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Ataques à Língua

18.06.2008
 
Ataques à Língua

Coitadinha da língua falada no fazendão! Ela sofre ataques de todos os lados! São ataques incessantes mas cíclicos. A cada época, uma expressão ou grupo de palavras são escolhidos, além de serem embalados, é claro, pelo rolo compressor da mediocrização militante aquartelada no Planalto Central do país.


Há, sem dúvida, o já conhecido e permanente estado de beligerância contra a crase (“saída à 500 metros”); agora, alguns anúncios inventaram de colocar acento agudo na preposição “a” (“pague á partir de julho”), numa aparente crise de consciência reversa. Mas… os ataques da moda são dois, e eles podem ser vistos em diversos lugares de respeito, como sites jornalísticos de primeira linha, telejornais de rede e até mesmo jornais de circulação nacional.


O primeiro deles tem a ver com a confusão entre “sob” (em baixo de) e “sobre” (em cima de). Outro dia, li uma notícia sobre Fórmula 1 que me deu pena de um piloto que, dentro das CNTP, só me chama a atenção pela antipatia. O texto dizia que Kimi Raikonnen estava (ou ainda está) pensando em deixar a categoria porque está cansado dessa vida.

Segundo a notícia, o negócio dele é se divertir pilotando carros velozes, e não enfrentar essa roda-viva de aparições em eventos publicitários. “Ele está cansado de viver sobre os holofotes”, dizia um amigo de Kimi citado na notícia, certamente traduzida das agências internacionais. Fiquei penalizado. Pilotar um carro de Fórmula 1 com toda a tensão que essa atividade naturalmente envolve, e ainda por cima com a bunda ardendo, em carne viva, deve ser fogo. Não é surpresa que o coitado esteja querendo cair fora. Vai ver que foi por causa desse desconforto que ele se desconcentrou e entrou com tudo na traseira do pobre Sutil lá em Mônaco.


O segundo ataque da moda tem a ver com os verbos “posar” (fazer pose) e “pousar” (aterrissar). A coqueluche agora é inverter as coisas. Outro dia, coincidentemente citando mais um exemplo do mundo do automobilismo, foi Lewis Hamilton que “pousou” para umas fotos em que ele aparecia pendurado por uns cabos numa suposta peça de teatro. Além do ridículo explícito das fotos, ficou também o ridículo explícito do texto – uma vergonha realçada pelo calibre do site platinado que o publicou.


Mal refeito do susto, li uma notícia a respeito de um passaralho que teria “posado” na Arquidiocese do Rio de Janeiro, provocando a demissão de quase vinte profissionais. Pensei comigo: deve ter sido uma tremenda foto pornô, mas… num lugar tão espiritualizado? Que situação! Haveria testemunhas? O respeitado colunista não publicou a foto – talvez como forma de reverenciar a santidade do lugar, ainda que não descuidasse do jornalismo – mas, de qualquer jeito, ficou a expectativa. Como deveria ter sido o instantâneo do tal passaralho?


Não, leitor(a). Não foi, evidentemente, uma sessão de fotos desse tão infame voador. O passaralho em questão, como todos os outros, voou sobre a Arquidiocese e acabou pousando, ou seja, colocando suas garras malignas sobre o lugar e seus integrantes, causando um destempero empregatício dos piores.


Enquanto vou lendo outras notícias, fico “no aguardo” de um novo ciclo de ataques desestabilizadores ao idioma. Num lugar onde nem o presiMente gosta de ler, imagine o que se pode esperar do resto…

Cláudio Lessa

http://www.guiasaojose.com.br/novo/coluna/index_novo.asp?id=1111


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