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Um novo mundo à nossa espera - Entrevista

15.02.2008
 
Pages: 123
Um novo mundo à nossa espera - Entrevista

Com uma entrevista com o professor José Luis Fiori, Carta Maior encerra a série de artigos sobre seu livro “O poder global e a nova geopolítica das nações” (São Paulo: Boitempo, 2007). Na entrevista o autor esclarece alguns dos conceitos e de seus desenvolvimentos em suas reflexões.

Num mundo em que a guerra continua sendo a moeda corrente da expansão capitalista, a única região a não sofrer conflitos armados de monta nos últimos decênios é palco de uma peculiar “sublevação” de suas massas de deserdados, sob a forma de eleições de líderes populares que fogem ao modelo do neo-liberalismo triunfante depois do fim da Guerra Fria, ou da derrubada de presidentes eleitos que fogem às suas promessas de campanha e aderem a este modelo.

Entretanto a expansão do capitalismo triunfante continua a gerar contradições que redesenham a economia mundial, com a China e a Índia, potências armadas, disputando espaço em suas regiões próximas e para além delas. Que futuro se pode esperar diante de tantos desafios inesperados para quem acreditasse que o fim do conflito entre os EUA e a URSS, com a vitória daquele, traria uma era de hegemonia incontestada pelo maior e mais poderoso império que a história já viu? Leia a seguir a íntegra da entrevista com o professor José Luis Fiori, da UFRJ, que também é colunista da Carta Maior.

Carta Maior - No seu livro “O poder global” a relação entre a acumulação do poder territorial - quase sempre através da guerra - e da riqueza capitalista é permanente e inevitável, e se transformou numa marca do “milagre europeu”, a partir do século XVI, mas com raízes que remontam ao século XII da era cristã. Mesmo o mais otimista dos seus leitores reconheceria que sempre “estamos em guerra”. Mas um leitor mais cético perguntaria: “sim, mas resta sabermos hoje no meio de que guerra estamos”? Mais exatamente, no meio de que guerra ou de que guerras estamos?

José Luis Fiori - Segundo cálculo de alguns historiadores, o número das guerras cresceu sistematicamente através dos últimos séculos, e foi maior no século XX, do que em qualquer outro tempo. Entre 1400 e 1990, houve cerca de 1000 guerras no mundo, e elas seguem se multiplicando. Mas do meu ponto de vista, este não é o ponto essencial do argumento, quando se pensa na dinâmica do sistema mundial. Trata-se de uma realidade terrível, mas do ponto de vista do sistema criado pela expansão conquistadora do poder e do capital europeu, a Guerra cumpriu um papel decisivo.

Na verdade, ela promoveu durante todo este tempo, uma espécie de “destruição integradora” de territórios e populações. Primeiro, na Europa, e depois, até o século XX, do resto do mundo. Além disto, dentro deste sistema, a “preparação para a guerra” cumpre um outro papel, mais importante do que a própria guerra como fator dinamizador, a verdadeira mola mestra que moveu através do tempo o processo de competição e a acumulação do poder dos príncipes e dos estados nacionais que sempre competiram e lutaram pela expansão do seu poder, dentro e fora dos seus territórios “nacionais”, na busca contínua de um poder global que nunca lograram alcançar.

Esta mesma competição também move a “ponta’ do progresso tecnológico e cumpre um papel decisivo na acumulação da riqueza das nações. Neste sentido, se pode dizer que o sistema mundial vive em meio à uma guerra contínua, e neste momento segue sendo movido, muito mais do que pela Guerra do Iraque, por exemplo, pela preparação para a guerra – conquistadora ou defensiva, não importa – por parte das grandes potencias, e dos principais estados nacionais do sistema...

CM - Ao final do livro o sr. sugere que as presentes “sublevações” populares na América Latina têm a ver com a própria expansão do capitalismo norte-americano e seu presente “idílio combinatório” com a expansão chinesa. Dá para desenvolver mais essa idéia?

JLF - Na verdade, o que digo é que ocorreu na América do Sul, uma surpreendente convergência, no início do século XXI, entre dois processos autônomos, mas que vem tendo uma resultante virtuosa do ponto de vista das forças progressistas e de esquerda que lutam por maior igualdade social e autonomia nacional. Do ponto de vista interno do continente, a década neoliberal dos anos 90 não entregou o que prometeu e provocou uma reação popular e eleitoral que varreu os governos conservadores, através de eleições democráticas, em quase todos os países da América do Sul.

Em 2001, a maioria dos analistas previa uma desaceleração da economia mundial e neste caso, uma vez mais o que tocaria a estes novos governos progressistas ou de esquerda seriam obrigados uma vez mais – como quase sempre na história do século XX - a se desgastarem rapidamente administrando a crise deixada pelos governos anteriores. Mas depois de 2001, ao contrário de uma desaceleração econômica, o que se assistiu foi uma fortíssima aceleração da economia mundial, liderada pelo eixo sino-americano, promovendo uma retomada ou aumento do crescimento econômico em quase todo o mundo. Este tufão econômico atingiu também a América do Sul, no exato momento em que se dava sua “virada à esquerda”, o que permitiu alguns países como Argentina e Venezuela saírem de crises gravíssimas, mas ao mesmo tempo colocou um problema absolutamente inusitado na história da América do Sul e na agenda da esquerda mundial: o que e como fazer em condições de sucesso econômico capitalista?

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