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Machado de Assis: outra leitura

17.06.2009
 
Pages: 123
Machado de Assis: outra leitura

Adelto Gonçalves (*)

I

Só mesmo o atraso cultural em que está mergulhado justificaria que, mais de um século depois da morte de Machado de Assis (1839-1908), o Brasil ainda não conte com uma edição da obra completa daquele que é considerado o seu maior escritor. Para reparar essa falha (vergonhosa para o big business editorial brasileiro), a Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) pretende entregar a urgente tarefa a uma equipe de especialistas sob o comando do professor francês Jean-Michel Massa, autor de A juventude de Machado de Assis – 1839-1870 (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971; 2ªed. São Paulo: Ed.Unesp, 2009), tradução de Marco Aurélio de Moura Matos de sua tese de doutoramento La jeunesse de Machado de Assis (1839-1870): essai de biographie intellectuelle (Université de Poitiers, 1969).

Enquanto não se criam as condições materiais para um empreendimento dessa envergadura – que seria comum em países desenvolvidos --, o professor Jean-Michel Massa faz o que pode e está ao seu alcance, embora tenha sido obrigado a esperar quase 40 anos não só para que uma editora universitária brasileira se interessasse por uma segunda edição de sua obra como para que um editor privado colocasse nas livrarias outros de seus estudos relacionados a Machado de Assis. Assim é que a Editora da Unesp acaba de reeditar A juventude de Machado de Assis e a Crisálida Livraria e Editora, de Belo Horizonte, de lançar Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis, com organização, introdução e notas de Jean-Michel Massa.

É de notar que, em 2008, a Crisálida já lançara o ensaio Machado de Assis tradutor, segunda parte da tese de doutoramento de Massa. Nesse trabalho, o autor acrescentou um apêndice em que transcreveu e anotou duas traduções inéditas de Machado: “Os burgueses de Paris” e “Tributos da mocidade”. Juntamente com uma terceira peça traduzida, “Forca por Forca”, também inédita, esses textos formam Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis.

Ao lado de Raymundo de Magalhães (1907-1981) e José Galante de Sousa (1913-1986), Massa (1930), nascido em Paris, radicado em Rennes, é um dos principais pesquisadores dos textos machadianos, tendo ainda organizado Dispersos de Machado de Assis (1965) e Bibliographie descriptive, analytique et critique de Machado de Assis (1957-1958), além de numerosos ensaios e artigos com destaque para “La bibliothéque de Machado de Assis”, em que identifica 718 dos livros que pertenceram à biblioteca do escritor, e “A década do teatro: 1859-1869”, publicado em Cadernos de Literatura Brasileira (São Paulo: IMS, 2008).

II

Reflexo do atraso cultural brasileiro também é o desprezo que se dá no País ao trabalho do tradutor, atividade sempre mal remunerada e mal analisada. Por isso, não é de estranhar que igualmente as traduções de Machado de Assis tenham sido pouco valorizadas, vistas como uma atividade menor de alguém que na juventude precisava de alguns tostões para equilibrar o orçamento doméstico. Se são raros até hoje os estudos consagrados à tradução literária no Brasil, justifica-se, portanto, que poucos estudiosos tenham tido o interesse despertado para a atividade de tradutor de Machado de Assis.

É por isso que Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis adquire excepcional importância, ao permitir outra leitura do escritor e de sua obra, pois não há dúvida de que os temas e autores que traduziu muito influenciaram nos livros que escreveu. Além disso, Machado de Assis é de uma época em que não se exigia do tradutor o rigor e a fidelidade ao original que são exigidos hoje, o que significa que, em muito do que traduziu, pode ter deixado a sua marca de ficcionista, com acrescentamentos que só melhorariam o texto original.

Por isso, muitas das traduções de Machado de Assis podem ser vistas mais como adaptações ou recriações. E, portanto, não é de estranhar que provoquem muitas discussões e dissensões entre os críticos, pois sempre haverá quem veja em determinado texto muito mais de Machado do que do autor original. O que explica também que, contra todas as evidências, alguns acadêmicos tenham continuado a tomar Queda que as mulheres têm para os tolos (Belo Horizonte: Crisálida, 2003; Campinas: Editora da Unicamp, 2008;) como obra da lavra de Machado de Assis, quando é uma tradução de um original do belga Victor Hénaux (Liège: F.Renard, Editeur, 1858), ainda que, em 1971, Massa já houvesse provado isso. Isso se deu, provavelmente, porque A juventude de Machado de Assis se tornou obra rara, praticamente ausente das bibliotecas universitárias.

Neste aspecto é de lembrar, como exemplo, que Bocage (1765-1805), ao traduzir, também deixava a imaginação voar, a ponto de a tradução que fez de Os jardins ou a arte de aformosear as paisagens (Lisboa: Tipografia Calcográfica e Literária do Arco do Cego, 1800), de Delille (1738-1813), apresentar 2.388 versos, enquanto o poema original comporta 1962 versos, como assinalou António Gedeão, pseudônimo de Rómulo de Carvalho (1906-1997), em “O sentimento científico em Bocage” (separata da revista Ocidente, Lisboa, 1965, v. LXIX, p.190-191).

III

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