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Três poetas e uma nova editora

17.06.2008
 
Pages: 12
Três poetas e uma nova editora

Adelto Gonçalves (*)

I

Autor de A espera do nunca mais - uma saga amazônica, romance de 877 páginas (Belém, Editora Cejup, 1999), que ganhou em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos da União Brasileira de Escritores, e A noite é dos pássaros (Belém, Editora Cejup, 2003), o romancista Nicodemos Sena (1958) nasceu em Belém e passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira entre os Estados do Pará e Amazonas. Em 1977, veio para São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica e em Direito pela Universidade de São Paulo.

Há algum tempo radicado em Caraguatatuba, pequena cidade do Litoral Norte paulista, está agora empenhado em colocar em funcionamento uma casa editora fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, a Associação Cultural LetraSelvagem, tarefa, aliás, nada fácil. Para marcar o início do recém-criado selo editorial LetraSelvagem, acaba de lançar três livros de poesia: Anima animalis: voz de bichos brasileiros, de Olga Savary, com gravuras de Marcelo Frazão; O homem deserto sob o Sol, de Edivaldo de Jesus Teixeira; e Tratado dos anjos afogados, de Marcelo Ariel.

II

Também nascida em Belém, mas radicada no Rio de Janeiro há décadas, Olga Savary (1933), ficcionista, ensaísta, antologista, tradutora e jornalista, já ganhou 40 prêmios nacionais de literatura. Traduziu mais de 50 títulos de escritores como Jorge Luís Borges (1899-1986), Octavio Paz (1914-1998), Pablo Neruda (1904-1973), Federico García Lorca (1898-1936), Mario Vargas Llosa (1936) e outros. Com sua poesia traduzida para América Latina, Europa, Estados Unidos, China e Japão, dá palestras em congressos e universidades do Brasil e do exterior. Fundadora do lendário semanário O Pasquim, do Rio de Janeiro, em 1969, recebeu o Prêmio Internacional Brasil-América Hispânica de 2007 pelo livro Berço esplêndido e o Prêmio Josué Montello da Academia Brasileira de Letras por um romance ainda inédito.

Anima animalis é o seu 19º livro de poesia, ao qual acrescentou o subtítulo Voz de bichos brasileiros. O livro, que inclui nove hai-kais e um poema longo, com versões em espanhol, finlandês, francês, inglês e italiano, nasceu de uma idéia que teve em 1996, quando o gravador Marcelo Frazão (1964) a convidou para traduzir em texto imagens de animais que ele havia produzido usando as técnicas da gravura em xilo e metal. Como eram animais europeus, a poeta logo imaginou que a vasta fauna brasileira poderia oferecer maiores e mais exóticas opções, como o tamanduá, o beija-flor e o lobo-guará (do hai-kai abaixo):

Do meu alvo espero

De longe nem chego perto

Desconfiado e alerta.

Daí nasceu este livro em que suas peças poéticas, como seria de se esperar de Olga Savary, “dizem, na medida justa da metáfora lapidada pela concisão, que entre palavra, imagem e leitura há um templo onde se ancorar o pensamento em busca dos sentidos sempre abertos, desde que haja o velho e conhecido desejo de ir além das clausuras do espaço e do tempo”, como observa no prefácio Christina Ramalho, doutora em Semiologia pela Universidade do Rio de Janeiro e professora de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Se mais fosse preciso acrescentar, seria para dizer que Olga Savary é uma poeta consagrada e amadurecida, que já não necessita de maiores apresentações. Nicodemos Sena não poderia ter escolhido melhor um autor para abrir a coleção Sentimento do Mundo de sua nova editora, à qual, em 2009, deverão ser acrescentados Pablo Neruda e Matsuo Bashô (1640-1694). Para 2009, a LetraSelvagem anuncia também o início de uma coleção de prosa de ficção (novelas e romances), além de uma coleção de ensaios, que deverá ser inaugurada por Octavio Paz.

III

Juiz federal do Trabalho radicado em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, Edivaldo de Jesus Teixeira (1957) nasceu em Centenário do Sul, no Paraná. Formado em Direito, exerceu a profissão de advogado durante vários anos, antes de fazer concurso para a magistratura. Autor de três livros de poemas (dois em edição de autor), diz que a sua poesia vem antes do Direito, explicando que sua obra é escrita sob uma ótica existencial. O autor já dispõe de outro livro praticamente pronto: A inesperada música subterrânea, que ainda não tem previsão de lançamento.

O homem deserto sob o Sol, segundo Teixeira, mostra suas reflexões sobre o homem e o mundo e muitas de suas influências literárias, como Gabriel García Márquez (1928) e Jorge Luís Borges:

(…) Miseráveis!

Deles não serão os meteoros

nem a luz do outono.

De ti não passarão os ventos de Macondo.

Como suportas a dor

e todos os seres vivos suportam a dor

estás plena de quietude e gelo.

Nas pedras. Nas galáxias.

Em Getsêmani!

(….) Vislumbro-o -- paralelo tempo-espaço? --

em águas não idênticas

que em vão navego

afiando rudes facas,

e como Borges, cego,

reelaboro o sonho

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