro. Participou da criação, em 1975, do Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas, uma organização voltada ao estudo do racismo no Brasil e que promovia cursos, debates, seminários, etc., juntamente com o movimento negro, quando este começava a se reorganizar.

Ainda na década de 1970, contribuiu para a construção do Movimento Negro Unificado (MNU), escrevendo o programa da entidade.

Em 1980, nos estertores da Ditadura Civil-Militar, depois de anos de repressão política, ao analisar os resultados do Censo do IBGE, escreveu que “a identidade e a consciência étnicas são profundamente escamoteada pelos brasileiros”. Na ocasião, alertava para o fato de que a negação da identidade negra demonstrava como o brasileiro fugia da sua verdade étnica, procurando, através de “simbolismos de fuga”, situar-se “o mais possível próximo do modelo de cor tido como superior”.

Até a sua morte, nos finais de 2003, no combate à imagem de que os afro-descendentes teriam sido passivos perante aos suplícios a que foram submetidos no País, que Moura obteve o maior reconhecimento. Suas teses foram demonstradas seja pelas revoltas escravas, as quais foram muitas, seja pelo processo de aquilombamento.

Pouco antes de morrer, estava muito próximo do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), quando produziu uma história de Canudos, símbolo da luta da resistência pela terra, além de produzir textos para a luta do movimento. Nos últimos anos se considerava um “comunista sem partido”, produzindo ensaios e trabalhos para a editora Expressão Popular.

Em toda a sua trajetória, foi um importante estudioso dos movimentos sociais brasileiros, particularmente dos movimentos do campo, sem deixar de estender seu principal foco para a questão dos negros no Brasil.

Também estudou a Frente Negra Brasileira, criada em 1931 e fechada por Getúlio Vargas, no início do Estado Novo (1937-1945). Para Clóvis Moura, esta frente, que chegou a ter mais de 70 mil membros ainda está a espera de estudos mais consistentes.

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