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Moacir Amâncio: um poeta multilíngüe

20.02.2008
 
Pages: 12

Em Figuras na sala, de 1996, o autor faz uma homenagem à melhor tradição modernista brasileira, assumindo-se como herdeiro do impulso poético de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, mas também paga um tributo ao poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898), que se valia de símbolos para expressar seus sentimentos através da sugestão, mais que da narração.

Em 1997, publica um livro de reportagens e artigos, Os bons samaritanos e outros filhos de Israel (São Paulo, Editora Musa), interrompendo a seqüência de livros dedicados à poesia. Mas logo volta com O olho do canário (São Paulo, Musa Editora, 1998), que, aliás, diferencia-se de seus livros anteriores de poesia na alternância e variedade dos ritmos, como observou Carlos Vogt na apresentação, e na linguagem elíptica que emprega.

Como gosta de jogar com a idéia de que as línguas latinas são, na verdade, um só idioma, defendendo o argumento de que determinadas emoções e idéias só caberiam adequadamente em italiano, outras em francês, em português, romeno, catalão ou espanhol, Amâncio publica Colores siguientes (São Paulo, Musa Editora, 1999) em que reuniu poemas escritos em castelhano. É o livro que marca o início de uma série de peregrinações poliglotas, que vão atingir o seu auge com Abrolhos em que várias composições estão escritas em hebraico. Esses poemas em hebraico formam um conjunto, na verdade, um livro, que foi inteiramente publicado pela revista Etc., de Curitiba.

Antes, o poeta já havia experimentado no parcialmente inédito At a construção em inglês de um universo paralelo ao português. Já em Contar a romã (São Paulo, Record, 2001) presta homenagem ao idioma de Góngora, Quevedo e Cervantes, especialmente em "Duelo de la nariz y la cara" em que transita do espanhol para o português e igualmente da poesia para a prosa poética (e vice-versa) sem perder o sentido.

IV

Professora do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Berta Waldman destaca para análise o poema “Àlef”, de Contar a romã, que dialoga em primeira instância com a Cabalá, mas que remete também para o conto “El Aleph”, de Jorge Luís Borges (1899-1986), em que a primeira letra do alfabeto é apresentada como um ponto no espaço que contém todos os pontos, ou seja, um ponto que agrega todos os sentidos.

A partir daí, a estudiosa sugere que o idioma hebraico tenha passado a ser, durante essa trajetória, uma das bases que sustenta a poesia polivalente de Amâncio, ele mesmo um estudioso dessa língua e também do Talmud. “Amâncio incorpora a estrutura de ambos, lançando-os como o ponto zero de sua poesia”, explica. Eis um trecho de “Álef”: Segundo Spinoza,/ lentes fabricante/ a vogal permite/ o fazer a fala/ sendo a alma dela./ Ou como entender/ a matéria simples,/ LF só rocha.

V

Antes de Ata, Amâncio lançou pela Travessa dos Editores, de Curitiba, Óbvio, em que radicaliza as preocupações estéticas de livros anteriores, desta vez, compondo um poema, "Arghvan", em inglês, a exemplo do que fizera em espanhol em Colores siguientes, quem sabe inconformado com as amarras lingüísticas e possíveis limitações do português. Esse longo poema, que melhor seria definido como um conto em versos, constitui a segunda parte do livro, mas se entrecruza com as duas outras partes.

A primeira parte, "Óbvio", que ocupa a maior parte do livro, é também um longo poema, outra vez em decassílabos. Ao largo desse poema, sente-se a presença da tradição judaica, nunca descrita, mas sugerida, de que Amâncio, hoje, no Brasil, é um dos maiores conhecedores.

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ATA , de Moacir Amâncio. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, 584 págs. E-mail: record@record.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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