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Jorge Amado até no cinema

16.06.2011
 

Jorge Amado até no cinema. 15159.jpegTer a literatura como fonte de inspiração para adaptações cinematográficas é lugar comum na história da sétima arte. Durante muito tempo, cineastas buscaram romances com temáticas locais e regionais a fim de discutir questões acerca da identidade e da política brasileiras. Hoje, a adaptação de conhecidas obras literárias significa também uma boa fonte de investimentos, produções sofisticadas e expectativa de sucesso comercial, mas sem deixar de lado preocupações estéticas, políticas e sociais

Dentre os romancistas que chamam atenção dos cineastas, destaca-se Jorge Amado, escritor brasileiro mais lido e publicado no mundo e que já teve obras adaptadas por diretores estrangeiros.

Em 2010, foi lançado o longa "Quincas Berro D'Água", baseado na novela "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água". Neste mesmo período, estiveram sendo produzidas outras duas obras - "Velhos Marinheiros" e "Capitães da Areia", ambas adaptadas de obras literárias homônimas. A realização simultânea deste trio de longa-metragens assemelha-se ao que ocorreu em 1976, com as adaptações "Tenda dos Milagres", "Os Pastores da Noite" e "Dona Flor e seus Dois Maridos". Devido a esta coincidência, algumas pessoas creem que este é o momento de retorno do universo literário de Jorge Amado ao cinema.

Uma nova leva?

Cecília Amado, diretora de "Capitães da Areia", não considera que este seja um momento de renovação do interesse pela obra de Jorge Amado e destaca que "nos últimos quinze anos, entre 'Tieta' e 'Capitães', sempre houve busca pelos direitos autorais dos romances".

De acordo com ela, há certa circularidade na produção dos filmes nacionais, o que pôde ser evidenciado na última década, marcada por um ciclo de filmes violentos, com o olhar voltado para as favelas e prisões. Com Jorge Amado, surge um momento diferente, caracterizado pela alegria de viver, por um povo vibrante e rico culturalmente. E acrescenta: "Coincidentemente os tempos de 'Quincas' e 'Capitães' chegaram juntos".

André Setaro, crítico de cinema, explica que o interesse pela obra de Jorge Amado se deve a alguns fatores como o sucesso editorial, o fato de o escritor ser um grande pioneiro em transpor a linguagem oral e coloquial do povo nas páginas dos seus romances e pela veia cômica e sensual presente nas suas narrativas. Setaro afirma que o último ponto é um dos mais buscados pelas recentes adaptações, pois, segundo ele, essas obras procuram extrair "oportunisticamente a 'luz da Bahia', para fazer um humor chanchadístico e aproveitador".

Ele denuncia ainda que não existe preocupação em mostrar Jorge Amado como um homem do povo, e sim em se fazer cinema comercial. O cineasta Edgard Navarro tem posição discordante, ao menos quanto ao filme "Quincas Berro d'Água". Sobre o longa-metragem, ele diz ter certeza de que "se Jorge fosse vivo iria gostar do filme e reconhecer nele a Bahia e a personagem que sua obra imortalizou. É um filme divertido, bem realizado e cumpre a contento seu papel", acredita. Para Navarro, também não existe uma "nova leva" de obras inspiradas em Amado, mas apenas obras produzidas isoladamente que neste ano acabaram convergindo.

Universo adaptado

A ideia de que fazer uma adaptação é ir além da transposição cena a cena, uma vez que cinema e literatura são linguagens diferentes, é compartilhada tanto por Sérgio Machado (diretor de "Quincas"), quanto por Cecília Amado.

Cecília explica que pelo fato de no romance 'Capitães' contar muitas histórias de vida, não houve necessidade de inventar coisas novas. "Todo o trabalho foi centrado no significado da obra e das personagens, o que permitiu a realização de um recorte referente a um ano da vida dos capitães da areia". E mesmo após o este recorte, a diretora crê que o filme permaneceu fiel ao livro, afinal "o que constitui o enredo é a transição para a adolescência dentro do contexto social das personagens".

Sérgio Machado acrescenta que "não se pode reverenciar o autor". A dica do diretor tem a ver com o nível de submissão ao texto original na hora da adaptação. "Só faz sentido realizar uma adaptação se o cineasta sente que pode inserir sua própria marca enquanto criador", conclui. Machado conta que já havia lido boa parte da obra de Jorge Amado para roteirizar "Cidade Baixa", pois o filme buscava manter uma narrativa similar à amadiana, apesar de não ser adaptação de uma obra específica.

 A intimidade com o universo literário de Jorge Amado contribuiu para que o diretor tivesse facilidade em criar novas situações e personagens para "Quincas Berro D'Água", como a cafetina Manuela (interpretada por Marieta Severo), e se voltasse mais para as ruas de Salvador, contrariando uma tendência do livro que é concentrar-se no quarto onde ocorre o velório de Quincas. Segundo ele, o trabalho foi muito natural pelo fato de ser baiano e de muitos personagens de "Quincas" participarem da trama de "Pastores da Noite".

Cecília Amado, apesar de ter alterado pouco o conteúdo das tramas, preferiu situar a história na década de 50, em vez dos anos 30. "A motivação de fazer o filme veio da vontade de falar desses seres humanos que são os capitães, de mostrar como Jorge Amado tratava as personagens, e eu não queria que isso ficasse mascarado pela violência que existe atualmente", esclarece. Fazer um filme ambientado nos anos 2000 era arriscado por causa de problemáticas como o tráfico de drogas que escondem o que há de mais humano.  "As carências dos jovens de hoje são fundamentalmente as mesmas das dos anos 30, pois os bandos de meninos de rua ainda são masculinos e a maioria das mães desses jovens precisa passar o dia trabalhando fora de casa", compara.

À esquerda

Jorge Amado militou durante anos no Partido Comunista e é comum que suas obras, principalmente as iniciais, manifestem um viés esquerdista. O cineasta Edgard Navarro ainda encontra elementos políticos caracterizadores da obra de Jorge Amado presentes nas adaptações atuais. Segundo ele, no longa-metragem "Quincas Berro D´Água", o diretor Sérgio Machado soube delimitar as fronteiras entre a luta de classes e etnias, além de ter conseguido transitar com facilidade entre os mundos da burguesia e boemia pobres,entre os atores da Globo e os do Bando. "Isso é política e Sérgio sabe disso", conclui. Machado diz que em seu filme há uma denúncia ao racismo, aos invisíveis sociais. "Mesmo estando por baixo de um caráter cômico, a história de Quincas Berro D´Água é resultado de um choque entre duas classes que viviam em paralelo, e que de repente são obrigadas a viverem em um quartinho durante o velório", explica.

Muitas das adaptações cinematográficas produzidas nas décadas de 60 e 70, como "Seara Vermelha", de Alberto D'Aversa e "Tenda dos Milagres", de Nelson Pereira dos Santos, davam destaque a questões políticas que nortearam a primeira fase da produção amadiana, considerada um período de militância através da literatura. "Capitães da Areia", por exemplo, foi escrito quando o escritor tinha 24 anos e estava mergulhado na ideologia comunista. Cecília Amado lembra que conheceu um momento diferente da vida e da escrita amadiana, no qual ele já havia se distanciado do comunismo e estava mais ligado à cultura popular. Por essa razão ela explica que a carga ideológica mais radical não foi inserida no filme. "O filme mostra o que considero ser essencial em Jorge Amado", declara.

Personagens

"Quincas Berro d'Água" e "Capitães da Areia" possuíram modos distintos de organizar seus elencos. Enquanto no primeiro são privilegiados atores reconhecidos nacionalmente, como Paulo José e Mariana Ximenes, no segundo foram selecionados jovens atores locais.

Apesar de considerarem Paulo José um dos maiores atores do Brasil, Setaro e Navarro concordam que se um dia tivesse ocorrido a eles fazer o "Quincas", não haveria melhor ator para interpretá-lo que Wilson Mello - ator baiano que atuou como Quincas durante 30 anos no teatro e          que faleceu poucos dias após o lançamento do filme. Segundo Setaro, "Wilson Mello seria muito melhor Quincas que Paulo José, porque ele vive a personagem". E acusa o fato de Wilson não ser reconhecido nacionalmente como motivo de o ator ter sido preterido. Já Navarro acredita que "cada cabeça é uma e que Sérgio tem todo o direito de pensar pela dele". E finaliza: "Quanto aos globais, paciência! Temos várias atrizes para o papel de Ximenes, mas não dá a mesma audiência, não é? Fazer o quê? A empresa precisa faturar". Apesar das críticas, Navarro comenta que o elenco baiano não foi respeitado na maioria das adaptações da obra de Jorge Amado, atuando como figurantes na maioria dos casos. Para ele, "'Quincas' possui o mérito de dar espaço aos atores baianos, que aparecem em performances apreciáveis".

Cecília diz que "cada cast deve ser muito apropriado ao filme que se está fazendo", e que no caso de Capitães, pelo fato de as personagens serem jovens, "não fazia nenhum sentido pegar atores de Malhação". O desejo da diretora era fazer um filme com jovens baianos que levassem uma vida parecida com a dos Capitães da Areia. Para tal, optou por trabalhar com jovens pobres e esteve em contato com vinte e duas ONGs. "Ao redor destes jovens, colocamos atores baianos, veteranos do teatro, tendo o cuidado de fazer com que os atores jovens não perdessem a cena frente a eles", explica.

Cecília considera o elenco de "Quincas Berro d'Água" primoroso. "Em 'Quincas', há grandes atores baianos e também grandes atores de fora da Bahia porque tem a ver com o filme", continua. E tem a ver não só com o filme, mas com uma preferência de Sérgio Machado em trabalhar com atores experientes, como Marieta Severo, Paulo José, e misturar isso com atores baianos de teatro, como Frank Menezes, Luis Miranda e Maria Menezes.

Fonte: Revista Fraude 8, produzida pelo PETCOM/ Universidade Federal da Bahia, autores: Marcelo Lima e Marília Moreira

 

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