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De Barcelona para Barcelona

19.01.2007
 
Pages: 123
De Barcelona para Barcelona

A historiografia brasileira tem bastante registrada a ligação de trabalhadores portuários de Santos com o anarquismo do início do século XX e a onda de greves iniciada em 1917.

Alessandro Atanes (*)

I

A historiografia brasileira tem bastante registrada a ligação de trabalhadores portuários de Santos com o anarquismo do início do século XX e a onda de greves iniciada em 1917. O professor Adelto Gonçalves transformou um episódio desse momento no romance Barcelona Brasileira (2002, no Brasil; 1999, em Portugal), que opõe aparato policial a trabalhadores em plena luta de classes [1] .

O grande lance da história é que ela é narrada pelo ponto de vista de O Poeta, o protagonista, um escritor e médico da cidade inspirado no poeta santista Martins Fontes (1884-1937), um burguês de alma libertária.

O uso do jargão bem marxistão até que cai bem em uma história de greves de 1917, mas muita água passaria pelo estuário da história até que o autor fosse escrevê-la no início dos anos 1980, ainda que só a publicasse no Brasil já no século XXI, em 2003. Uma obra repleta de cargas históricas: o conflito social encoberto pela Belle Époque , a redemocratização dos anos 80 e, perdoe a expressão, a social-democracia-financeiro-tucano-lulista do fim de século neoliberal.

Na história literária, o tempo decorrido entre essas três historicidades – as tais das cargas históricas – testemunhou o romance realista em sua fase final, a ascensão do modernismo, a crise do romance com a publicação de Ulysses, de James Joyce, na década de 20, e outras obras inovadoras, “abertas”; outras conseqüências são a maturação do jornalismo literário e até o realismo mágico, ainda que gênero distante da ação que acompanhamos em Barcelona Brasileira.


II

Mas devo aqui me concentrar no que está no título, o empréstimo do nome de um local por motivos políticos, processo que passa a ser designado aqui por toponímia ideológica, uma brincadeira conceitual usada para designar os nomes de caráter ideológico de um lugar (topos).

E isso acontece por duas vias: a das relações históricas entre Santos e outras cidades portuárias (Nova York, Buenos Aires, Barcelona, Hamburgo), ou a das relações simbólicas entre Santos e cidades que lhe fornecem apelidos ideológicos, pelos quais a cidade se transforma em território de internacionalização das lutas operárias. Participando da batalha ideológica ou tecendo um painel histórico, os autores da literatura portuária realimentam esse imaginário.

Além do título do romance de Adelto Gonçalves, Santos também foi chamada de Moscou Brasileira, Cidade de Prestes, Cidade Vermelha (tanto contra como a favor) e, numa chave política mais conservadora, Cidade da Liberdade e da Caridade. Há até a versão reduzida Moscouzinha Brasileira, a qual une a promessa de revolução à garantia do aconchego brasileiro que o uso do diminutivo garante à expressão, uma clara manifestação das relações cordiais do brasileiro, ao estilo de Sérgio Buarque de Holanda.

Dois trabalhos históricos já analisaram esse aspecto do imaginário da cidade. As obras Operários sem Patrões: Os trabalhadores de Santos no entreguerras, de Fernando Teixeira Silva, e Porto vermelho: A maré revolucionária (1930-1951), de Rodrigo Rodrigues Tavares, avaliam as estratégias do movimento sindical, dos intelectuais e do aparato repressor em invocar o nome destas cidades para tratar de Santos.

Outro exemplo de episódio histórico levado para a ficção foi a decisão tomada por estivadores de não embarcar café em um navio nazista cujo destino era a Espanha governada por Franco. A passagem é um dos principais eventos narrativos do romance Agonia na noite (1954), de Jorge Amado (1912-2001). É ela que motiva a ação e as situações de conflito entre trabalhadores e repressão.

O internacionalismo operário se reflete também na obra literária do escritor estado-unidense John dos Passos (1896-1970). No romance 1919 (1932), os personagens são jovens, na maior parte de esquerda e pacifistas, que se engajam durante a Primeira Guerra Mundial em serviços como a Cruz Vermelha, representações políticas, o jornalismo ou a burocracia administrativa. O espaço desse engajamento é aquele formado pelo circuito de viagens entre os portos do Mar Mediterrâneo e os da costa atlântica da América, um território desde o fim do século XIX disputado com o imperialismo, e, logo depois, pelas ideologias totalitárias. Já durante a Segunda Guerra, o mesmo contingente, ainda que mantivesse o horizonte da revolução, já era de caráter bem mais nacionalista.

Em Barcelona Brasileira, esse espaço internacional é percorrido pelo personagem Ángel Blanco, líder operário do cais santista, espanhol criado no cais de Barcelona, ladrilheiro, anarquista desde criancinha, militante, preso pela primeira vez aos 18 anos, exilado. Foge para Buenos Aires em um navio argentino e, no meio do caminho, prefere descer em Santos para não complicar o comandante, seu amigo. Na descrição, Blanco é talhado desde criança para a luta de classes:

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