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Raimundo Narciso: N. Krutchev, o estalinismo e o mundo actual

18.11.2006
 
Pages: 1234
Raimundo Narciso: N. Krutchev, o estalinismo e o mundo actual

Nikita Krutchev conseguiu importantes vitórias mas as suas reformas revelaram-se insuficientes e falhou o intento de colocar o comunismo em boa via. Gorbatchov, 30 anos depois diria que pegando no testemunho de Krutchev fez nova tentativa com o mesmo objectivo e… com o mesmo resultado.

(...) Nikita Krutchev conseguiu importantes vitórias mas as suas reformas revelaram-se insuficientes e falhou o intento de colocar o comunismo em boa via. Gorbatchov, 30 anos depois diria que pegando no testemunho de Krutchev fez nova tentativa com o mesmo objectivo e… com o mesmo resultado. Com ele fracassou a experiência soviética e o próprio país. Não estou certo que aqui os meus amigos renovadores do comunismo português tenham êxito maior mas apesar de tão temerária ambição desejo-lhes sinceramente o maior sucesso.

Na noite de 24 de Fevereiro de 1956, Nikita Krutchev não quis deixar para o dia seguinte a leitura aos delegados do seu explosivo relatório, verdadeira bomba atómica política, com a qual queria mudar o rumo da União Soviética, exorcizar o seu passado e sem dúvida consolidar o seu poder.

Uma reunião do Praesidium do CC realizada no decorrer do próprio congresso, na qual se discutiu a decisão de Krutchev de apresentar o relatório da denúncia do culto da personalidade e dos crimes de S tinha revelado a forte oposição de um poderoso grupo de dirigentes, entre os quais, Molotov, Kaganovitch, Vorochilov.

Oposição tão forte não aconselhava a esperar toda uma noite em que maus sonhos podem engendrar perigosas manobras e Krutchev conseguiu a maioria no Praesidium para que a sessão prosseguisse pela noite fora. Não sem antes libertar a minoria vencida da regra de apoiar a decisão do Praesidium e cada um no congresso defender a sua opinião. Krutchev queria que as suas revelações impedissem qualquer recaída estalinista e garantisse o início de uma nova era.

Uma das consequências da sua iniciativa viria a beneficiá-lo directamente. A partir de agora as diferenças de opinião, não aquelas que se cinjam à ideologia ou à orientação política mas aquelas que afectem a preservação do poder, deixavam de ser resolvidas com o fuzilamento de quem tinha menos força.

Lembremos que Nikita Krutchev já tinha resolvido com os seus aliados conjunturais o problema Béria.

Nikita Krutchev apesar de estar a falar para delegados ao congresso, portanto para quadros comunistas com experiência e responsabilidades e não a marcianos acabados de aterrar no palácio do Kremlin, não deixou de criar à maioria verdadeiro estupor senão mesmo, nalguns casos, incredulidade, tão monstruosas eram as revelações até ali mantidas secretas. Krutchev numa longa narrativa de várias horas subtraiu aos congressistas um Stáline idolatrado, guia do omnisciente do movimento comunismo e da União Soviética, “pai dos povos” e deixou-lhes desnudado, um déspota brutal, com traços paranóicos para o fim da vida, responsável por inomináveis crimes e erros políticos.

Quem era este homem, Krutchev, que se atrevia a abalar os alicerces do Estado totalitário e a deitar por terra a imagem do homem cuja evocação ainda, em 1956, fazia tremer os que com ele privaram de mais perto, aqueles que nos últimos tempos da vida de Stáline nunca sabiam se a sua chamada ao Kremlin lhes garantia o regresso a casa ou os destinava à prisão?

Quem era este Nikita Krutchev? Era um ucraniano inteligente, extrovertido, sagaz, de pouca cultura, de origem muito pobre a quem a revolução abriu caminho ao sucesso. Começou a trabalhar ainda criança como operário. Foi estudando aqui e ali até atingir o quarto ano de escolaridade e depois já adulto frequentou por insistência sua, nas oportunidades que lhe surgiam, cursos mais de formação profissional que de ciência pura. Voluntário no Exército Vermelho, activista político e sindical inscreveu-se no partido bolchevique em 1918 e foi eleito secretário do comité local.

Em 1921/22, período de grande fome, já um quadro político do partido com importância local, trabalha numa mina. As condições de vida são tais que se não é socorrido pelo dono da casa onde partilhava um quarto – ironia do destino, um kulak - teria certamente morrido à fome. O que aliás viria a suceder mais tarde à sua primeira mulher. Fez uma carreira bem sucedida sob a protecção de Lazar Kaganovitch. Subia a pulso, com uma fé inquebrantável no comunismo e a sua trajectória é paradigmática das oportunidades de ascensão criadas na nova ordem social às camadas mais despossuídas da sociedade.

Em 1934, Krutchev foi eleito delegado ao célebre XVII congresso que ficou conhecido como o “congresso dos vencedores”. E sofreu uma das primeiras machadadas na sua fé sem limites no partido. Kaganovitch já um dos poderosos dirigentes, do círculo próximo de Stáline pede-lhe a ele e outros novatos da sua confiança que na votação risquem o nome de Molotov e Voroschilov, porque era preciso garantir que Stáline fosse o mais votado.

Depois da morte do ditador veio a descobrir-se que ele tinha tido 260 votos contra e não os 6 que foram anunciados enquanto que o mais popular dirigente da época, Kirov tinha tido, de facto apenas 3 votos contra. (Memórias de Krutchev, página 42)

Quem era este “Nikita Krutchev que acabou por ir mais longe que os todos os seus colegas na via da desestalinização” pela “aceitação pessoal de enfrentar o seu passado de estalinista, por autêntico arrependimento, habilidade política, populismo específico,… vontade de voltar à legalidade comunista”?

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