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Para escapar dos escombros e reconstruir a lusofonia

17.05.2009
 
Pages: 12
Para escapar dos escombros e reconstruir a lusofonia

Adelto Gonçalves (*)

I

Nestes tempos de sensibilidade à flor da pele, todo cuidado é pouco. Especialmente depois que o governo brasileiro anunciou para 2010 a criação da Universidade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (UniCPLP), em Redenção, no interior do Ceará, a primeira cidade brasileira a abolir por sua conta a escravidão. Afinal, os brasileiros já começaram a ser chamados de novos colonialistas, enquanto a CPLP, nascida para fomentar o intercâmbio cultural e comercial entre povos afins, corre o risco de virar troféu de guerra entre a antiga e a nova “metrópole” pela liderança no mundo de língua portuguesa.

Como em português nos entendemos e, acima de questiúnculas paroquiais e nacionais, mantém-se a preservação da lusofonia, não podemos deixar de comentar as obras que os africanos lusófonos publicam pelo mundo. É o caso de Made in Angola: arte contemporânea, artistas e debates, livro de ensaios do historiador e crítico de arte Adriano Mixinge, que as edições Harmattan, de Paris, acabam de publicar em português. Patrocinada pela Fundação Príncipe Claus da Holanda, a obra reúne 35 ensaios sobre a arte africana e a condição angolana, num volume de 306 páginas, com capa desenhada pela artista Rosa Cubillo sobre uma fotografia de Middan Nandignan Campal.

Nascido em Luanda em 1968, Adriano Mixinge, licenciado em História da Arte pela Universidade de Havana e doutor em História da Arte pela Universidade Complutense de Madrid, trabalha como conselheiro cultural na Embaixada de Angola em Paris. É igualmente membro da Associação Internacional dos Críticos de Arte (Aica), do Conselho Científico do Ministério da Cultura e colaborador da delegação de Angola junto à Unesco, além de autor do romance Tanda (Luanda: Edições de Caxinde, 2006), em que mistura poesia, crítica literária e de artes plásticas, cartas e outras formas de discurso, seguindo uma tendência da prosa africana de língua portuguesa de hoje, que é a diluição das fronteiras entre os gêneros narrativos.

Como crítico de artes plásticas, Mixinge é ainda autor de Metáforas angolanas: um panorama das artes plásticas (1990-2001), livreto de 81 páginas publicado em 2001 pela Embaixada da República de Angola na França para apresentar uma exposição que o próprio autor organizou em Paris, reunindo a produção de pintores, escultores e gravadores.

Em Made in Angola, Mixinge oferece importante contribuição à História e à crítica da arte moderna e contemporânea que se vem fazendo em Angola, mostrando como ela se insere no contexto africano e internacional. Além disso, trata-se de obra de divulgação de uma produção artística moderna ainda pouco estudada e de artistas plásticos que, muitas vezes, são mais (re)conhecidos no restrito círculo europeu das artes do que no Brasil, pois reúne alguns textos que o autor escreveu originalmente para catálogos de exposições e outros publicados em revistas ou jornais ou ainda para serem apresentados em seminários.

Em todos, o que marca esses textos é a postura independente com que Mixinge denuncia e discute, sem tergiversar, problemas que preocupam não só os criadores angolanos como os seus cidadãos e aqueles que acompanham a evolução dos acontecimentos no mundo africano de língua portuguesa.

II

Embora o autor não faça referência, não se pode deixar de estabelecer pontes entre o título Made in Angola com o clássico Made in África, de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), em que o historiador, folclorista e antropólogo brasileiro, depois de observações que fez durante viagem realizada em 1965, anotou hábitos, crenças e reminiscências históricas do continente africano para comprovar as raízes negras da cultura brasileira.

Se Made in África já foi definido pela historiadora Camila Lembo Ribeiro como o livro da descoberta (pelo brasileiro) da África negra portuguesa, Made in Angola é uma obra que permite a descoberta da arte angolana pelos demais povos lusófonos. Para isso, portanto, é preciso que alguma editora brasileira venha a se interessar por sua publicação.

Afinal, se em Made in África Cascudo estuda e aprofunda pontos de ligação entre o Brasil, em especial o Nordeste, e o continente africano, especialmente a sua parte ocidental, em Made in Angola Mixinge o que faz é mostrar, a partir das ideias de transculturação do antropólogo cubano Fernando Ortiz (1881-1969), que a experiência cultural angolana é resultado de um substrato cultural majoritariamente de origem bantu, um minoritário não bantu e de uma herança judeu-cristã portuguesa, que, por força da imigração forçada de levas de trabalhadores escravos, repetiu-se no Brasil em larga escala.

Diz Mixinge que, no contexto da arte contemporânea angolana, essas experiências culturais podem estar representadas, por exemplo, nas obras de Miguel Petchosky, mestiço angolano de mãe cokwê e de pai russo, vivendo em Amsterdã; Franck Lundangi, bakongo que mora nos arredores de Paris, com uma obra plástica que evoca as iconografias da época medieval européia; Antonio Ole, que, vivendo em Luanda, oferece uma obra de estética pós-moderna, que dialoga com as diversas tradições bantu angolanas; João Muabaka (Mayembe), que vem diretamente do artesanato e da estatuária tradicional angolana; “e também parte da obra de Nástio Mosquito, que consiste numa série de vídeos, em que ele fazreflexões acerca da identidade individual e das reminiscências do exotismo”.

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