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Camilo Pessanha: retrato por inteiro

16.03.2007
 
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Camilo Pessanha: retrato por inteiro

Adelto Gonçalves (*)

Camilo Pessanha (1867-1926) teve uma vida inteira de abandono, desistência e amargura que estão refletidos em seus versos mais marcantes. Mas, nas três décadas que viveu no Extremo Oriente, a vida irregular e o gosto pela bebida e o ópio, se o prejudicaram alguma vez, não o impediram de ascender socialmente na fechada sociedade portuguesa de Macau.

E não foram poucos esses êxitos, como se pode acompanhar pela leitura de A Imagem e o Verbo: Fotobiografia de Camilo Pessanha, livro organizado com especial esmero por Daniel Pires, que não só vasculhou arquivos de Portugal como viajou a Macau para consultar a Biblioteca do Leal Senado, onde se encontra o acervo de Camilo Pessanha, e resgatar um pouco da cidade onde o poeta viveu os seus melhores anos.

O resultado é uma série de fatos desconhecidos dos seus biógrafos, que até aqui haviam insistido muito na figura de um poeta desarvorado, que morreu tuberculoso e das seqüelas do vício. Em sua pesquisa, Pires foi em busca do outro lado da vida de Camilo Pessanha, mostrando que o poeta, na qualidade de jurista, teve posições determinantes no relacionamento entre portugueses, macaenses e chineses, como assinala no prefácio que escreveu para esta fotobiografia.

E que essas ações são absolutamente incompatíveis com a imagem que ficou de um poeta desleixado e de vida pessoal tumultuada. Os documentos levantados por Pires mostram um Camilo Pessanha empenhado não só em elaborar leis para regular o convívio diário daquelas comunidades tão díspares como colecionar objetos de arte chinesa que doaria por duas vezes, em 1915 e 1926, ao Estado Português e que, hoje, encontram-se no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra. Só isto basta para dar uma idéia do extremado espírito cívico de quem vivia a milhares de quilômetros de sua terra natal.

Mas Daniel Pires foi mais adiante em sua investida para desmistificar algumas assertivas veiculadas pelos inimigos do poeta “ou por pessoas intolerantes, ou pouco receptivas à aceitação de outras formas de assumir o quotidiano”. E mostra ainda um Camilo Pessanha empenhado em legislar em função da equidade, de maneira íntegra, “à revelia de interesses corporativos, aplicando ao condenado, quando desempenhava o cargo de juiz substituto, a pena menos onerosa que os códigos previam”. Outra vez, como advogado, aparece Pessanha na defesa de uma prostituta condenada por uma justiça iníqua e cega à miséria social, sempre disposta a fazer valer o peso da lei sobre os deserdados e benevolente com os mais favorecidos.

Ao contrário de muitos expatriados, como assinala Daniel Pires, Pessanha, desde os seus primeiros momentos em solo macaense, logo tratou de aprender o idioma sínico, o que o fez conhecer a fundo a cultural local e abandonar a postura eurocêntrica da maioria de seus contemporâneos. Foi o que o levou a traduzir na forma livre as Oito Elegias Chinesas, poemas do tempo dos Ming, de autores que viveram nesse período (1368 a 1628), que o autor teria descoberto numa “casa de pregos” de Macau e comprado ao “preço vil” de duas patacas.

A Imagem e o Verbo: Fotobiografia de Camilo Pessanha não é só uma série de fotos e reproduções de capas de livros, como é comum neste tipo de publicação. De início, o pesquisador preparou uma cronologia que vai do nascimento do poeta a 7/9/1867 em Coimbra, na freguesia da Sé Nova, filho de uma aventura fortuita de um estudante de Direito com sua governanta, a 2004, com a publicação de Clepsidra – Poemas de Camilo Pessanha, com posfácio e fixação de texto de António Barahona, e A Poesia de Camilo Pessanha, com coordenação, lição e apresentação de Carlos Morais José e Rui Cascais.

Depois, em “Juventude, o leitor encontra uma série de fotografias que apontam para as origens familiares do poeta, suas andanças pelo território português, sua formação escolar, sua vida universitária, suas primeiras produções publicadas na imprensa portuguesa, especialmente em Coimbra. Em “Os Afectos”, o pesquisador assinala as relações do poeta com seus pais, os seus familiares em Macau — José Manuel de Almeida Pessanha, seu filho, Lei Ngoi Long, “Águia de Prata”, sua companheira chinesa, e seus netos —, os seus amigos , especialmente o poeta Wenceslau de Morais, sua alma-gêmea, e os amigos que ficaram em Portugal — Ana de Castro Osório, Alberto Osório de Castro e Carlos Amaro.

Em “O Escritor”, Daniel Pires reuniu fotografias de várias composições de Camilo Pessanha em que se destacam o seu “Caderno Poético”, encontrado 40 anos depois de seu falecimento, e as correções para os poemas que viriam a constituir Clepsidra. Em “O Professor” está o percurso do poeta como docente em Macau, a partir de sua nomeação em 1893. Em “O Sinólogo” e “O Coleccionador de Arte Chinesa” estão outras faces conhecidas de sua atuação.

Já em “O Conservador do Registo Predial” está o longo exercício de Pessanha neste cargo e em “O Jurista” a sua atuação como magistrado. No capítulo “O Cidadão”, Pires reconstitui com fotos e documentos a ação de Camilo Pessanha na maçonaria, sua atividade jornalística, suas idas a Portugal para tratamento de saúde ou em férias, suas relações com os governadores de Macau e as homenagens que recebeu da sociedade macaense, entre outros assuntos. De assinalar são as fotografias do prédio da Avenida da Praia Grande que abrigou a última residência do poeta, do riquexó que o serviu nas ruas macaenses, da certidão de óbito e do túmulo do escritor em Macau.

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