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Sangue e Champagne

18.02.2008
 
Pages: 123
Sangue e Champagne

Sangue e Champagne *

Uri Avnery**


NÃO HÁ quem não fale bem da profissão na qual se destaque.


Se alguém perguntar a qualquer israelense, nas ruas, qual a área de empreendimento em que Israel destaca-se, quase com certeza ouvirá como resposta: hi-tech. E, sim, Israel alcançou alguns sucessos impressionantes nesta área. Parece que não passa um dia sem que alguma empresa israelense, destas que nascem em fundo de garagem, seja vendida por centenas de milhões. O pequeno Israel é um dos gigantes entre as potências hi-tech do mundo.


Mas há um campo em que Israel não é apenas um dentre vários gigantes, mas o incontrastável gigante Número Um: liquidações. Esta semana, outra vez, ficou provado que é.


O verbo lekhassel em hebraico – liquidar – em todas as formas gramaticais, atualmente domina todos os discursos públicos em Israel. Professores respeitáveis debatem, com solenidade acadêmica, quando liquidar e quem liquidar. Generais de pijama discutem com zelo profissional as tecnicalidades da “liquidação”, regras, métodos. Políticos safos competem entre eles para definir o status dos adversários a serem “liquidados”.


DE FATO, há muito tempo não se via tal orgia de júbilo e auto-elogio na mídia israelense, como esta semana. Todos os repórteres, todos os colunistas, todas as celebridades políticas instantâneas, todas as celebridades televisivas ainda mais instantâneas, na televisão, no rádio e nos jornais, flamejavam de orgulho. Conseguimos! Deu certo! "Liquidamos” Imad Mughniyeh!


Era um "terrorista". Não qualquer terrorista: era mestre terrorista! Super-terrorista! Arqui-terrorista! O rei dos terroristas! A estatura do homem crescia de hora em hora, até alcançar proporções gigantescas. Comparado a ele, Osama Bin-Laden virou principiante. A lista de explosões que planejou aumentava a cada noticiário, a cada nova manchete.


Não há e jamais houve outro como ele. Viveu anos escondido. Mas os bons rapazes de Israel – muitos, muitos bons rapazes de Israel – nunca o esqueceram. Trabalharam dia e noite, semanas, meses, anos, décadas, até encontrá-lo; sabiam mais sobre ele que “seus melhores amigos, mais do que ele sabia dele mesmo” (palavras citadas verbatim, de um respeitado colunista do jornal Haaretz, sapateando sobre um cadáver, como seus colegas).


Sim, um colunista ocidental, estraga-festa, disse, pelo canal Aljazeera, que Mughniyeh desaparecera do noticiário porque deixara de ter importância, que seus grandes dias de terrorismo ficaram no passado, nos anos 80 e 90, quando seqüestrou um avião e pôs abaixo o quartel central da Marinha em Beirute e várias instituições israelenses em todo o mundo. Quando o Hizbullah converteu-se em Estado-dentro-do-Estado, com uma espécie de exército regular, ele teve – segundo esta versão – de sobreviver à própria inutilidade.


Mas… bobagens. Mughniyeh-pessoa desapareceu, e Mughniyeh-a-lenda assumiu seu lugar, um terrorista mitológico do tamanho do mundo, há muito tempo denunciado como "Filho da Morte” (quer dizer, alguém a ser assassinado), nas palavras, por televisão, de outro general-no-estaleiro. A "liquidação", neste caso, assumiu proporções imensas, sobrenaturais, muito mais importante que a Segunda Guerra do Líbano, na qual Israel não foi muito bem-sucedido. A “liquidação” alcançou o patamar da gloriosa operação Entebbe, ou patamar ainda mais alto.


Sim, a Bíblia ensina que “Se cair teu inimigo, não te alegres, se sucumbe, não rejubile teu coração, não suceda que, ao vê-lo, o Senhor se desagrade e desvie ele sua ira” (Provérbios, 24:17). Mas não era um inimigo qualquer, era um super-super-inimigo, e, portanto, o Senhor que desse um jeito de perdoar os israelenses por sapatearem cada vez mais, de talk-show em talk-show, de jornal em jornal, de discurso em discurso, e só faltou distribuírem doces e balões para as crianças, na rua – mesmo que o governo israelense negasse em voz baixa, quase em segredo, que Israel tenha tido algo a ver com a “liquidação” do homem.


Por coincidência quase inacreditável, a “liquidação” foi perpetrada poucos dias depois de eu haver publicado um artigo em que comentei a incompetência, a incapacidade dos poderes ocupantes para compreender a lógica interna das organizações de resistentes. A “liquidação” de Mughniyeh é caso exemplar. (Claro que Israel esqueceu que ocupou o sul do Líbano há alguns anos, mas isto nada alterou a relação entre as partes.)


Aos olhos dos líderes israelenses, a “liquidação” foi sucesso estrondoso. Israel "decapitou a serpente” (outra manchete do Haaretz). Infligimos terrível dano ao Hizbullah, dano irreparável. “Não foi vingança, foi ação preventiva”, nas palavras de outro repórter teleguiado (também no Haaretz). Um feito de tal magnitude, que arrastará consigo a inevitável vingança, por maior que seja o número de mortos.
Aos olhos do Hizbullah, a coisa é muito diferente. A organização ganhou mais um nome, num grande e precioso patrimônio: um herói nacional, um nome que hoje corre com o vento, do Irã ao Marrocos. Mughniyeh “liquidado” vale mais que Mughniyeh vivo, fosse qual fosse o seu status real no fim da vida.


Basta lembrar o que aconteceu em Israel em 1942, quando os britânicos “liquidaram” Abraham Stern (codinome Ya'ir): de sua morte nasceu o grupo Lehi (codinome Stern Gang, ‘os invencíveis’), para tornar-se, bem se pode dizer, a mais eficiente organização terrorista do século 20.

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