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Sangue e Champagne

18.02.2008
 
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Portanto, não interessa ao Hizbullah diminuir o status simbólico do liquidado. Ao contrário: Hassan Nasrallah, exatamente como Ehud Olmert, tem muito interesse em inflar este simbolismo o mais que possa.


Se o Hizbullah andou um pouco afastado das manchetes no mundo árabe, agora está de volta, em pleno fulgor. Todas as rádios árabes devotaram horas de programação ao “nosso irmão mártir comandante Imad Mughniyeh al-Hajj Raduan”.


Na luta pelo Líbano – principal batalha à qual Nasrallah dedica-se hoje –, o Hizbullah ganhou enorme vantagem. Multidões acorreram aos funerais, o que turvou o brilho do desfile-homenagem póstuma ao seu adversário, Rafiq al-Hariri. Em seu discurso, Nasrallah descreveu seus inimigos, sem meias palavras, como cúmplices no assassinato do herói, colaboradores desprezíveis de Israel e dos EUA; expulsou-os; mandou que se mudassem para Telavive ou Nova Iorque. Avançou mais um passo na luta para dominar a Terra dos Cedros.


E o mais importante: a revolta contra o assassinato e a honra inspirada no martírio mobilizarão outra geração de jovens, que se apresentarão para morrer por Allah e Nasrallah. Quanto mais a propaganda israelense infla a figura de Mughniyeh, mais jovens xiitas movem-se para seguir o exemplo do mártir.


A carreira do homem também se inscreve neste processo. Quando Mughniyeh nasceu, numa aldeia xiita no sul do Líbano, os xiitas eram desprezados, uma comunidade impotente e em frangalhos. Ele ligou-se ao movimento Fatah palestino que, naquele momento, dominava o sul do Líbano; chegou a ser um dos guarda-costas de Yasser Arafat (é possível que eu o tenha visto, quando encontrei Arafat em Beirute). Mas quando Israel conseguiu deslocar as forças do Fatah e elas saíram do Líbano, Mughniyeh ficou; e juntou-se ao Hizbullah, a nova força resistente que então começava a organizar-se, conseqüência direta e imediata da ocupação israelense.


ISRAEL HOJE está como aquela pessoa cujo vizinho do andar de cima deixou cair uma bota no chão. Israel está à espera de que a outra bota caia sobre sua cabeça.


Todo mundo sabe que o assassinato de Mughniyeh será vingado. Nasrallah prometeu vingança, e disse que pode acontecer em qualquer esquina do mundo. Já faz muito tempo que os israelenses acreditam muito mais em Nasrallah do que em Olmert.


As forças de segurança israelenses já começaram a emitir mensagens de alerta para quem tenha viagem marcada para o exterior – atenção total, todo o tempo, não falar com desconhecidos, não se reunir com outros israelenses, não aceitar convites não-habituais etc. A mídia amplificou estes avisos até a histeria. A segurança das embaixadas de Israel foi reforçada. Na fronteira norte, também já soou o alarme – apenas alguns dias depois de Olmert ter vociferado, no Parlamento, garantindo que a fronteira norte estaria hoje mais calma do que nunca.


Nenhum destes medos é injustificado. Todas as “liquidações” deste tipo, no passado, trouxeram, sempre, conseqüências terríveis:


– O exemplo clássico é, claro, a “liquidação” do predecessor de Nasrallah, Abbas Mussawi. Foi assassinado no sul do Líbano, em 1992, por atiradores em helicópteros Apache. Houve júbilo em Israel. O Champagne rolou. Para vingar Mussawi, o Hizbullah explodiu a embaixada de Israel e o centro comunitário judeu em Buenos Aires, em ação que teria sido planejada, como se diz hoje, por Imad Mughniyeh. Houve mais de 100 mortos. Resultado: para substituir um Mussawi já grisalho, lá estava um Nasrallah, muito mais sofisticado.


– Antes disto, Golda Meir ordenara uma série de “liquidações” para vingar a tragédia dos atletas israelenses em Munique (a maioria dos quais foram mortos por policiais alemães, na tentativa de evitar que fossem levados como reféns para a Argélia). Nenhum dos “liquidados” tinha qualquer coisa a ver com qualquer ofensa a Israel. Eram representantes diplomáticos da OLP, funcionários burocráticos, gente de escritório. O filme “Munich”, filme kitsch de Spielberg, mostra tudo. Resultado: a OLP fortaleceu-se e passou à situação de Estado-em-organização, e Yasser Arafat, pouco depois, voltou à Palestina.


– A “liquidação” de Yahyah Ayyash em Ghaza em 1996 é semelhante ao caso Mughniyeh. Neste caso, a arma usada foi um telefone celular convertido em bomba. E a figura de Ayyash cresceu e agigantou-se de tal modo que virou lenda, ainda vivo. Era conhecido como “o engenheiro”, por ser encarregado de preparar os explosivos usados pelo Hamás. Shimon Peres, que foi Primeiro Ministro depois do assassinato de Yitzhak Rabin, acreditava que a “liquidação” lhe traria popularidade e o reelegeria. Aconteceu o contrário: o Hamás reagiu com uma seqüência impressionante de homens-bomba e levou Binyamin Netanyahu ao poder.


- Fathi Shikaki, líder da Jihad Islâmica, foi “liquidado” em 1995 por um ciclista que o matou numa rua de Malta. Sua pequena organização não foi destruída; ao contrário, cresceu e organizou-se para ações de vingança. Hoje, é o grupo que faz chover Qassams sobre Sderot.

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