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A dura vida de um intelectual

19.01.2017
 
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A dura vida de um intelectual

Eu me considero um intelectual. Embora não tenha nenhum documento que comprove isso, acho que posso me considerar um intelectual por exclusão das outras duas possibilidades. Não sou um operário, pelo menos no seu sentido clássico, porque não sei ao menos pregar um prego e a rigor nunca precisei da força física para ganhar a vida e também não sou patrão, porque nunca vivi do trabalho de outros.

Durante toda a minha vida, que já está até longa demais, vivi sempre de atividades ditas intelectuais como o jornalismo, a publicidade e o magistério, pelos quais, as vezes fui relativamente bem pago dentro dos padrões brasileiros, durante alguns períodos e mal pago na maioria deles.

Feita essa apresentação, preciso fazer uma distinção entre o intelectual que é assim considerado porque não faz trabalhos físicos - os jornalistas, os publicitários e professores - e o intelectual orgânico (vide Antonio Gramsci), aquele que atua como porta-voz de uma classe social.

Pretendo, deixando a modéstia de lado, me incluir nessa categoria de intelectual orgânico, a serviço da ideia do socialismo revolucionário, ideia que, diga-se de passagem, vem ganhando um novo destaque depois de décadas de ostracismo.

A rigor, foi com Lenin, que essa figura do intelectual engajado (outro termo que logo vai voltar à evidência) ganhou destaque. Lenin dizia "às portas da revolução" (título de um livro de Zizek) que o proletariado, por si só, seria incapaz de fazer a revolução e por isso o papel dos intelectuais (os orgânicos, certamente) seria o de dirigir a revolução.

Lenin lembrava que as lideranças operárias se limitavam a lutar por conquistas sindicais e não revolucionárias, em princípio.

Trazendo esse ensinamento para os nossos dias, se por exemplo, o PT fosse comandar uma revolução, seu líder não deveria ser Lula, porque, como líder sindical, sua visão seria apenas reformista, mas sim, talvez, Tarso Genro, por ser um intelectual orgânico.

Mas, o assunto ainda não é esse.

O que estou fazendo é uma pequena análise do papel do intelectual e as dificuldades de cumprir o que se espera de um intelectual.

Sempre soube que uma das obrigações do intelectual é ler muitos livros. Põe muitos nisso. Ler continuamente, desde a alfabetização até à cegueira final.

Cinema, teatro, música, são também importantes, mas são atividades passivas, ao contrário da leitura, que deve ser sempre ativa. Você não pode fechar os olhos nunca, como na música, ou ficar divagando, enquanto as imagens passam, num filme ou os atores dialogam, no teatro.

Os livros cobram muito e algumas vezes não te entregam o que prometem, mas se você abandoná-los no meio da leitura, corre o risco de sentir culpado depois.

Não o meu amigo Werner Becker, que arrumou uma desculpa para se absolver previamente

- Já li tanto, que se o livro não estiver me agradando, a culpa não é minha, mas do livro.

Infelizmente, ainda não cheguei nesse estado

Habitualmente, escolho bem o que pretendo ler e dificilmente erro. Recomendo estes novos filósofos marxistas, como Zizek, Badiou e Meszaros; análises históricas sobre a Segunda Guerra, a Revolução Soviética ou sobre o Oriente Médio, sempre trazem alguma coisa de útil; qualquer ensaio de Robert Fisk pode ser lido sem medo; biografias (Hitler, Trotsky,  Churchill, Stalin) são sempre interessantes; caso a pedida seja um romance e se não quisermos voltar aos clássicos com Martin du Gard, Steinbeck, Faulkner, Gore Vidal, Tolstoi, Sarte ou Saramago, podemos ler sem receio qualquer livro do Phillip Roth, do Padura ou do Ian McEwan.

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, me joguei na leitura da tradução que Antonio Houaiss fez de Ullysses, de James Joyce. Virou uma guerra. Tudo me mandava colocar o livro na prateleira, mas fui heroicamente até o fim para poder dizer que tinha lido Joyce.

Há pouco, descobri lendo um artigo do Milton Ribeiro no Sul21, que o trabalho do Houaiss, apesar de meritório é confuso, que pouca gente acompanhou até o fim as desventuras de Leopold Bloom e que uma nova versão da obra, traduzida por Ceateno Gallindo, poderia devolver o prazer da leitura desse livro, considerado por muitos como o mais importante da literatura inglesa.

Ainda não arrisquei, mas com o crédito que o Milton Ribeiro ficou merecedor, aceitei uma indicação dele e comprei na Estante Virtual (recomendo), Extinção, do Thomas Bernhard. Confesso que estou penando na sua leitura, como há muito não ocorria, mas prometo que vou até o fim. Agora só faltam umas cinquenta, das suas 470 páginas.

Depois, vou recomendar o livro no meu blog, esperando que outros repitam essa minha via crucis.

Parodiando Euclides da Cunha, dos Sertões, o intelectual é antes de tudo um forte.
Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 

 


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