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Drummond e a política

16.07.2009
 
Pages: 123

E foi a uma dessas facções que Drummond colocou a serviço a sua pena, ajudando-a a alcançar e exercitar o poder, preparando-lhe um discurso modernizante. Estes são os fatos, ainda que os intelectuais procurem explicações mais rebuscadas para o ato. Não foi, portanto, um papel de que alguém, no fim da vida, pudesse se orgulhar. Talvez isso explique por que Drummondsempre procurou escamotear o passado, como se quisesse reescrevê-lo ou torná-lo menos importante. Mas que não foi politicamente discreto esse papel, não foi, ainda que o poeta tivesse uma personalidade tímida.

III

Como se sabe, Drummond era amigo de adolescência de Gustavo Capanema (1900-1985), a quem conheceu em 1916 no colégio. Foi Capanema quem o levou para o funcionalismo público em 1930 e para o Ministério da Educação e Saúde em 1934. Durante anos, Drummond foi chefe de gabinete do ministro Capanema, atuando muito mais na sombra como faz todo aquele que ocupa esse cargo.

Said lembra que Drummond sempre procurou rebater a acusação de que havia trabalhado a serviço de uma ditadura, alegando que não passara de um burocrata. Não é o que os documentos mostram, embora, no fim da vida, procurasse apagar a nódoa, atribuindo a sua participação na ditadura mais aos vínculos afetivos que o ligavam a Capanema.

Um exercício de dialética porque o poeta não seria um homem tão tolo assim que não soubesse o que faziam nos porões do governo a que servia. Até porque ninguém chega a um alto cargo estatal, se não se render às exigências do poder.

A importância da obra de Said está em mostrar que as “fissuras vividas” por Drummond não são externas ao seu texto poético, “mas, ao contrário, condições de possibilidade para a sua realização”. De fato, não existia até aqui uma obra que tivesse investigado tão a fundo os envolvimentos do poeta com a política, atividade que começou ainda em Belo Horizonte na década de 1920, quando foi redator-chefe do Diário de Minas, órgão conservador, que deixou em 1929 para dirigir a campanha da Aliança Liberal no Minas Gerais, jornal oficial do Estado.

Vitorioso o movimento golpista, Drummond tornou-se o assessor mais importante do interventor Gustavo Capanema, até que, em 1934, com a ascensão do amigo a ministro, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Como observa Said, no centro político e cultural da Nação, o poeta iniciou uma decisiva etapa em sua vida, consolidando sua carreira no funcionalismo, além de ocupar espaço nos principais jornais da capital da República, especialmente nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand (1892-1968), que, por influência do todo-poderoso Capanema, pagavam-lhe pela sua colaboração.

No Ministério da Educação, Drummond permaneceria até 1945, ano em que assumiu, por influência política, obviamente, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), órgão pelo qual se aposentou. É de lembrar que, ao final da Segunda Guerra Mundial, Drummond demitiu-se do cargo, afastando-se do governo Vargas, mas sem romper com o amigo Capanema. Foi por essa época, quando havia fortes pressões em favor da redemocratização do País, que teve uma breve e tumultuada passagem pelo jornal A Tribuna, do Rio de Janeiro, órgão do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Como provavelmente logo concluiu que aquilo não iria levar a nada, a não ser a complicações em sua vida pessoal, retornou ao funcionalismo público, ao mesmo Sphan.

IV

Resultado de pesquisa desenvolvida junto à correspondência de Drummond no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, este trabalho acadêmico revela também o extenso papel político exercido pelo funcionário público, estabelecendo sua participação em favores do Estado a boa parcela de escritores e críticos do Modernismo, desde pedidos de emprego até interferência direta em projetos ou questões mais complexas, como a construção do edifício do Ministério da Educação, a cargo de Oscar Niemeyer (1907) e Lúcio Costa (1902-1998), ou na feitura dos painéis internos do mesmo prédio, entregues a Candido Portinari (1903-1962).

Diz Said que, ao longo dos anos de 1930 e 1940, período das cartas pesquisadas, Drummond aparece não só como o poeta de maior prestígio na literatura brasileira, “mas sobretudo como um intelectual influente, que, ao se valer de seus poderes na máquina pública, traçava em torno de si complexas relações de débitos e créditos simbólicos, revertidos, direta ou indiretamente, para o próprio Estado”. E para si mesmo, acrescente-se.

Mesmo assim, o poeta nunca se reconheceu como um intelectual cooptado, como membro de uma intelligentsia nem tampouco como mediador de projetos culturais, diz Said, deixando claro que seus argumentos convenceram até um crítico do quilate de Antonio Candido (1918) que, ao lhe conferir uma posição política progressista, defendeu que a inserção nos quadros públicos estatais não implicaria necessariamente uma submissão ideológica ao regime nem tampouco uma posição política conservadora. Para Candido, como chefe de gabinete do ministro da Educação, Drummond teria vivido a fase mais ativa de sua militância intelectual de poeta comprometido com os ideais de esquerda.

Said cita também Sérgio Miceli, autor de Intelectuais e classe dirigente no Brasil: 1920-1945 (São Paulo: Difel, 1979) e Intelectuais à brasileira (São Paulo: Companhia das Letras, 2001), que procurou desconstruir a aura de transgressão absoluta que foi conferida ao Modernismo, defendendo que o campo literário foi cooptado pelo campo político, o que incluiria, obviamente, Drummond, apesar do esforço dialético de Antonio Candido e do próprio poeta em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo à época da publicação do primeiro livro.

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