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Moacir Amâncio: um poeta multilíngüe

20.02.2008
 
Pages: 12
Moacir Amâncio: um poeta multilíngüe

Adelto Gonçalves (*)

I

Um poeta que expressa seus sentimentos em vários idiomas -- esse é Moacir Amâncio (1949), que acaba de reunir vários livros num só, Ata, que vem acrescido de vários poemas inéditos, com o excelente ensaio “Poesia nômade”, de Berta Waldman, que permite ao leitor acompanhar a trajetória incomum de uma obra provavelmente única na poesia brasileira, como assinala na apresentação Odile Cisneros.

Ata inclui os livros Do objeto útil, Figuras na sala, O olho do canário, Colores siguientes, Contar a romã, Óbvio, At e Abrolhos. Seu título corresponde aos múltiplos sentidos que o poeta quis dar ao livro, muito bem desvendados por Berta Waldman, desde a ata em português (registro ou registo escritural) até a preposição at em inglês, passando pelo atá em hebraico (pronome pessoal masculino e advérbio tempo correspondente a agora em português).

É preciso que se diga que Amâncio, embora tenha surgido para a literatura nos anos de chumbo (1964-1985) e circulasse nos ambientes de esquerda da imprensa paulista na década de 70, não teve de viver obrigatoriamente no exílio por causa de suas idéias ou atos. A sua ausência no solo brasileiro, se houve, geograficamente, foi durante o tempo em que ganhou uma bolsa para estudar na Universidade Hebraica em Jerusalém já nos anos 80. Como observa Berta Waldman, o exílio de Amâncio nunca foi geográfico, mas na alma, a partir da necessidade de construir territórios de enunciação, como diz George Steiner em Extraterritorial: ensaios sobre literatura e revolução lingüística (Barcelona, Barral, 1973). E ocorreu de maneira consciente na ânsia de encontrar em línguas estrangeiras o que já não achava disponível no idioma português.

II

Amâncio estreou na literatura com a novela O saco plástico, de 1973, e, depois, surpreendeu a crítica com a prosa fragmentária e experimental de Estação dos confundidos (São Paulo, Símbolo, 1977), romance que trata da vida de Joaquim Chapeta Arruda, um deserdado da terra perdido na desumana e impessoal cidade de São Paulo.

Redator de texto conciso e preciso, Amâncio, que passou a maior parte de sua vida profissional nas redações dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, publicou ainda o livro de contos O riso do dragão (São Paulo, Ática, 1981), em que parecia já disposto a extravasar as fronteiras do gênero, deixando de lado um certo convencionalismo dos primeiros livros, embora o fragmentarismo e as quebras de frase já indicassem o caminho futuro.

Esse procedimento se acentuou em Súcia de mafagafos (São Paulo, TA Queiroz Editor, 1982), que reúne duas histórias bastante fragmentadas e com a linguagem da prosa já se misturando com a poesia, num tom meio juvenil.

O autor não renega sua obra anterior, mas, aparentemente, prefere deixá-la esquecida, pois não consta dos dados bibliográficos que aparecem em seus livros mais recentes. O que se conhece é que se rendeu à poesia a partir de 1992, quando lançou Do objeto útil (São Paulo, Iluminuras), disposto a oferecer uma nova proposta ao gênero, como se tivesse por meta escapar de uma certa linguagem exaurida pelo uso ao longo de todo um século de experimentação, repetição e diluições, para se assumir aqui o que o romancista Eustáquio Gomes escreveu na apresentação de Contar a romã (São Paulo, Record, 2001).

Essa virada, por coincidência ou não, deu-se depois que Amâncio imergiu na cultura judaica, a partir da temporada que passou em Jerusalém, que não só lhe inspirou parte dos poemas de Do objeto útil como o fez há poucos anos reencaminhar a sua vida como professor de Literatura Hebraica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ao deixar para trás o cotidiano da redação de O Estado de S.Paulo, passando a atuar apenas como colaborador de seu caderno de variedades.

Também aqui fez carreira inversa: preparou-se muito bem antes de entrar numa sala de aula como professor numa altura da vida em que a maioria dos docentes já sonha com a aposentadoria. Doutorou-se na área de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo com a tese Dois palhaços e uma alcachofra (São Paulo, Editora Nankin, 2001) em que discute as diferentes formas de se ver o Holocausto. Em poemas recentes, tem buscado um diálogo com a Ibéria hebraica de Sevilha e Córdoba.

III

Em Do objeto útil (Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, 1992), como um autêntico poeta pós-croncreto, mostra-se decididamente preocupado com a síntese, talvez como reflexo de sua atividade profissional, pois, à época dedicava-se a escrever as chamadas de primeira página de O Estado de S.Paulo, que sempre exigiram do redator um alto poder de síntetização. Veja-se este poema a título de exemplo: A lembrança da cinza/ destrói a porta./ O vento invade tudo,/ varre cantos, as frestas,/ assoalho, teto, ossos./ Deixa apenas metáforas.

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