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As mazelas do capitalismo

19.09.2019
 
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As mazelas do capitalismo

Você que vive defendendo a primazia do mercado sobre os interesses da população, não deve assistir o filme Código de Honra (Puncture) de 2012, exibido com pouco destaque nos cinemas, apesar da presença do astro Chris Evans (O Capitão América) e agora disponível no Netflix.

Não deve assistir, porque o filme certamente vai abalar suas convicções sobre a excelência do sistema capitalista baseado na livre ação do mercado

O filme dirigido pelos irmãos Adam e Mark Kassen (este atuando também como ator), conta a história real de uma pequena firma de advogados do Texas, que resolve defender uma empresa que pretende entrar no mercado hospitalar dos Estados Unidos oferecendo um novo tipo de seringa de plástico totalmente segura, porque só pode ser utilizada uma única vez.

Até 1966 só se utilizavam nos Estados Unidos seringas de vidro, que após serem usadas poderiam ser esterilizadas no calor. A partir da morte do presidente da empresa Thompson, uma das gigantes da indústria médica, seus herdeiros optaram por um sistema de produção mais barato e de grande rotatividade: a seringa de plástico. Como essa não pode ser esterilizada, sua utilização é apontada em estudos como uma das principais causas pela disseminação descontrolada dos mais diversos tipos de doenças - inclusive a AIDS - em todo o mundo, devido a sua reutilização.

Ao defenderem uma enfermeira contaminada com AIDS por causa da picada de uma agulha, os advogados descobrem que essa era causa de milhares de mortes de trabalhadores da saúde porque os hospitais se negavam a comprar um novo modelo de seringa totalmente descartável, que já estava disponível no mercado, mas que era um pouco mais caro.

E, mais do que isso, os empresários do setor que dominava a produção das seringas, exerciam uma forte pressão sobre os hospitais impedindo que comprassem o novo produto, usando para isso meios lícitos e ilícitos.

No final, como é comum em filmes americanos de denúncias, um letreiro explica que a causa foi ganha pela firma dos advogados (nessa altura, Mike Weiss - papel vivido por Chris Evans - já tinha morrido de forma misteriosa) e a indústria médica é obrigada a pagar uma indenização de 150 milhões de dólares.

O que o filme não diz é que o uso da seringa totalmente descartável não é ainda uma prática obrigatória em todos os lugares, mesmo nos Estados Unidos, e com isso milhões de pessoas continuam sendo infectadas pelas seringas contaminadas e morrendo das mais diversas doenças,

Voltando ao aviso inicial aos defensores da primazia do mercado: esse é apenas um resumo frio da história do filme, sem um pingo da sua dramaticidade. Então se você é daqueles que acham que o Estado se intromete demais na vida das pessoas não veja o filme para não perder seus argumentos. Afinal, mesmo sendo um defensor ferrenho do mercado, certamente você não é tão desumano em acreditar que o lucro é mais importante que a vida das pessoas.

Então, não veja o filme.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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