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Conversas vadias

15.01.2007
 
Pages: 12
Conversas vadias

O Professor Agostinho da Silva, na sua entrevista concedida à apresentadora Maria Elisa, revela um fio de “pensamento original e polémico”, inserido na noção de indivíduo errante, “vadio”, num conceito de liberdade total, espécie de vadiagem lúcida do ponto de vista intelectual mas com os pés bem assentes na realidade das necessidades biológicas do “animal laborans”, dependente da natureza.

Tratar-se-ia da Labor de que nos fala Hannah Arendt no seu livro a “Condição Humana” [1] , em contraponto ao “Homo Faber” do Trabalho em que a Acção interage imprevisível e irreversível. Provavelmente de onde adviria o espírito exagerado pelo trabalho do workaholic, na criação de riqueza material na Vita Activa [2] . Provável génese da motivação do capitalismo pós-moderno, “herdeira” do calvinismo [3] posterior à Reforma de Lutero do século XVI com as suas 95 teses a 31 de Outubro de 1517, afixadas nos portões da igreja do castelo de Wittenberg [4] .

“O homem nasce para criar e não para trabalhar”: - resume categoricamente Agostinho da Silva, a sua posição filosófica sobre o ser e estar no mundo.

Nesta entrevista do Professor Agostinho da Silva (A.S.) e no seu jeito característico, sobressaem as palavras a vadiarem soltas, sem preconceitos, nas respostas às questões colocadas. Questões do porvir do sistema português de ensino, na contestação da escola, a falta de aproveitamento escolar num mundo cada vez mais competitivo com as imposições das regras de mercado internas afectadas pelas pressões externas –, a globalização. (Paradoxalmente iniciada pelos portugueses no século XV).

Segundo o filósofo, A.S., a escola pública deveria preparar o aluno para as necessidades básicas numa autêntica guerra contra a carência e acabando com a competição. Adiante contesta a pedagogia do ensino enfatizando, com a sua ironia característica, que “o aluno já nascia reformado” –, alusão ao aspecto de falta de saída profissionalizante, após a escola. Esta situação contribuiria para a «desgraça» dos alunos. Na sua observação tece um comentário sobre o facto da questão socioeconómica em que se ensina a ler sem nada para ler à posteriori (falta de meios).

Refere também (à laia de paradigma), a escola dever ter o carácter disciplinador de uma academia militar e que se deveria começar a ler aos 14 anos sendo o pragmatismo a motivar a necessidade de ler e aprender. E a “ensinar mulheres pobres a fazer vestuário, costura, cozinhar, também é cultura”. Se os alunos não faziam perguntas talvez não o fizessem por falta de motivação. A imaginação de quem pergunta dependeria dessa motivação, finaliza o filósofo A.S. (Na Universidade de Lisboa, o silêncio à pergunta feita por uma Professora universitária, numa aula de Cultura e Sociedade (Sociologia), no dia 5 de Dezembro de 2006, parece confirmar essa observação de A.S.)

No decurso da entrevista (A.S.), dá a entender “estar contra” os subsídios institucionais para a Cultura pelo simples facto que a cultura em 1º lugar começaria pelas condições de vida e o preenchimento dos 3 “esses”: - 1. Sustento; 2. Saber; 3. Saúde. “Subsídio de artista ou não?” Dentro do seu pressuposto que “o homem nasce para criar e não para trabalhar”. Salienta A.S., ser o objectivo no mundo –, “essa reforma para todo o mundo”. Detentor de dupla nacionalidade portuguesa e brasileira, A.S., “sem número de contribuinte fiscal” para não ter “a obrigação de saber o que o governo fazia dos impostos com o dinheiro do cidadão”.

Na fase final da entrevista A.S., sem isenção de alguma ironia, diz sentir-se “gratíssimo a Portugal condutor do mundo” e que “a Europa devia dinheiro a Portugal”. Talvez uma alusão implícita ao mítico 5º Império em que Portugal teria dado “novos mundos ao mundo” num início da Globalização a partir do Renascimento [5] no século XV. Ou quiçá, dentro de um contexto mais espiritual de vários Quintos Impérios, idiossincrásicos, em busca não das especiarias das Índias nem do lendário Santo Graal [6] mas de (um utópico) Humanismo universal, diremos nós.

Expressões do filósofo Agostinho da Silva: Sobre se sofria de “assédio mediático”, A.S., responde: -”Sou normal talvez porque digo o que eles trazem dentro” (de si mesmos e não ousem dizer, acrescentamos nós). “Toda a gente nasce de uma forma poética.” - “Vadiagem uma forma de poesia. Imaginação e sede de saber / preciso saber a Velocidade do Mundo / da galáxia / do tempo.”

Contraditoriamente o Prof. A.S., contestou todo o conhecimento para aprender. Para ele o importante antes de ler seria entender o que se ouvia. “E o que é cultura geral?” Pergunta. Agostinho da Silva, poliglota, estudou ainda islandês, esteve na origem da fundação de Universidades e teve uma vida muito preenchida de vivências “vadias” no assumir de várias tomadas de posição que até lhe valeram a prisão política. Sem dúvida um filósofo de nosso tempo.

João Craveirinha

Ficha técnica

Título: Conversas vadias com Agostinho da SILVA

Entrevista de Mª Elisa na RTP / Rádio Televisão Portuguesa

Género: Talk-show

Local: Lisboa Origem: Portugal – 1990

Tempo aproximado: 28 minutos.

Biografia – fontes:

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