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Canção para Sophia

15.12.2008
 
Pages: 12
Canção para Sophia

Adelto Gonçalves (*)

I

O mais português dos poetas brasileiros. É assim que o poeta Affonso Romano de Sant´Anna (1937) define Álvaro Alves de Faria (1942), poeta lírico brasileiro que acaba de lançar Livro de Sophia , poema longo dirigido a Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), escrito a 2 de julho de 2004, dia em que ouviu o anúncio do seu falecimento, por coincidência num período em que estava em Portugal e se sentiu na obrigação de fazer esta homenagem a uma das maiores poetas da língua portuguesa, distinguida em 1999 com o Prêmio Camões, em 2001 com o Prêmio Max Jacob de Poesia e, em 2003, com o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.

Naquele dia, tomado de grande emoção, passou a escrever, por horas seguidas e em vários recantos lisboetas, o grande poema que a Sophia dedicou. “Na verdade, apenas conversei com ela, a andar por Lisboa, a falar com ela sobre o poema e a poesia, até que de mim se despediu, já madrugada, desaparecendo assim como surgiu”, escreve na abertura do novo livro.

Filho de portugueses, Faria, em sua maturidade, tem feito uma poesia que se tem caracterizado por uma busca de suas raízes pessoais, talvez decepcionado com os rumos que o seu país vem trilhando nos últimos anos, depois que a redemocratização mostrou a verdadeira face daqueles que, misturados aos que de coração lutavam contra a ignomínia que representava o regime militar (1964-1985), o que mais queriam eram uma oportunidade para se locupletar com as benesses do Estado. Talvez por isso, nos últimos anos, Faria vem fazendo na poesia o que o também poeta Miguel Sanches Neto (1965) definiu como “uma longa viagem de volta”. E que pode ser constatada neste trecho da elegia a Sophia de Mello Breyner:

(...) Estou na tua terra, Sophia, em busca desse poema que me falta,

no teu país em que me percorro na minha intimidade

como se assim pudesse ainda salvar minha alma de poeta que fui. (...)

O desencanto do poeta com a poesia que se pratica no Brasil vem de longe, desde a década de 1960, quando o seu fazer poético foi questionado e, de certo modo, colocado de lado pela então vanguarda do movimento concretista. Ao lado de Mário Chamie (1933) e dos poetas influenciados pela geração beat norte-americana, Faria ficou imprensado entre o regime ditatorial que ceifava a liberdade de pensamento e a ortodoxia dos corifeus do movimento concretista -- Haroldo de Campos (1929-2003), Augusto de Campos (1931) e Décio Pignatari (1927) --, que atacavam a produção poética da época, dominada pela geração de 1945, a quem acusavam de verbalismo, subjetivismo, falta de apuro e incapacidade de expressar a nova realidade gerada pela revolução industrial.

Defendendo o experimentalismo na linguagem a qualquer preço, a abolição do verso tradicional e o uso de uma linguagem sintática, além da utilização de neologismos e estrangeirismos, os concretistas, praticamente, ocuparam todos os espaços na imprensa cultural e nos meios universitários de São Paulo. Até porque não incomodavam o poder. Radicais sem causa, acabaram, praticamente, por erradicar o lirismo da poesia brasileira, como se percebe na acusação implícita que o poeta parece lhes dirigir nestes versos:

(...) No Brasil, Sophia, a poesia não existe mais,

morta que foi a golpes brutos

que dela fizeram uma sombra que não se distingue,

de tal sorte

que o poema desfeito mais se desfez no próprio nada,

retrato que não se nota,

imóvel no seu féretro,

imagem inútil dos poetas à margem da poesia. (...)

Em tom coloquial, entre a epístola e a prece, como bem observa Graça Capinha na apresentação, o poeta faz recordar Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa (1888-1935), ao escrever um “poema que não é poema”, “que se nega como poema”.

(...) Não sei se percebes, Sophia,

já que neste poema que não é poema,

faço a fotografia possível do que me invade

com a notícia de que deixas o mundo.

O que se salva é a poesia feminina,

esse olhar que diferencia o poema. (...)

II

A extensa obra da homenageada não se resume aos domínios da poesia, abrangendo também a ficção, o conto para crianças, o ensaio, o teatro e a tradução, como provam magníficas versões que fez de textos de Eurípides (c.485 a.C-406 a.C), William Shakespeare (1564-1616), Paul Claudel (1868-1955) e Dante Alighieri (1265-1321). Mas foi sempre na poesia que se destacou, desde que publicou o livro Poesia (1944), que contém versos que definem uma questão central em sua obra, como aponta Clara Rocha em texto que consta do site do Instituto Camões, de Lisboa: a relação entre poesia e magia. Esses versos são os seguintes:

Palavras que eu despi da sua literatura,

para lhes dar a sua forma primitiva e pura,

de fórmulas de magia.

“Pode dizer-se que constituem a primeira arte poética de Sophia e a mais importante deixa para os livros subseqüentes”, acrescenta Clara Rocha.

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