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Uma nova edição de ‘Dom Casmurro’

17.11.2008
 
Pages: 12
Uma nova edição de ‘Dom Casmurro’

Não há estatísticas, mas é possível que Dom Casmurro , de Machado de Assis (1839-1908), seja disparado o romance brasileiro mais analisado e discutido pelos críticos. O que surpreende é que haja quem ainda consiga tirar conclusões insólitas e abordar ângulos inusitados de uma obra já canonizada pela crítica, facilitando assim a sua compreensão por novos e antigos leitores. É o caso do extenso ensaio, de 70 páginas, que o crítico Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor-presidente da editora da mesma instituição, escreveu, à guisa de apresentação/prefácio, para a edição de Dom Casmurro, que a Ateliê Editorial, de Cotia-SP, acaba de colocar nas livrarias.

Adelto Gonçalves (*)

I

De maneira modesta, o crítico optou por selecionar, ordenar e apresentar de modo muito sucinto o principal da vasta fortuna crítica da obra, o que contribui para que o leitor tenha uma visão imparcial de como o romance foi recepcionado ao longo de mais de um século de circulação. Mas o que conta mesmo são as conclusões que Franchetti tira de sua atenta leitura de Dom Casmurro.

Como se sabe, lido retrospectivamente, o livro é constituído por memórias de Bento Santiago, um senhor de idade um tanto avançada para os padrões do final do século XIX, que se confessa ter sido vítima de adultério praticado por sua esposa, Capitu. Depois de um contínuo vaivém entre o passado e o presente de sua vida, Bento Santiago apresenta, ao final de seu livro, em que atua como “autor fictício” ou “autor suposto”, uma questão crucial que já deu panos para manga, mas que, até hoje, mostra-se insolúvel. Até porque Capitu não se trata de alguém que tenha existido, mas uma personagem de ficção, que existe exatamente na medida em que o seu criador a imaginou. Procurar ir além dessas fronteiras fictícias seria avançar num terreno perigoso que alguns críticos já trilharam, mas sem êxito porque sem saída.

Portanto, a resposta desta questão é o que move o narrador até as últimas linhas de seu livro (ou calvário): “saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente”. Observa Franchetti que, para o narrador, a resposta a essa questão é indiferente, pois o que contaria é que houve a traição. O certo, porém, é que, como observa, a exposição retrospectiva acaba por favorecer a primeira hipótese: a Capitu traidora já estava prefigurada na Capitu infantil dissimulada.

Até aqui, não se avança de onde os críticos chegaram. O que o apresentador da obra lembra – e aqui faz um avanço em relação aos seus predecessores -- é que a questão também se aplica ao narrador, ou seja, saber se Dom Casmurro, como Bento Santiago passou a ser conhecido na idade madura em razão de seu comportamento recluso, já estava dentro de Bentinho ou se este foi mudado naquele por conta de alguma causa incidental.

Para tanto, o crítico recorre à larga fortuna crítica da obra com o objetivo de apresentar “a evolução das duas personagens ao longo do eixo temporal da narrativa”. Depois de mostrar que a reação da crítica foi bastante discreta à época do lançamento do romance (1899-1900), que nada prenunciava a grande atenção que a obra iria receber no Brasil e no exterior, Franchetti observa que a história da leitura de Dom Casmurro se divide em duas fases distintas: a primeira vai do lançamento da obra até 1960; e a segunda vem dessa data até os dias de hoje.

II

Foi em 1960 que a crítica norte-americana Helen Caldwell publicou nos Estados Unidos o trabalho O Otelo Brasileiro de Machado de Assis (São Paulo, Ateliê, 2002) em que faz o desmonte do que ela entendeu como a narrativa acusatória de Bento Santiago, argumentando que não era possível dar crédito à versão de um homem transtornado por ciúme doentio. Helen Caldwell trouxe uma visão nova, mas baseada em argumentos frágeis e de difícil comprovação, que, mais tarde, de certo modo, seria corroborada por John Gledson, crítico inglês que se especializou na obra machadiana.

Ambos partiriam do pressuposto de que existiria “um verdadeiro enredo do romance, oposto ao que Bento imagina”, ou seja, que o autor, Machado de Assis, teria deixado na obra indícios que comprometeriam a narrativa de sua personagem, Bento Santiago, quem, efetivamente, seria o responsável pela apresentação dos fatos. Em outras palavras: a verdadeira história não seria aquela que se lê, mas outra que existiria por trás de um casamento fracassado. Claro: em todo relacionamento amoroso, há versões diferentes para diversos acontecimentos.

Contra isso, porém, Franchetti se levanta, deixando claro que entende que ambos os críticos leram além do que Bento Santiago, ou o seu criador, deixou escrito. Mas reconhece que, a partir da leitura de Helen Caldwell, o “enigma Capitu” dá lugar a uma charada mais ampla, o “enigma Brasil”, sobre o qual se debruçaram críticos como Silviano Santiago, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, Abel Barros Baptista e outros. No primeiro texto de Duas Meninas (São Paulo, Companhia das Letras, 1997), Schwarz, inclusive, diz que foi Helen Caldwell quem tornou “claro o artifício construtivo da obra”, que seria o de dar o papel de narrador ao ciumento, lembrando que, com isso, “a charada literária que Machado armara estava decifrada”, como observa Franchetti em nota de rodapé.

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