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Quem diria?

19.10.2018
 
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Quem diria?

Entre 1942 e 1945, Carlos Drummond de Andrade (1902/1987), o nosso poeta maior, escreveu uma série de poemas reunidos sob o título de A Rosa do Povo. Nosso Tempo foi um deles.  Nele, Drummond fala sobre uma época de grandes decisões, quando o mundo se dividia entre o nazismo e a democracia e era preciso escolher um lado. Drummond escolheu o melhor lado e terminou esse poema dizendo que "o poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas prometa ajudar a destruí-lo como uma pedreira, uma floresta, um verme".

Drummond  entendia, porém que esse percurso não era fácil e que seria preciso deixar muitas coisas pelo caminho.

"Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra".

Hoje, órfãos do grande poema, vivemos novamente uma época de homens partidos.

No próximo dia 28, vamos ser chamados novamente a fazer uma opção, felizmente essa um pouco diferente daquela vivida pelo poeta, quando a vitória de um dos lados seria feita muito mais pela força das armas.

Essa nova decisão será tomada pela força dos votos, mas de certa forma vivemos o mesmo dilema.

Vamos decidir entre a continuidade da precária democracia em que vivemos ou um mergulho num projeto extremamente autoritário, que, em muitas de suas propostas, se aproxima de um fascismo explícito.

Mais do que uma disputa entre Fernando Haddad, que independentemente de suas qualidades pessoais, é um humanista, professor universitário e um homem de diálogo e Jair Bolsonaro, um capitão da reserva do Exército, autoritário, preconceituoso e acima de tudo uma pessoa dotada de escassos dons intelectuais, o que estará em jogo nas eleições é se nós brasileiros poderemos continuar sonhando com uma pátria mais solidária e justa ou mergulhamos de vez numa sociedade que cultua a violência e que discrimina os mais pobres.

Se no dia 28 não formos capazes de derrotar a besta e seu séquito de maldades, só nos restará tomar outro poema de Drummond - E agora, José - e usá-lo como epitáfio para a nossa falta de coragem.

E agora, José? / A festa acabou,/ a luz apagou / o povo sumiu,
a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome,
que zomba dos outros  você que faz versos / que ama, protesta? 
e agora, José? Está sem mulher,/ está sem carinho / está sem discurso / já não pode beber / já não pode fumar / cuspir já não pode / a noite esfriou / o dia não veio / o bonde não veio,/ o riso não veio / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou / e agora, José? Sua doce palavra / seu instante de febre sua gula e jejum / sua biblioteca / sua lavra de ouro / seu terno de vidro / sua incoerência, seu ódio - e agora? Com a chave na mão / quer abrir a porta / não existe porta / quer morrer no mar / mas o mar secou / quer ir para Minas / Minas não há mais / José, e agora? / Se você gritasse / se você gemesse / se você tocasse / a valsa vienense / se você dormisse / se você cansasse / se você morresse / Mas você não morre você é duro, José / Sozinho no escuro / qual bicho-do-mato, sem teogonia / sem parede nua / para se encostar,/ sem cavalo preto / que fuja a galope / você marcha, José / José, para onde?

 Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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