Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Leituras de Bocage

18.10.2007
 
Pages: 123
Leituras de Bocage

Adelto Gonçalves (*)

I

Com quase dois anos de atraso – o que não é raro, tratando-se de publicações acadêmicas em todo o mundo –, saiu à luz o volume que reúne as 15 comunicações apresentadas ao Colóquio Internacional Leituras de Bocage (séculos XVIII-XXI), organizado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), por ocasião do bicentenário da morte do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), a 28 de Outubro e a 24 e 25 de Novembro de 2005.

Organizadora do livro e autora da introdução, a professora Maria Luísa Malato Borralho, da FLUP, assina também um apurado ensaio, “Os sons, pincéis febeus. Para uma retórica da música e do sublime”, em que destaca o inegável gosto de Bocage em inventar palavras, mots-valises, “combinando sinestesicamente características de sensações distintas”, muito antes de Guimarães Rosa, Luandino Vieira e Mia Couto, para citar alguns autores contemporâneos que se destacaram por produzir uma literatura permeada de palavras inventadas.

E lembra que no poeta “o som e o horror tornam-se horríssonos; o penedo que provoca o naufrágio é navífrago; o quadro trágico da morte da Natureza no Inverno é trágico-invernoso; o brilho do ouro é aurifulgente; o que tudo faz brilhar é omnifulgente; o queixume doce é dulcíssono”.

II

Já a professora Maria de Fátima Marinho, também da FLUP, em “Bocage revisitado”, procura se preocupar com a figura de Bocage e o modo como ela foi romanceada, já que a recriação do passado é absolutamente impossível, pois “a ideologia do autor está sempre subjacente a qualquer enunciado, por maior que seja a preocupação de rigor e objectividade”. Embora essa tenha sido uma preocupação oitocentista, obras do século XX ainda incorrem nesse logro – e, se calhar, algumas do século XXI também.

A professora cita como exemplo A verdadeira paixão de Bocage (1926), de Artur Lobo d´Ávila e Fernando Mendes, em que seus autores se preocupam em recuperar a “cor local”, bem na linha dos ditames de Herculano, que tinha “a preocupação de legitimar o discurso, transformando-o numa réplica do real, tanto mais ingênua, quanto mais, aparentemente, perfeita”.

Entre outros exemplos, Maria de Fátima cita Bocage: Episódios de sua vida (1936), de Rocha Martins, em que o autor segue na esteira de d´Ávila e Mendes, “realçando a conjuntura política, a Nova Arcádia, a realização de outeiros ou o fanatismo do confessor de D.Maria I”. Em ambos os livros e outras tentativas biográficas, diz a ensaísta, a transcrição de poemas, à falta de documentos de arquivo, parte de uma leitura biográfica dessas peças, “não havendo qualquer transposição para um nível secundário de análise”.

Por fim, ressalta que, em 2002, José Jorge Letria, com Já Bocage não sou, assume um tipo de narração que se afasta consideravelmente do utilizado no romance histórico tradicional, lembrando que o processo de autobiografia fictícia pretende atingir a verdade através de uma falsa premissa, uma vez que é sempre uma transposição literária de algo que só idealmente seria verdade.

Com o uso da primeira pessoa do singular neste tipo de texto, diz Maria de Fátima, a subjetividade ganha foros de cidadania, uma vez que a voz do narrador se anula para, ficticiamente, ceder a palavra ao protagonista. De fato, como observa a autora, o uso da primeira pessoa tem como conseqüência o aparecimento de considerações demasiado íntimas para que possam ter pretensões a verdades absolutas.

III

Por sua vez, o professor J.Cândido Martins, da Universidade Católica Portuguesa, de Braga, em “Ler e ensinar Bocage hoje: para o estudo da recepção de Bocage”, faz um percurso alentado de boa parte do que se publicou a respeito do vate setubalense, ressaltando a mais recente contribuição ao desenvolvimento dos estudos bocageanos que se deu em 2004 com o início da publicação da quarta edição da Obra Completa de Bocage, pelas Edições Caixotim, do Porto, a cargo de Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocageanos, de Setúbal, depois das edições de Inocêncio Francisco da Silva, Teófilo Braga e Hernani Cidade.

Até o momento, apenas três dos sete volumes projetados saíram à luz, mas, como observa Cândido Martins, já é possível ressaltar os méritos da edição dirigida por Pires. Entre outros méritos, afirma, a edição tem o de acrescentar textos inéditos de Bocage e atualizar e uniformizar os critérios de transcrição textual, ser uma edição cuidadosamente anotada, que pensa no grande público, e de vir em cada volume sempre acompanhada por importantes estudos introdutórios.

IV

O próprio Daniel Pires comparece em Leituras de Bocage com “Inocêncio Francisco da Silva editor de Bocage” em que considera a publicação da obra completa de Bocage em 1853, por iniciativa de Inocêncio, como o preenchimento de uma lacuna, 48 anos depois da morte do poeta, já que as tentativas anteriores haviam sido permeadas pela atribuição abusiva de poemas, por incúria na transcrição e pelo oportunismo de alguns editores pouco escrupulosos.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular