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A política no cinema brasileiro

20.05.2007
 
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A política no cinema brasileiro

Estudo feito pelo cientista político Carlos Luiz Strapazzon mostra visão dos cineastas sobre a política brasileira e os temas preferidos pelos artistas - Em estudo inédito, o professor de Ciência Política e Teoria Social Carlos Luiz Strapazzon, coordenador de pós-graduação, pesquisa e extensão das Faculdades Curitiba, listou 121 filmes nacionais que abordam questões políticas para saber como a política brasileira é vista pelos cineastas.

Soraia Costa

Em estudo inédito, o professor de Ciência Política e Teoria Social Carlos Luiz Strapazzon, coordenador de pós-graduação, pesquisa e extensão das Faculdades Curitiba, listou 121 filmes nacionais que abordam questões políticas para saber como a política brasileira é vista pelos cineastas.

Os temas realistas e críticos foram os preferidos nas produções. A crítica ao regime autoritário e à violência do período ditatorial, por exemplo, foi tema de 27 filmes. As guerras nas quais o Brasil se envolveu, as rebeliões armadas regionais e os conflitos armados com motivos políticos estavam presentes em 20 filmes.

Além desses, também despontam na filmografia estudada as biografias, principalmente de presidentes e líderes de rebeliões e movimentos sociais e políticos, e filmes que convidam ao engajamento e fazem críticas à alienação.

As obras analisadas são resultado de 68 anos de produção cinematográfica e foram classificadas pelo pesquisador em dez grandes temas: regime autoritário de 1964; guerras, rebeliões ou conflitos armados locais; biográficos; ideologias, engajamento e alienação; violência urbana, injustiça social e ausência de Estado; trabalhadores na política; regime de Getúlio Vargas; “mandonismo” local; costumes e cultura política; e campanhas eleitorais. Várias das produções se encaixam em mais de um tema.

Para fazer a pesquisa, Strapazzon assistiu a 40% dos filmes listados e tomou depoimentos de alguns dos diretores. Também consultou críticos e sites especializados em cinema, reuniu a sinopse de todas as produções e buscou informações no Ministério da Cultura sobre os filmes realizados entre 1938 e 2006.

Engajamento x estética

Uma das explicações para o grande número de filmes realistas, e em especial de documentários, está relacionada à escassez de recursos para a produção. Mesmo assim, Strapazzon argumenta que há mais do que uma simples preocupação estética nessa escolha.

“Deu para perceber no testemunho dos diretores que efeitos especiais ficariam caros e é muito claro que a limitação de recursos levou à preferência pelo realismo e pelo documentário”, diz. “Mas tenho a impressão que essa opção pelo realismo tem mais a ver com a preocupação em fazer um cinema engajado do que com a estética simplesmente”, defende, lembrando que mesmo com poucos recursos, havia preferência por filmar guerras e conflitos, o que exigiria uma produção melhor caso a preocupação fosse com a estética.

O tema mais explorado na filmografia pesquisada é sem dúvida o da violência do período ditatorial. Ela aparece em suas diversas formas: contra a liberdade de expressão, as mulheres, os presos políticos, etc.

“Sobre alguns temas como autoritarismo é uma boa filmografia e analisa seus diversos aspectos. Agora, olhar para a filmografia é entender a violência institucional. Ela tem um alvo claro: a defesa da liberdade. É uma filmografia de denúncia mostrando o quanto o poder do Estado é opressor. A impressão que eu tenho é que eles não querem falar dos aspectos positivos para que não pareça que os fins justificam os meios, mas não duvido que daqui a alguns anos, com o distanciamento histórico, esses filmes sejam feitos”, avalia.

Outro aspecto ressaltado no estudo é o grande número de biografias. “Isso reflete uma sociedade que tem uma política pouco institucionalizada e que segue grandes líderes. Não há filmes sobre vilões e canalhas, por exemplo”, destaca o cientista político.

Mudanças históricas

Curiosamente, apesar de muitos filmes falarem sobre heróis, há poucas produções ufanistas. A maior parte dos filmes listados que ressaltam os aspectos positivos do país foi feita até o início dos anos 1950, antes ou durante a era Getúlio Vargas.

“Uma cinematografia alternativa, que tratava a política de uma maneira mais metafórica e sutil estava surgindo com o Cinema Novo, mas o regime autoritário interrompeu esse processo. A partir daí, o cinema passou a ser voltado para a crítica com o objetivo de formar opinião. Então a filmografia política começa ufanista, passou pela metáfora e depois caiu em um realismo denuncista”, explica Strapazzon.

Na avaliação dele, a tendência é que os filmes políticos passem por uma grande mudança e fiquem “mais poéticos e humanistas”, apesar de produções recentes como Zuzu Angel (2006) e O ano em que meus pais saíram de férias (2006) tratarem do recorrente tema da ditadura ainda em tom de crítica e denúncia.

“A gente está em uma época de grandes revisões e acho que é possível que isso aconteça com o cinema brasileiro. O tipo de argumento denuncista está caindo em desuso. Acho que pode ter uma releitura mais sutil e humanista dos últimos 40 anos do Brasil”, garante.

Essas produções “humanistas” destacariam as alegrias e tristezas, mostrando de maneira mais dramática as conseqüências das decisões e dos acontecimentos políticos. “Embora continue a ser crítico, o cinema não verá mais o Estado como vilão”, explica o professor.

Escassez

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