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Drummond e a política

16.07.2009
 
Pages: 123
Drummond e a política

Adelto Gonçalves (*)

I

Que o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) sempre procurou passar à posteridade a imagem de um intelectual modernista, esforçando-se para apagar o seu passado de engajamento na cena política do País, não é novidade. Mas como usava, ainda que não ostensivamente, as boas relações de que desfrutava com os poderosos especialmente nas décadas de 30 e 40, isso não havia sido bem delineado até agora. É o que faz o professor Roberto Said em A angústia da ação: poesia e política em Drummond, ao traçar um retrato muito mais nítido, sem retoques, do homem Carlos Drummond de Andrade do que aquele que se tinha até aqui, completando, de certa maneira, a biografia que José Maria Cançado (1952-2006) escreveu, Os sapatos de Orfeu (São Paulo: Página Aberta, 1993; Editora Globo, 2006), aliás, o único estudo do gênero que temos até hoje.

Nesse notável estudo biográfico, Cançado já havia chamado a atenção para o oxímoro “dessemelhante absoluto”, criado pelo próprio poeta, que define a personalidade dúbia e hesitante de Drummond, que parecia não pertencer a nada, mas que, por isso mesmo, mostrava-se “condenado a participar de tudo”. Com base nisso, Said procura desenvolver a ideia borgeana do duplo: assim o poeta e o funcionário público Drummond constituiriam uma dupla personalidade, embora a mão que escrevia um arrojado poema modernista fosse a mesma que preparava discursos para políticos conservadores que de modernos só tinham aquilo mesmo: o discurso.

II

Para o leitor que desconhece a biografia de Drummond, é preciso que se diga que, mesmo em linhas gerais, o que foi a adesão do poeta ao grupo político que chegou ao poder com o golpe civil-militar de 1930, que, até hoje, alguns historiadores distraídos ainda chamam de Revolução de 30. Antes disso, porém, é preciso dizer que esse golpe nada teve de modernizante no sentido de que tenha representado uma revolução para um Brasil arcaico. Pelo contrário. Não passou de rearrumação entre elites carcomidas, pois não há nenhuma prova de que algumas das conquistas trabalhistas que viriam com a Era Vargas não teriam se dado se a velha política do café-com-leite tivesse permanecido no poder por mais uma ou duas décadas.

Quem já leu as crônicas de Lima Barreto (Toda Crônica, v. I (1890-1919), v.II (1919-1922. Rio de Janeiro: Agir, 2004) sabe como eram odiados os cafeicultores paulistas que mandaram e desmandaram durante a República Velha (1889-1930). Lá se vê, por exemplo, um cronista indignado com os “assaltos” que as elites paulistas faziam às burras do erário nacional, a pretexto de levantar subsídios e empréstimos a juros maternais, que quase sempre não pagavam, embora o café fosse considerado a grande riqueza nacional. Que riqueza era essa que necessitava de tanta subvenção?, questionava o cronista, revoltado.

O pretexto para o golpe foi que as eleições de 1930 teriam sido fraudadas, com a escolha do paulista Júlio Prestes (1882-1946) para suceder a Washington Luís (1869-1957). Mas o governo também fazia a mesma acusação aos oposicionistas da Aliança Liberal. E ambos os lados tinham razão. Quem podia fraudava: a contagem dos votos dependia da vontade política do manda-chuva de cada Estado ou região. Depois, em 1932, os oligarcas de São Paulo tentaram dar o contragolpe, a pretexto de defender a reforma eleitoral e a convocação de uma Assembléia Constituinte. Que 77 anos depois o governo de São Paulo ainda convoque a população para comemorar essa derrota é coisa que causa espanto e que só se explica pela necessidade que as elites têm de fabricar heróis.

Mesmo assim, este articulista, particularmente, acredita que, fosse como fosse, o Brasil teria tido um futuro um pouco melhor se a oligarquia paulista tivesse continuado à frente do País. Pelo menos era uma gente, ao menos em público, mais refinada e preocupada em construir um regime democrático, ainda que fosse a democracia dos que vivem no andar de cima.

Sem dúvida, a facção que afastou temporariamente a oligarquia paulista do poder político – mas não do poder econômico – era mais atrasada, de concepções arcaicas. Com Getúlio Vargas (1882-1954), um fazendeiro da fronteira sulina que havia sido ministro da Fazenda do governo deposto, acostumado a cometer toda a sorte de arbitrariedades, foi o Brasil profundo que se instalou no Palácio do Catete e nas demais instâncias do poder, com tudo o que isso representava: mandonismo, ditadura, perseguições, tortura dos adversários políticos.

Mas que isto não sirva para dourar os brasões das elites paulistas: o que unia as facções oligárquicas em luta era a avidez por propinas, lucros exorbitantes e favores do Estado, sem que se incomodassem com o fato de que essa política levava à mendicância as classes subalternas ou as atirava à aventura de uma guerra civil, se isso fosse necessário para defender seus privilégios. Tal como hoje, para essas elites, o poder sempre representou um butim a ser dividido.

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