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Como proteger uma maloca

16.08.2019
 
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Como proteger uma maloca

Juliana Radler

No Alto Rio Negro, kumua, pajés e benzedores indígenas fazem intercâmbio sobre conhecimento tradicional e xamanismo para fortalecer a saúde e o bem estar dos povos e territórios.

A fumaça perfumada do breu toma conta da maloca da comunidade de São Pedro, na Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro (AM). A defumação serve para limpar o ambiente dos maus espíritos e das doenças, e assim proteger as pessoas reunidas em um intercâmbio de saberes milenares relacionados à manutenção da saúde e à cura para os indígenas do Alto Rio Tiquié, como os povos Bará, TuyukaTukano, Hupd'äh e Makuna.


Entre os dias 23 e 26 de julho, ocorreu o I Encontro de Valorização do Conhecimento Tradicional do Alto Rio Negro com apoio do DSEI-ARN (Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro) e do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi). O encontro teve o intuito de promover o diálogo entre os profissionais da saúde com as especialistas rituais, assim como entre os próprios indígenas brasileiros e colombianos. O Instituto Socioambiental (ISA) foi convidado a participar como instituição que atua na região em parceria com as comunidades indígenas.

"Temos o compromisso de fazer valer e fortalecer a missão da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), que através da sua diretriz 4.4 (dentro da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas), prevê a valorização do conhecimento tradicional. Vale ressaltar que o universo indígena se baseia em troca de saberes contínuo de pai para filho e entre um povo e outro. Essa troca precisa ser estimulada", ressalta o presidente do Condisi-ARN, Jovânio Vilagelin, do povo Baré.

Água, floresta e vida

São Pedro fica bem próxima à fronteira com a Colômbia e está em uma das partes mais preservadas da floresta Amazônica. Para chegar até lá, a equipe, composta por um enfermeiro, uma psicóloga, uma antropóloga e uma gestora de saúde indígena, pegou um pequeno avião na sede do município de São Gabriel da Cachoeira até o distrito de Pari-Cachoeira. Lá existe um pelotão do Exército brasileiro com uma pista de pouso de chão batido. Voando a cerca de 3 mil metros de altura por uma hora, avista-se a maior floresta tropical do mundo se espalhar até a linha do horizonte, sendo recortada no percurso pelos cursos dos Rios Negro, Uaupés e Tiquié.

De Pari Cachoeira até a comunidade de São Pedro, do povo Tuyuka, a voadeira percorre as curvas do Tiquié por cerca de duas horas. Tudo é água, floresta e algumas comunidades indígenas onde as crianças brincam animadas na beira do rio e acenam para a equipe que passa agitando as águas. A população Tuyuka se divide entre a Colômbia e o Brasil, sendo que em território nacional é estimada em 627 pessoas, segundo o levantamento feito em 2017 pelo Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Alto rio Negro (dados da Funai, Foirn e ISA).

Ao chegar a São Pedro na tarde do dia 23/7, cerca de 30 participantes do Encontro, entre benzedores, kumua, bayaroa e um pajé, já estão reunidos para dar início ao intercâmbio. Jovens, mulheres e crianças também se dirigem à maloca tradicional - denominada Casa de Saberes - para acompanhar a abertura do evento. Antes de iniciar os trabalhos cerimoniais, o pajé Jairo Londoño, do povo Makuna, da comunidade de Puerto Amazonas, na Colômbia, e o kumu Bernardo Barbosa, também colombiano, fizeram um ritual de preparo da casa com breu e rapé. "O pajé disse que viu coisas que poderiam atrapalhar o repasse de conhecimento e por isso foi feito o ritual de preparo para que os participantes pudessem receber os ensinamentos sem nenhum incômodo. Depois do ritual, todos os presentes puderam aspirar o rapé já no ambiente confortável e assim iniciar as conversas", explicou João Fernandes, do povo Makuna, morador de São Pedro e responsável pela relatoria do encontro para o Condisi.

Além das lideranças espirituais indígenas tradicionais, o encontro teve a participação do padre Justino Rezende, Tuyuka, que atualmente está na linha de frente da preparação do Sínodo da Amazônia, que ocorrerá no Vaticano em outubro deste ano. Padre Justino esteve com o Papa Francisco e é o único indígena entre os religiosos que compõe o comitê preparatório deste megaencontro de bispos católicos em prol da preservação da floresta amazônica. Navegando entre os dois mundos, Justino acompanhou de perto a troca de conhecimento. "Esse tipo de encontro é muito importante para que a cultura permaneça forte. A gente vê como cultura, espiritualidade e saúde estão diretamente ligadas", frisa Justino ao ser entrevistado pelo comunicador indígena, Edilson Ramos Tuyuka, integrante da Rede Wayuri de Comunicação, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).

A maloca como grande casa comum

Do lado brasileiro, a presença maciça de missionários na bacia do Rio Negro teve grande impacto negativo nos conhecimentos indígenas. Cerimônias, que contam com a utilização de substâncias como o ipadu, tabaco e o rapé, foram proibidos pelos religiosos e pouco a pouco algumas comunidades foram deixando rituais e conhecimentos de lado. Com a demarcação das terras indígenas, a criação da Escola Tuyuka em 1998, que trabalhou conteúdos próprios entre crianças e jovens, incentivando a busca de conhecimentos com os mais velhos, e estimulou a língua tuyuka como língua de instrução na escola, além do contínuo intercâmbio com os colombianos, gradualmente vem se restabelecendo e fortalecendo os conhecimentos indígenas.

A reconstrução das malocas é um símbolo material dessa revitalização cultural. Neste Encontro, um dos principais objetivos era o ensinamento do pajé Jairo para os kumua brasileiros sobre como proteger a maloca. Representantes de nove malocas da região estavam no encontro com intuito de aprender com o pajé como proteger a maloca, a grande casa comum. Proteger a maloca significa também a proteção de toda a comunidade e do território, afastando doenças, maus espíritos, conflitos e desavenças. A maloca, na cosmovisão indígena rionegrina, também significa o mundo que precisa ser cuidado para que todos os seres possam viver bem, com saúde e harmonia.

Estavam presentes no evento responsáveis pela saúde das malocas das comunidades de Cachoeira Comprida, Caruru Cachoeira, São Pedro, Bela Vista, São Felipe, Fronteira, Onça Igarapé, Puerto Colômbia e Puerto Amazonas. Todo o encontro foi realizado nas línguas Tukano e Makuna. Pajé Jairo acompanhado do Kumu Fernando Barbosa, de Puerto Amazonas, e do Baya Bernardo Lima, da comunidade de Beija-Flor, explicaram como deve ser feito o ritual de proteção da maloca por compartimentos. O meio da maloca é o centro do universo e as laterais simbolizam o nascente e o poente. Também são definidos locais onde devem ficar as mulheres, crianças, jovens e os homens que são conhecedores e lideranças. Benzer cada parte da maloca e seus materiais de construção é fundamental para que as doenças não se instalem no local e na comunidade. Esse fortalecimento está diretamente ligado à manutenção da saúde e por isso os profissionais não indígenas que atuam na área precisam conhecer esses rituais para que ampliem sua compreensão sobre o conceito de saúde.

Novos encontros

Existe no DSEI-ARN, hoje, um programa específico para valorizar os conhecimentos tradicionais na saúde indígena. Debates sobre incorporar benzedores à equipe de saúde, assim como prever uma remuneração para esses conhecedores vem sendo feitos pelas organizações indígenas, indigenistas e órgãos responsáveis pela saúde indígena. Os conhecedores presentes ao encontro em São Pedro solicitaram ao DSEI-ARN e ao Condisi que passem a realizar esse tipo de evento anualmente, incorporando assim ao calendário de trabalho dessas instituições. As lideranças também esperam que os próximos encontros possam ocorrer também em outras calhas de rios da Bacia do rio Negro, contemplando assim outras etnias. Essas e outras sugestões foram dadas aos profissionais de saúde presentes que saíram do encontro com a missão de fortalecer essa linha de trabalho intercultural na saúde indígena.

Para o enfermeiro e especialista em Saúde Indígena pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que atua no DSEI-ARN, Sediel Ambrósio, o encontro foi "histórico e enriquecedor". "Nossa participação como profissionais da saúde e espectadores durante o evento foi muito importante para o fortalecimento da cultura local e medicina tradicional, uma vez que nossas ações assistenciais em saúde devem ser executadas sempre considerando o conhecimento dos mais antigos. Também precisamos frisar que a medicina ocidental não anula a medicina tradicional e vice-versa", enfatizou.

O evento foi registrado em vídeo pelo comunicador Edilson Ramos Tuyuka, da Rede Wayuri, morador de São Pedro, com assessoria do ISA, e em breve será divulgado um vídeo documentário sobre esse encontro inédito realizado na TI Alto Rio Negro.

https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-rio-negro/como-proteger-uma-maloca

 


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