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Acordo ortográfico já, mas devagar

20.05.2008
 
Pages: 12
Acordo ortográfico já, mas devagar

Por Deonísio da Silva

Ao ministro da Educação, Fernando Haddad, credite-se o mérito de propor e implementar providências essenciais à Educação. À imprensa, debite-se a insuficiente atenção que dá a questões que fazem por merecer que a sociedade nelas se aprofunde.

Vamos a um caso concreto, um dos mais recentes. O Diário Oficial da União, na seção IN. 87, pág.11, publicou em 8 de maio de 2008, a Resolução nº 17, de 7 de maio de 2008: "Autoriza a adequação dos livros escolares de ensino fundamental e médio às mudanças implementadas pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa."

O Estadão, em matéria de Renata Cafardo, tratou do assunto logo na edição de 9 de maio, sexta-feira: "O Ministério da Educação (MEC) publicou ontem uma resolução no Diário Oficial da União exigindo que os livros didáticos que serão comprados para as escolas públicas a partir de 2010 estejam de acordo com as novas normas ortográficas da Língua Portuguesa. O mesmo documento também autoriza as editoras a já fazerem essa adaptação no ano que vem. O governo brasileiro é um dos maiores compradores de livros didáticos do mundo; em 2007 foram cerca de 120 milhões de exemplares."

Trema e acentos

É melancólico o que vem ocorrendo. Um tema de tamanha importância não pode ser reduzido a um problema de compra e venda de livros! A língua portuguesa é, principalmente, o nosso meio de existir como Brasil e como brasileiros, vez que somos uma das maiores nações do mundo e a língua portuguesa cobre todo o território nacional.

Esta unidade lingüística, como se sabe, foi obra do marquês de Pombal, que, para tomar a providência não consultou ninguém, pois era um déspota esclarecido. Para nossa sorte, porque depois pulularam autoritários ignorantes de diversos calibres que tomaram providências nefastas ou se omitiram em face de graves questões nacionais, empurrando o Brasil para um atraso que é erroneamente apresentado como fatalidade ou destino.

Reitera o texto de Renata Cafardo no Estadão: "O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado em Lisboa, em dezembro de 1990, e ratificado pelo Brasil e por outros três países de língua portuguesa. O parlamento de Portugal deve votar o acordo no dia 15, mas sua aprovação é contestada por intelectuais que já reuniram mais de 17 mil assinaturas contra o projeto. Entre as principais mudanças no Brasil, estão a eliminação do trema e dos acentos diferenciais."

Tropeços na grafia

Pois é, no mesmo parágrafo, uma informação subsidiária – a eliminação do trema (que a Folha já eliminou à margem da lei há muito tempo, com a cumplicidade de muitos, evidentemente) e dos acentos diferenciais – e uma informação relevante: Portugal, com um número de ouvintes, falantes, leitores e escreventes – nesta ordem, por favor – cerca de dez vezes menor do que os que ouvem, falam, lêem e escrevem em português no Brasil, faz ferver o assunto, tão pertinente e de interesse nacional.

E nós? Vamos limitar o tema a um negócio de livreiros? Precisamos reagir. O Acordo Ortográfico é bem-vindo, mas o tema é repleto de sutis complexidades. Eliminando pura e simplesmente os acentos referidos, podemos, com a pressa que a senhora do cágado não tem, repetir-lhe a designação, não mais para designá-la, mas para designar o que faremos.

O Brasil precisa aprofundar este acordo e seus termos. Gastamos milhões de verbas na educação para ensinar aos que chegam à escola uma língua sem lógica no léxico.

Ensinamos à criança que chega à escola que "feliz", com som "s" no final, se escreve com "z", que tem som de "z" e por isso é a letra inicial de zebra, Zé, sendo José com "s", e daí o "som" tem som de "z" como em trânsito, também escrito com "s". Se vamos caçar, caçamos com cedilha, mas se vamos retomar o mandato do deputado, daí cassamos com "s". A palavra "exceção" já eliminou candidatos de alta competência em seus ofícios, mas que tropeçaram na grafia do verbete que os excluiu! Se pedirmos a um excluído que escreva o que ele é, sabendo os rudimentos da escrita, ele provavelmente escreverá "escluído" e será excluído outra vez.

Parlamento precisa assessoria

Ao longo dos séculos, uma elite esperta exigiu que fossem escritos em português vernacular formulários, requerimentos, cartas, ofícios e demais papéis que compõem a Torre de Papel do Estado brasileiro, quase sempre resultando em Torre de Babel, pois ao fim nem quem deu a ordem já a entende mais quando vai exigir-lhe o cumprimento, daí ser nosso país o paraíso dos bacharéis. Houve o caso de um juiz que determinou fosse o réu recolhido ao "ergástulo público" e a autoridade encarregada de cumprir a ordem informou que na localidade não havia ergástulo, somente cadeia. (O juridiquês, porém, é um capítulo especial.)

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