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As Minas eram gerais

16.07.2009
 
As Minas eram gerais

Minas Gerais era o Sertão dos Cataguases, um sertão cobiçado, pesquisado e mapeado pelas várias bandeiras que variam essa região vasculhando suas serras, navegando seus rios, revolvendo suas terras em busca das suas incalculáveis riquezas.

Minas Gerais era o Sertão dos Cataguases, um sertão cobiçado, pesquisado e mapeado pelas várias bandeiras que variam essa região vasculhando suas serras, navegando seus rios, revolvendo suas terras em busca das suas incalculáveis riquezas.

Desbravada e demarcada pelas bandeiras que buscavam ouro e muitas outras que vinham para cá para guerrear e escravizar índios, sempre voltando para a sua origem, a região central de Minas permanecia inexplorada, tendo na Bandeira de Fernão Dias Paes Leme sua inaugural constatação de infindáveis riquezas. A essa época, Minas passou de o Sertão dos Cataguases para Sertão das Minas dos Cataguases, Sertão das Minas do Ouro que chamam Gerais e, finalmente, Minas do Ouro.

Depois de vencer a Mantiqueira e antes de romper a Serra do Espinhaço, Fernão Dias Paes Leme e sua Bandeira tomaram Roça Grande como base e fizeram, por três meses, peão nas encostadas da Serra Resplandecente (possivelmente a Serra da Piedade) em busca das esmeraldas e prata. Aos seus pés, aflorava a maior riqueza, o ouro que seu genro Manuel da Borba Gato soube identificar, em 1678, nas minas do Sabarabuçu. Sem saber, Borba Gato encontraria nessas Minas o seu maior tesouro, não apenas o ouro opulento, mas a sua liberdade, pois a revelação de suas localizações lhe renderia, junto à Coroa Portuguesa, uma riqueza muito maior que a pueril fortuna.

Após a morte de Fernão Dias às margens do rio das Velhas, em maio de 1681, vindo da Lagoa do Vupabuçu, em que havia encontrado as supostas ‘esmeraldas’, Borba Gato assume o comando da expedição que já tinha, por base, o Sumidouro como arraial. Dali, muitos dos que seguiam a bandeira brasileira de Fernão Dias, movidos pela desesperança e atormentados pelas várias moléstias, espalharam-se e foram aos poucos povoando a área central de Minas, erguendo igrejas, vilas e moradas. A região que abrigara o fóssil de Luzia – considerado o fóssil mais antigo das Américas - era agora o palco de uma nova civilização.

No sumidouro, nome dado em alusão aos rios que sumiam por debaixo da terra, região compreendida pelos municípios de Pedro Leopoldo e Lagoa Santa, cheia de lagos e cavernas de calcário, Borba Gato começava a reestruturar a bandeira, esfacelada pelo tempo e marcada pela traição de José Dias, filho natural de Fernão Dias que, por traição à Bandeira, fora ali enforcado, registrando o primeiro lampejo inconfidente em terras mineiras. Quando se estruturava para fazer novas incursões pelo sertão mineiro, seja para descoberta de novas minas ou exploração das já encontradas, Borba Gato e seu grupo recebeu a visita do enviado da Coroa Portuguesa, Dom Rodrigo de Castelo Branco, que chegou querendo confiscar para si e para Portugal todas os méritos, riquezas e feitos iniciais da bandeira brasileira de Fernão Dias.

Assim, entravam em conflito os interesses dos brasileiros contra a histórica imposição da metrópole, o que culminou com o assassinato do fidalgo, que exigia a administração geral do sertão das Minas. Ao que se percebe, Portugal suspeitava das descobertas aglutinadas em silencioso poder por Borba Gato, registrando-se assim, o jeito mineiro de não revelar, nem para si mesmo, os seus segredos maiores.

Após o crime de lesa-majestade, Borba Gato foi obrigado a embrenhar-se em fuga pelos caminhos mineiros, vindo a dar com os costados no Vale do Rio Doce, inaugurando um refúgio que foi amplamente utilizado por degredados no Ciclo do Ouro. Anos depois, o seu perdão e sua liberdade foram negociados em troca da localização das referidas minas do Sabarabuçu, além da nomeação como Tenente-General. Era, aí, o início de uma nova história.

Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor


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