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Os espelhos da história

18.11.2008
 
Pages: 1234
Os espelhos da história

O livro mais recente de Eduardo Galeano, "Espelhos - uma história quase universal", é lançado em português durante a Feira do Livro de Porto Alegre. No dia 19 de outubro, Galeano recebeu, em Montevidéu, o prêmio Bartolomé Hidalgo, quando participou de uma conversa pública sobre o tema do livro. Publicamos aqui o resumo desta conversa.

No dia 19 de outubro deste ano, Galeano recebeu, em Montevidéu, o prêmio Bartolomé Hidalgo, na Feira Internacional do Livro. Na ocasião, Galeano fez uma longa conversa pública sobre o tema de “Espejos”, obra na qual ele se propõe a falar do que não é falado, a contar o que não é contado. O jornal uruguaio La Republica publicou um resumo da fala de Galeano, que reproduzimos aqui.

EDUARDO GALEANO

Redação - Carta Maior

Eduardo Galeano lança nesta quinta-feira (13), em Porto Alegre, a edição brasileira de seu mais recente livro, “Espejos” (Espelhos), publicada pela Editora L&PM. O escritor uruguaio participa de uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre e depois participa de um debate no auditório Dante Barone, da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.


No dia 19 de outubro deste ano, Galeano recebeu, em Montevidéu, o prêmio Bartolomé Hidalgo, na Feira Internacional do Livro. Na ocasião, Galeano fez uma longa conversa pública sobre o tema de “Espejos”, obra na qual ele se propõe a falar do que não é falado, a contar o que não é contado. O jornal uruguaio La Republica publicou um resumo da fala de Galeano, que reproduzimos aqui.


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"Eu queria compartilhar com vocês alguns dos relatos do último livro que cometi, que se chama “Espelhos” e que está armado sobre seiscentos relatos – não vou ler os 600, que ninguém entre em pânico, ninguém vá embora, não há perigo. Vou fazer uma seleção de uns poucos textos que considero reveladores do que o livro quis ser ou fazer: (muito modestamente), contar nada mais do que a história do mundo até onde se podia chegar.


E isso através de pequenas histórias, não só por sua extensão, mas também porque sempre me ocorre de olhar o universo pelo olho da fechadura, ou seja, redescobrir as grandezas desde o mais pequeno. Viajando desde essas coisas mais pequenas em direção às coisas que, verdadeiramente, têm grandeza (que não são as coisas mais grandes), e recontando a realidade desde o ponto de vista dos que estiveram lá, mas não foram lembrados porque a história oficial os suprimiu.


Há um primeiro relato que vou ler agora que, de alguma maneira, sintetiza toda a intenção do livro e que se chama “O herói”. Diz assim: “Como teria sido a guerra de Tróia contada desde o ponto de vista de um soldado anônimo; um grego a pé, ignorado pelos deuses e desejado só pelos abutres que sobrevoam as batalhas”.


Um camponês metido a guerreiro, cantado por ninguém, esculpido por ninguém. Um homem qualquer obrigado a matar e sem o menor interesse de morrer pelos olhos de Helena.


Teria pressentido esse soldado o que Eurípedes confirmou depois? Que Helena nunca esteve em Tróia; que apenas sua sombra esteve ali.


Que ocorreram dez anos de matanças por uma túnica vazia.


E se esse soldado sobreviveu, o que recordou?
Quem sabe! Talvez o cheiro. O cheiro da dor e somente isso.
Três mil anos depois da queda de Tróia, os correspondentes de guerra Robert Fisk e Fran Sevilla nos contas que as guerras doem.
Eles já estiveram em várias delas, as sofreram por dentro e conhecem esse cheiro de podridão quente, doce, pegajosa, que se mete por todos os poros e se instala no corpo. É uma náusea que jamais nos abandonará.


O livro se propõe falar do não falado, contar o não contado. Tenta responder algumas perguntas que zombem na minha cabeça, a maioria delas há anos – e que provavelmente seguirão zumbindo -, mas que aqui encontraram uma primeira tentativa de resposta como esta pergunta que eu me fiz quando, faz já algum tempo, tive a sorte de ver as pinturas rupestres na caverna de Altamira. As pinturas rupestres mais famosas do mundo em Altamira.


Eu as vi estendido em uma mesa de pedra e olhando para o teto – porque estavam pintadas no texto da caverna – e então me fiz uma pergunta, que é a pergunta que está aqui no texto, que vou ler agora: “Estas figuras estão ali pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas: bisões, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens...não têm idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo cada vez que alguém as olha. Como puderam eles, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como puderam eles, esses brutos que lutavam com as mãos contra animais ferozes, criar figuras tão cheias de graça? Como puderam eles rabiscar essas linhas voadoras que escapam da rocha e ganham o ar? Como puderam eles...ou eram elas...ou eram elas?


Repeti essas perguntas durante muitos anos. Fui lendo os livros que iam aparecendo sobre o tema e comprovei que a pergunta não era muito freqüente porque a ninguém ocorria a possibilidade de que as pinturas pré-históricas fundadoras da beleza no mundo fossem obra de mulheres.


E isso não tem nada de raro, porque as mulheres têm sido transformadas em ninguém pela história oficial e maltratadas pela história real.

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