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Antonio Vieira e o V Império

19.11.2008
 
Pages: 12

Essa idéia é reavivada nos séculos XVI e XVII, à época em que Portugal estava outra vez sob o jugo de Castela, depois da desastrosa campanha do rei D. Sebastião em terras africanas e a derrota em Alçácer-Quibir que levou ao seu desaparecimento. Para Pécora, é legítimo localizar-se em Vieira a idéia de um rei desejado e encoberto, tão cara à época da Restauração (1640), de que ele vai ser, sem dúvida, o intérprete máximo.

Embora a tradição do Encoberto remonte às “Trovas” do sapateiro de Trancoso, Gonçalo Annnes, escritas por volta de 1530-1540, a sua figura só se coloca de maneira adequada em Vieira, “quando a comunhão com o Ser de Deus aparece mediada por um Predestinado capaz de conduzir a história do homem a um ajuste com a verdade que Deus designa para ela”.

Mais adiante, Pécora lembra que o Estado sacramentado não o é sem que a vontade coletiva se ordene em um corpo hierárquico cujo modelo é monárquico. Com isso, diz, a eleição coletiva da nação se concentra sobre a sucessão dinástica. “Em seu interior, justamente Antonio Vieira prevê a geração do rei a quem caberá, por efeito do olhar da divindade e síntese da vontade comum, comandar com seus atos visíveis o desempenho das profecias relativas à conversão universal – o que, para ele, significaria, sobretudo, o estabelecimento do Estado de paz universal a que se deu o nome de V Império”, acrescenta, sem deixar de ressaltar, mais adiante, que, para Vieira, Portugal, por sua expansão no mundo, teria um papel fundamental no estabelecimento desse conjunto harmônico das nações, a derradeira utopia universal.

Essa idéia sempre encantou os poetas portugueses, a ponto de Fernando Pessoa retomá-la no começo do século XX no poema épico-nacionalista “Mensagem”, a uma época em que, depois do ultimatum inglês de 1890 que significou a subjugação explícita e às claras de Portugal a Inglaterra, já não havia o que celebrar, a não ser mitificar um passado cuja grandeza foi concretamente uma ficção, no dizer do pensador português Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade (Lisboa, Dom Quixote, 1992, p. 19).

Portanto, para conhecer melhor a história do que foi esse império de pobres – para citar outra vez Eduardo Lourenço (pág.40) – que se alastrou pelos quatro cantos do mundo, é fundamental entender o pensamento de Antonio Vieira. Afinal, sem se aprofundar nele não há como entender a atual relação dos portugueses com Portugal nem tampouco como compreender a presença do Brasil e dos brasileiros hoje no mundo. Nesse sentido, a contribuição deste estudo de Alcir Pécora é imprescindível e inestimável.

IV

Alcir Pécora é professor livre-docente de literatura na Unicamp, onde leciona desde 1977. Autor de estudos sobre literatura colonial brasileira e, em particular, do sermonário do padre Vieira, é crítico e colaborador de jornais e periódicos científicos no Brasil e no exterior. Entre suas publicações, destacam-se: Máquina de Gêneros (Edusp, 2001); As Excelências do Governador (Companhia das Letras, 2002); e Rudimentos da Vida Coletiva (Ateliê, 2003). Organizou dois volumes de Sermões (Hedra, 2000/ 2001), além das antologias A Arte de Morrer (Nova Alexandria, 1994) e Escritos Históricos e Políticos (Martins Fontes, 1995), todos a propósito da obra de Vieira. É ainda organizador da edição das obras completas de Hilda Hilst pela Editora Globo, de São Paulo.

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TEATRO DO SACRAMENTO: A UNIDADE TEOLÓGICO-RETÓRICO-POLÍTICA DOS SERMÕES DE ANTONIO VIEIRA, de Alcir Pécora. 2ª ed. Campinas: Editora da Unicamp. São Paulo: Edusp – Editora da Universidade de São Paulo, 288 págs., 2008, R$ 78,00.

E-mail: vendas@editora.unicamp.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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