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Os espelhos da história

18.11.2008
 
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Passaram-se os anos, pouco tempo depois ele morreu. Agora, há pouco tempo, a Cruz Vermelha dos Estados Unidos resolveu adotar seu nome. Charles Drew não ficou sabendo. Eu não acredito muito nisso, perdão é assim, te peço perdão, sobretudo quando o crime está tão distante, mas quase em nenhum caso também. Palavras para a realidade e sua memória.


O século XX que nasceu anunciando “paz e justiça” morreu banhado em sangue e deixou um mundo muito mais injusto do que aquele que havia encontrado. O século XXI, que também nasceu anunciando “paz e justiça”, está seguindo os passos do século anterior.


Na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que se perdia na Terra ia para a Lula, mas...os astronautas não encontraram na Lua sonhos perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças frustradas...Se não estão na Lua, onde estão?


Será que não se perderam na Terra? Será que se esconderam na Terra e estão esperando...esperando por nós, os humanos.


Darwin nos informou que somos primos dos macacos, não dos anjos. Depois soubemos que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha havia nos trazido no bico desde Paris, e não faz muito ficamos sabendo que nossos genes são quase iguais aos genes dos ratos...já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou uma má piada do diabo.


Nós, os humanos; os exterminadores de tudo; os caçadores do próximo; os criadores da bomba atômica, da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa intactas as coisas.


Os únicos animais que inventam máquinas, os únicos que vivem a serviço das máquinas que inventam.


Os únicos que devoram sua casa; os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer; os únicos capazes de alugar-se ou vender-se ou de alugar ou vender os seus semelhantes. Os únicos que matam por prazer; os únicos que torturam; os únicos que violam e também...e também os únicos que riem.


Os únicos que sonham despertos; os únicos que fazem seda da baba da lagarta; os que convertem lixo em formosura; os que descobrem cores que o arco-íris não conhece; os que dão novas músicas às vozes do mundo e criam palavras para que a realidade e sua memória não sejam mudas.


OS ÍNDIOS ERAM CEGOS?
Quando eu estava na escola, a professor nos explicou que Vasco Núñez de Balboa tinha sido o primeiro homem a ver os dois oceanos, a ver os dois mares de uma só vez, o Pacífico e o Atlântico, desde uma montanha no Panamá; o primeiro homem.


Eu levantei e a mão e disse: - Senhorita, senhorita...
- Sim?
- Os índios eram cegos?
- Fora!
Foi minha primeira expulsão.
Quem foram os primeiros a nomear o milho, a batata, o tomate, o chocolate, as montanhas e os rios da América?
Hernán Cortez? Francisco Pizarro?
Os que viviam ali eram mudos?
Os peregrinos do My Flower escutaram...Deus dizia que a América era a terra prometida.


Os que viviam ali eram surdos?
Depois, os netos daqueles peregrinos do norte se apoderaram do nome e de todas as demais coisas. Agora, americanos são eles; nós, que vivemos nas outras Américas, o que somos?


Os chamados índios – por um erro geográfico notório de Colombo – preferem chamar-se a si mesmo de nativos, que é uma maneira muito mais formosa de dizer quem são. Eles foram muito maltratados e seguem sendo por uma conquista que continua, século após século, nas terras da América.


Podemos citar ainda um par de exemplos próximos: a maior avenida do Uruguai leva o nome de Fructuoso Rivera que assassinou os últimos charruas, e a estátua mais alta da Argentina é a do general Roca que exterminou os índios da Patagônia.


Milhares de mortos sem sepultura perambulam pelo Pampa argentino. São os desaparecidos da última ditadura militar. A ditadura do general Videla aplicou em escala jamais vista o desaparecimento como arma de guerra. Aplicou, mas não inventou...


Um século antes, o general Roca havia usado contra os índios esta obra-prima da crueldade que obriga a cada morto morrer várias vezes e que condena seus entes queridos a enlouquecerem perseguindo sua sombra fugitiva.


Na Argentina, como em toda América, os índios foram os primeiros desaparecidos. Desapareceram antes de aparecer.


O general Roca chamou a invasão das terras indígenas de “Conquista do deserto”. A Patagônia era um espaço vazio, um reino do nada habitado por ninguém. E os índios seguiram desaparecendo depois.
Os que se submeteram e renunciaram à terra e a tudo foram chamados “índios reduzidos”. Reduzidos até desaparecer.


O CIDADÃO JOSÉ ARTIGAS
O país teve educação laica e gratuita antes da Inglaterra; voto feminino antes da França; jornada de trabalho de 8 horas antes dos Estados Unidos e Lei do Divórcio antes da Espanha.


O presidente José Batlle (don Pepe) nacionalizou os Serviços Públicos, separou a Igreja do Estado; mudou os nomes do calendário. A Semana Santa ainda se chama, entre nós, Semana do Turismo, como se Jesus tivesse tido a má sorte de morrer em uma data assim.


A “arquitetura da morte” é uma especialidade militar. Em 1977, a ditadura uruguaia erigiu um monumento funerário em memória de José Artigas.

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