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Garoto de Bressane em Locarno

15.08.2015
 
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Está quase terminando o Festival Internacional de Locarno e cinco filmes brasileiros despontam na reta final, todos com estréia mundial em Locarno.

Ontem, foi a vez do novo filme do cineasta Júlio Bressane Garoto, e Origem do Mundo de Moa Batsow, seguindo-se hoje O Espelho de Rodrigo Lima e O Prefeito de Bruno Safadi. Estes quatro filmes fazem parte do projeto produzido por Júlio Bressane, a Tela Brilhadora. São filmes de autor, diametralmente opostos aos filmes comerciais.

Por Rui Martins, de Locarno

A quinta estréia, nesta sexta-feira, é a do filme Heliópolis, de Sérgio Machado, um misto de realidade com ficção mostrando jovens formados em música clássica na favela onde vivem. Eles constituem hoje uma orquestra, apresentada com frequência numa das mais belas salas paulistas de concerto, a Sala São Paulo.


Bressane é o presidente do júri dos Cineastas do Presente, em Locarno

Júlio Bressane é o presidente do júri da mostra Cineastas do Presente, onde competem 14 filmes de diferentes nacionalidades, entre eles o co-dirigido pela brasileira Petra Costa, filme bem recebido em Locarno, Olmo e a Gaivota. Discreção exige, a entrevista de Júlio Bressane não versa sobre o seu trabalho de ver dois filmes diários, mais as reuniões com os colegas do júri (que o têm fatigado enormemente), porém sobre a estréia de seu filme Garoto.

Vamos começar com seu projeto Tela Brilhadora, quatro filmes inéditos mostrados aqui em Locarno.

Bressane - Não se trata de um projeto nem de um movimento. É um momento ou estado de espírito de gente com a qual trabalho, o Bruno, o Moa e o Rodrigo, há mais de quinze anos. Fizemos mais de dez longas-metragens juntos. Trata-se de um encontro, de uma partilha de vontades de arriscar e experimentar mais uma vez. Um projeto coletivo mas individual, cada um fez à sua maneira e recuperamos e encarnamos uma figura que hoje está praticamente desaparecida do cinema, que é a figura do produtor-realizador do cinema. Hoje o produtor não tem nada a ver com a figura antiga do mecenas que era capaz de exigir do pintor ou do escultor uma idéia do que queria.

São quatro filmes, dos quais você seria o mecenas...interligados...

Eu não sou o mecenas desses quatro filmes, fiz parte desse projeto. Quando vocês faz esses filmes, é evidente que deve haver uma relação entre eles, por estar partilhando tudo com essas pessoas à sua volta, em termos de linguagem, de estado de espírito e mesmo de amor. E isso se passa geralmente de maneira invisível e as vezes fica mais evidente a relação entre eles, a passagem deles pela música, pela pintura, pelas escolhas textuais. Essas são as evidentes, porém as mais fortes são as invisíveis e que aparecem de maneira involuntária.

E o seu filme Garoto, com os atores Gabriel Leone, Josie Antello e Marjorie Estiano, é um projeto antigo...

Esse projeto do Garoto vem dos anos 70, quando li um livro do escritor Jorge Luis Borges que acabava de ser publicado e ali havia o conto O Assassino Desinteressado Bill Harrigan. Fiquei impressionado, porque o conto é marcante apesar de brevíssimo, apenas quatro ou cinco páginas. É uma visão devastadora do assassinato, fiquei fascinado e fiz uma adaptação que felizmente não filmei. Mas nestes trinta anos fui repensando o texto e chegando ao ponto central do texto que é a mitologia da cólera, onde está sentado o mito do homicídio, o mais antigo da história da humanidade, de onde vem o ódio e a vontade de matar. Segui por uma via mitológica para recuperar esse mito e andei pela pré-história. E só agora, há uns quatro ou cinco anos, cheguei ao ponto quando minha filha Lua Bressane ia fazer esse filme. E assim retomei o ponto central do conto.

Na Educação Sentimental e no Garoto se vê a importância dada ao canto dos pássaros...

Primeiro de tudo pelo prazer de ouvir o canto dos pássaros, mas no filme Educação Sentimental, a presença dos pássaros na cidade é uma espécie de onda de memória, porque isso desapareceu, não há mais canto de pássaros na cidade. Ora, o que sempre encantou òs primeiros viajantes que vinham aqui ao Brasil e Américas, era o canto dos pássaros. Isso  inspirou e interessou a tantos músicos em épocas diferentes, mas  agora simplesmente desapareceu e houve mesmo a criação de instrumentos de percussão imitando e sugerindo o canto dos pássaros, por haver neles um som mágico e encantador. E dentro do Garoto, retorna o canto dos pássaros como uma onda de memória, retorno de alguma coisa que não mais existe.

Você é muito ligado aos elementos e sua atração por mudança dos ambientes, evidente no filme Garoto...

A primeira parte do filme é a da formação do garoto, a parte encantada do filme, o bosque, a floresta, a selva antiga. Há uma ruptura com isso depois do crime que ele comete. Isso dana com a alma dele, que vai desaparecer no deserto, na secura, na aridez e numa espécie de desvio da memória. Depois do crime a impossibilidade de redenção. No seu caminho para o nada, ele caminha pela geografia dos sinais do começo do homem, lugares com os sinais esculpidos pela água e pelo vento, seus arquitetos, e pelos povos que passaram por ali. Sinais ali abandonados esperando por uma decifração

Rui Martins está em Locarno, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

 


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