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A nova literatura angolana

16.02.2010
 
Pages: 12
A nova literatura angolana

Il giorno in cui Paperino si è fatto per la prima volta Paperina e altri racconti: 12 storie quasi post-moderne (O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida e outros contos: 12 histórias quase pós-modernas), do angolano João Melo (1955), é o quarto volume da coleção Letteratura Luso-Afro-Brasiliana que a Morlacchi Editore, de Perugia, Itália, vem publicando sob a direção do professor Brunelo Natale De Cusatis, responsável pela Cátedra de Literatura Portuguesa e Brasileira e Língua Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perúgia, com o apoio do Instituto Camões e da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, de Portugal, em edição bilíngüe italiano-português.

O objetivo da coleção, segundo De Cusatis, é dar a conhecer ao público italiano a obra poética e narrativa lusófona, com atenção particular à última geração que é pouco ou nada conhecida na Itália. Até agora já foram publicados os livros Frontiere perdute, racconti per viaggiare, do angolano José Eduardo Agualusa, Il caso del martello, do brasileiro José Clemente Pozenato, e Buona notte, signor Soares, do português Mário Cláudio. Com publicação prevista para este ano está Racconti, de Sérgio Faraco. Entre os brasileiros, estão dois gaúchos (Pozenato e Faraco), em razão do interesse que pode despertar naquele país a literatura produzida numa região marcada pela forte presença de imigrantes italianos, especialmente do Vêneto.

Com apresentação, edição e tradução de Marco Bucaioni, os contos de João Melo, publicados pela primeira vez pela Editorial Caminho, de Lisboa, em 2006, fazem parte da nova literatura angolana, até aqui mais conhecida pelas obras de José Eduardo Agualusa (1960), Pepetela (1941), ganhador do Prêmio Camões de 1997, e Luandino Vieira (1935), que obteve o Prêmio Camões de 2006, recusado por razões pessoais. Sua temática principal é a descrição da nova sociedade angolana nascida da luta pela independência (1975) e da guerra fratricida que se seguiu entre as facções do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), apoiada pelo regime soviético com a participação direta do governo cubano, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), apoiada pelos Estados Unidos com a intermediação da África do Sul, dentro do contexto da Guerra Fria.

II

Mesmo com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a derrocada do regime soviético, a guerra angolana só teve fim em 2002, depois de ter causado imensos danos ao país, inclusive com uma diáspora de muitos cidadãos que não tiveram outra saída a não ser tentar reconstruir a vida em Portugal, Brasil, Estados Unidos, Canadá, França, Inglaterra e outros países europeus. Mas a Angola pacificada do século XXI já quase nada tem da colônia portuguesa de meio século atrás, isolada do mundo.

Aberta a investimentos estrangeiros, é um país que apresenta grande crescimento econômico, especialmente nas áreas de diamantes, petróleo e recursos minerais. A grande dificuldade, porém, está na repartição dessa riqueza à qual não têm acesso grandes parcelas da população, que vivem em condições subumanas.

Com esse período de conturbação já superado, a literatura angolana vive hoje outra fase, depois de ter explorado à exaustão as vicissitudes de uma sociedade pós-colonial sob o véu marxista-leninista. Agora, numa etapa em que já não podem atribuir todos os males ao colonialismo, os angolanos precisam buscar entre os seus pares os responsáveis pelo atraso econômico e pela manutenção de tantas diferenças sociais.

Mas, encerrado há tão pouco tempo aquele período, é claro que os dissabores da guerra ainda estão presentes nestes contos de João Melo. É o que se pode contatar em “A morte é sempre pontual” em que o desfecho trágico, embora anunciado, acaba por surpreender o leitor.

Ou em “O Canivete agora é branco” em que conta o reencontro que não se deu, 30 anos depois, de um ajudante de caminhão com seu antigo colega de profissão que, mais esperto, soube como cavar a vida, filiando-se ao MPLA, o movimento vitorioso, freqüentando a Universidade Patrick Lumumba, em Moscou, até virar quadro do partido e do governo para tornar-se administrador de uma empresa de diamantes e governador provincial. Metido até o pescoço em negócios escusos, o antigo Canivete transforma-se em empresário, virando até mesmo “branco”, sempre acompanhado de seguranças. Quem sabe uma paródia do “homem invisível” do norte-americano Ralph Ellison (1914-1994).

III

Em “O escritor”, João Melo, abusando, no bom sentido, da ironia, traça o perfil de um homem de letras que vivia angustiado à espera do sucesso que nunca chegava, embora já tivesse escrito quilômetros de poemas, estórias, teses, ensaios e recensões literárias, além de construir uma carreira politicamente correta, pelo menos aos olhos dos vencedores, pois, durante o colonialismo, tivera de prestar muitas declarações à Pide (a polícia política salazarista) e, na fase pós-independência, participara da campanha nacional de alfabetização e das brigadas que foram colher café, sem contar que, durante a guerra anticolonialista, nunca fugira do país. Mesmo assim, nunca recebera um prêmio literário. Talvez porque não fosse nem mestiço nem branco.

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