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No centenário da morte de Machado de Assis

20.10.2008
 
Pages: 123
No centenário da morte de Machado de Assis

 Adelto Gonçalves (*)

 I

Um escritor que está para a literatura brasileira assim como Miguel de Cervantes (1547-1616) está para a literatura espanhola ou Léon Tolstói (1828-1910) para a russa – é assim que Machado de Assis (1839-1908) chega a 2008, ano do centenário de sua morte. Para associar-se a todas as homenagens que lhe têm sido feitas em todo o País, a Editora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está reeditando neste ano uma série de livros do maior romancista da literatura brasileira, em edições bem cuidadas e acompanhadas por estudos, introduções críticas e filológicas e notas explicativas que ajudam o leitor a compreender melhor a época em que viveu o escritor.

É o caso de Bons dias!, coletânea de 49 crônicas publicadas por Machado de Assis na Gazeta do Rio de Janeiro, de 5 de abril a 1888 a 19 de agosto de 1889, numa média de quase três por mês. Todas começavam com a saudação “Bons dias!” e acabavam na despedida que também funcionava como assinatura-pseudônimo (“Boas noites!”). Assinadas dessa maneira, essas divertidas crônicas não foram reconhecidas como de sua autoria até a década de 1950.

Na maioria, têm um fascínio especial no que diz respeito às opiniões políticas do autor. A série coincide com um momento importantíssimo na história do Brasil — a abolição da escravatura e as vésperas do fim do Império. Além da política da época, trazem para o leitor de hoje certos temas favoritos de Machado, como a medicina popular, os neologismos e o espiritismo (que sempre combateu).

A primeira e a segunda edição deste livro estão esgotadas há muito tempo; esta terceira, atualizada, traz melhoramentos nas notas e uma nova introdução especialmente preparada por John Gledson, professor aposentado de Estudos Brasileiros da Universidade de Liverpool (Inglaterra), um dos mais argutos e fecundos estudiosos da obra machadiana e autor de três livros sobre o escritor: Machado de Assis: ficção e história (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986; 2ªed.2003), Machado de Assis: impostura e realismo (São Paulo, Companhia das Letras, 1991) e Por um novo Machado de Assis (São Paulo, Companhia das Letras, 2006).

Como as crônicas são reações imediatas ao que ocorre na cena pública, à época da abolição da escravatura o cronista Machado de Assis não podia se furtar a comentar o que lia e via nas ruas: parecia entediado ao ver a grandiloqüência daqueles que se batiam pelo fim da escravatura. Não que fosse defensor daquele regime iníquo, mas, cético, sabia que não se podia esperar nada com entusiasmo excessivo porque a abolição seria apenas a simples passagem de um relacionamento econômico e social opressivo e aviltante para outro. De propriedade, o escravo passaria a alugado. Com a desvantagem de que, quando não mais precisassem de seus serviços porque idosos, os patrões poderiam descartá-los, mandando-os às ruas sem mais nem menos.

Pelas crônicas, percebe-se também que o neto de escravos alforriados não acreditava também naquela idéia de república que parecia empolgar os mais jovens e afoitos. Preferia, isso sim, a monarquia com todos os defeitos que tinha, mas que eram sabidos e conhecidos. “Seria fácil provar que o Brasil é mais uma oligarquia absoluta do que uma monarquia constitucional”, escrevia, como a avisar que a república nasceria da oligarquia e, portanto, a mudança de regime seria mais uma troca de tabuletas, como na famosa cena do romance Esaú e Jacó. Para piorar, a república nasceria de um golpe de estado, que haveria de inocular o vírus da anarquia nas forças armadas.

Mostrando que não era um profeta de fatos consumados – expressão que lhe era cara --, Machado de Assis sabia que os regimes republicanos ofereciam oportunidades sem conta a aventureiros de todas as espécies. Em menos de quatro anos, a ditadura do marechal Floriano Peixoto seria uma prova inequívoca de que seus piores sentimentos às vésperas da proclamação da república tinham mesmo razão de ser. Superada a balbúrdia nos quartéis, viria o federalismo, ou seja, o poder exacerbado das oligarquias provinciais, sobretudo, dos cafeicultores de São Paulo. Tudo o que Machado previra.

Como observa Gledson na introdução, a exumação destas crônicas é importante porque revela opiniões nunca expressadas por Machado com tanta clareza e coerência – pois nos contos e romances estão sempre disfarçadas por muita ironia e insinuações nem sempre fáceis de captar hoje, mais de um século depois.

II

Já Comentários da semana reúne crônicas escritas entre outubro de 1861 e maio de 1862 para o jornal de perfil liberal Diário do Rio de Janeiro, a uma época em que o autor andava ao redor dos 22 anos de idade e estava longe de indicar o futuro mestre que haveria de se tornar. A série reaparece depois de uma única publicação em livro já há muito esgotada (em Obras completas, da finada Editora Jackson, do Rio de Janeiro, em 1937) e, se já deixa transparecer um pouco da ironia mordaz e fina que o caracterizaria na maturidade, a verdade é que só foi recuperada por causa do interesse que desperta toda a obra de um escritor canonizado. Escritas com o fim imediato de publicação em jornal, com certeza, nunca teriam saído da poeira dos arquivos, se dependesse da vontade de seu autor. E, de fato, não trazem o encanto das crônicas reunidas em Bons dias!.

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