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Arca Russa

16.08.2009
 
Arca Russa

O Reino da aparência estética e os impasses histórico-filosóficos

(por Danilo Chaves Nakamura)

Fiodor Dostoiévski em “Memórias do Subsolo” (Zapíski iz Podpólia) dá voz aos lamentos de um representante da aristocracia intelectualizada russa que vivia no século XIX “os seus dias derradeiros”. O romance é de 1864, ou seja, de um período onde a modernização e a ocidentalização iniciada no século XVI avançavam em ritmo acelerado. A tradição e o enraizamento da vida provinciana e comunitária desencantavam frente ao processo de racionalização capitalista.

Nas palavras do “paradoxalista” da novela:

“Todos os atos humanos serão calculados, está claro, de acordo com essas leis, matematicamente, como uma espécie de tábua de logaritmos, até 108.000, e registrados num calendário; ou melhor ainda, aparecerão algumas edições bem intencionadas, parecidas com os atuais dicionários enciclopédicos, nas quais tudo estará calculado e especificado com tamanha exatidão que, no mundo, não existirão mais ações nem aventuras.

Então – sois vós que o dizeis ainda – surgirão novas relações econômicas plenamente acabadas e também calculadas com precisão matemática, de modo que desaparecerá num instante toda espécie de pergunta, precisamente porque haverá para elas toda espécie de respostas. Erguer-se-á então um palácio de cristal. Então... bem, em suma, há de chegar o Reino da Abundância”. (DOSTOIEVSKI, F. 2000, p. 37-38)

O personagem vivia de forma consciente a decadência de uma forma de vida. Dostoiévski vislumbrava o que ainda estava apenas em germe, ou seja, uma sociedade totalmente racionalizada: “(...) se a vontade se combinar um dia completamente com a razão, passaremos a raciocinar em vez de desejar”. Diante dessa queda no subsolo, sua solução apaziguadora era refugiar-se em tudo que era “Belo e Sublime” – “(...) Uma preguiçosa e embriagadora passagem à arte”.

Num registro mais recente, “Arca Russa” (Russkiy Kovtcheg) de Aleksandr Sokúrov apresenta o resultado dos prognósticos apresentado por Dostoiévski. Filmado em 2001 num único plano seqüência, o filme é, antes de tudo, um diagnóstico de nosso tempo histórico. Para isso, o diretor trás para o presente a formação nacional russa com o imperativo de participar da modernidade ocidental, o fracasso da experiência revolucionária no início do XX e os dilemas da Rússia atual.

Mas, embora existam semelhanças – lamentações, vida encasulada, contemplação artística como operação compensatória – os dois registros diferenciam radicalmente no que se refere ao tempo histórico.

Seguindo as formulações de Reinhart Koselleck, tempo histórico constitui-se no processo de determinação da distinção entre o passado e o futuro, ou, em termos antropológicos, na diferenciação (sem a qual não haveria história) entre experiência e expectativa. Exemplo: Com a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, a burguesia pode reclamar intelectualmente o mundo inteiro desenvolvendo sua filosofia da história que, com base real e fictícia, correspondia à inexorabilidade do progresso capitalista. O mundo da técnica e industrialmente formatado concedia ao homem períodos de tempo cada vez mais breves para que se pudesse assimilar novas experiências, ou seja, o processo histórico modificava a relação entre o campo de experiência e o horizonte de expectativa, pois sempre novos acontecimentos eram inseridos na experiência vivida e as expectativas eram sempre desgastadas nas novas experiências.

“(...) na modernidade, a diferença entre experiência e expectativa não pára de crescer, ou melhor, que a modernidade só pode ser concebida como um novo tempo depois que as expectativas se distanciaram de todas as experiências anteriores. Esta diferença, como vimos, encontrou sua expressão na história em si e sua qualidade específica de tempo moderno no conceito de “progresso”. (KOSELLECK, R. 2006, p. 322)

No período de Dostoiévski (e o imediatamente posterior) a Rússia sofria de maneira dramática a expansão capitalista teorizada por Koselleck. Todavia, tinha-se ali o momento de maior criatividade e imaginação política, seja por parte do povo, seja por parte da intelligentsia. Paralelo ao encasulamento do personagem aristocrata dostoiévskiano, tínhamos no horizonte a expectativa de uma sociabilidade alternativa, um desvio em relação à inexorabilidade das leis capitalista. A Revolução Russa foi a abertura para a realização.

Mas e o atual tempo histórico? Qual a relação entre experiência e expectativa após o fracasso da Revolução Russa? A Arca Russa de Aleksandr Sokúrov é uma tentativa de resposta.

Link para o texto integral: http://passapalavra.info/?p=10288


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