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Os espelhos da história

18.11.2008
 
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Estamos acostumados a condenar com toda razão as atrocidades cometidas pelos fundamentalistas islâmicos contra as mulheres, mas não estamos tão acostumados a inteirar-nos, por exemplo, de que a Igreja Católica – que me formou; eu tive uma infância muito católica – proibiu durante sete séculos e meio, até bem pouco tempo (até mil novecentos e vinte e pouco), que as mulheres cantassem nos templos. E proibiu porque as vozes das filhas de Eva sujavam a pureza do ar.


Tampouco estamos acostumados a inteirar-nos de que a revolução laica por excelência - a Revolução Francesa que chegou para fundar a igualdade de direitos no mundo - proclamou lá por 1793 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas quando uma militante revolucionária, chamada Olímpia de Gouche, propôs uma Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, a Revolução Francesa cortou-lhe a cabeça na guilhotina.


Em outra pergunta que marquei aqui, porque há muitas histórias de mulheres, mas para resolvê-la com uma mais...
Quando eu era menino, havia...creio que ainda há uma rua chamada Concepción Arenal e eu queria saber quem era Concepción Arenal. Ninguém me explicava, ninguém sabia quem era ela. Assim, não tive outro remédio que investigar por minha própria conta e escrevi o seguinte sobre ela: “Passou a vida lutando com alma e vida, contra o inferno das prisões e pela dignidade das mulheres presas nas cadeias, disfarçadas de lares”.


Contra o costume de absolver generalizando, ela clamava “ao pão, pão, ao vinho, vinho”. Quando a culpa é de todos, é de ninguém, dizia.


E assim ganhou uns quantos inimigos e, ainda que seu prestígio já fosse indiscutível, seu país custava a acreditar – e não só em seu país, em sua época também.


Por volta de 1840, Concepción Arenal assistiu aos cursos da Faculdade de Direito, disfarçada de homem. Escondia o peito com um duplo corpete. Por volta de mil oitocentos e cinqüenta e poucos seguia disfarçando-se de homem para poder freqüentar as tertúlias madrilenhas onde se debatiam temas impróprios em horas impróprias;


Já por volta de 1870, uma famosa organização inglesa, a Sociedade Howard para a reforma das prisões, nomeou-a representante na Espanha e o documento de sua nomeação foi expedido em nome de “Sir” Concepción Arenal. Quarenta anos depois, outra galega, como Concepción, Emilia Pardo Bazán, foi a primeira mulher catedrática em uma universidade espanhola.


Nenhum aluno se dignava a escutá-la. Dava aulas para ninguém...


Algum amigo, desses perversos que todos temos (e que nunca faltam), me disse: “Por que não para de se incomodar com as mulheres se o sistema já te ofereceu em uma bandeja a Margaret Thatcher, a Condoleezza Rice e agora a Sara Paling que parece ser a pior de todas”.


A questão não é se as mulheres são melhores que os homens, mas sim que o caminho para a igualdade de direitos tem sido muito duro e ainda está pela metade. Os direitos não se presenteiam, se conquistam, e não me parece demais recordar que a igualdade de direitos que as mulheres ainda não conquistaram, mas que evidentemente já avançaram nesta direção, tem sido o resultado do trabalho de muitas mulheres que se engajaram nesta luta.


Tampouco acredito que os negros sejam melhores que os brancos, mas acredito que o mundo está doente de racismo e por isso me parece muito positivo que Obama seja um candidato com boas possibilidades de conquistar a presidência dos Estados Unidos, não porque eu compartilhe tudo o que ele diz, especialmente o que diz quando anuncia que o Irã é o pior inimigo da humanidade, ou quando ameaça invadir o Paquistão, ou quando emprega a linguagem de McCain a tal ponto que causa aborrecimento escutar o mesmo de um lado e de outro.


Mas é um fato positivo pela simples razão de que é a primeira vez que isso ocorre. E ocorre em um país muito racista, gravemente enfermo de racismo. Para começar com outra pergunta: Adão e Eva eram negros?


A viagem humana pelo mundo começou na África. Foi a partir desta região que nossos avós empreenderam a conquista do planeta. Os diversos caminhos fundaram os diversos destinos e o Sol se ocupou de reparti-los em cores. Agora, as mulheres e os homens arco-íris da terra, temos mais cores que o arco-íris do céu, mas somos todos africanos emigrados...somos todos africanos emigrados.


Até os brancos branquíssimos vieram da África. Talvez nos neguemos a recordar nossa origem comum porque o racismo produz amnésia ou que porque nos é impossível acreditar que naqueles tempos remotos o mundo inteiro era nosso reino, um imenso mapa sem fronteiras, e nossas pernas eram o único passaporte exigido.


Quando digo que Obama é importante – sobretudo em um país como os Estados Unidos – estou me referindo a coisas que ocorreram há, digamos, quinze minutos, porque, em termos históricos, por exemplo em 1943, que é logo ali, o Pentágono proibiu as transfusões de "sangue negro". Os EUA tinham entrado na guerra e não queriam que se fizesse por injeção a mescla de raças proibida na cama. O presidente da Cruz Vermelha era o cientista que tinha tornado possível o desenvolvimento do plasma com suas investigações, tinha tornado possível a conservação do sangue. O homem que salvou milhões de vida disse que ele se negava a cumprir a ordem porque era um disparate, o sangre negro não existia. “Todo o sangue é vermelho, pelo menos o que eu conheço”. Ele foi demitido. Chamava-se Charles Drew e era negro. Era negro.

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