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Festival de sangue

14.08.2006
 
Festival de sangue

Os antigos costumavam referir-se às profecias de Nostradamus como inevitáveis. A elas acrescentavam as expressões populares: "O ano mil passará, de dois mil não chegará”.

Quando no final da centúria o mundo saudava o surgimento de nova era de paz e harmonia entre as nações, desmentindo as antecipações catastróficas do profeta, expectativa baseada na crença de que o mundo estaria cansado de guerras fratricidas, decorridos menos de um lustro da passagem do século presenciamos a mais sangrenta das páscoas, com guerras e o terror espalhados universalmente.

Em verdade, ninguém ainda se esquecera de 1918 e de 1939, cujo morticínio espalhou lágrimas e luto por todas as partes do universo, do qual não escapou até mesmo o Brasil, país com indiscutível vocação pacifista. A década seguinte ao fim da última Grande Guerra, com a vitória dos aliados fez surgir no mundo plêiade de estadistas do porte de Winston Churchill, Adenauer, Franklin Roosevelt, Ghandi, cuja ação geraria esperanças de um novo tempo de paz e prosperidade. Apesar dos esforços desses homens de escol o mundo foi pouco a pouco resvalando para a brutalidade dos conflitos limitados, cuja origem se localizava em áreas de extrema pobreza, em episódios de injustificadas dominações de países mais fortes, em fanatismo religioso e disputas econômicas na busca de mercados.

Mais perturbador é a atual carência de lideranças de igual porte. Apesar de Nostradamus o ano 2000 chegou e não aconteceu a colisão da terra com o asteróide gigante capaz de destruí-la completamente. Mas tudo vai acontecendo de forma despistada com a chegada das bestas previstas no Apocalipse, cada qual se repetindo em sucessivas ondas de sofrimento banhadas de lágrimas e sangue.

As grandes endemias, a fome dizimando populações inteiras na África e em outras partes, os meios de comunicação apresentando cenas de horror e morte, crianças calcinadas pelo fogo que vem do céu para atingir inocentes de todos os credos e crenças, são acontecimentos funestos para cuja solução os homens ainda não conseguiram encontrar a correta dose de bom senso para evitar.

No belíssimo filme Paixão de Cristo, recentemente exibido, surge a inquietante pergunta sobre "o que é a verdade?". Todo o ecúmeno se dilacera na ânsia de responder a esta angustiante indagação. Estará ela com os cristãos, com os xiitas, os muçulmanos, os xintoístas, os evangelistas, os islamitas? Cada qual se julga com poderes sobre ela e pretende pela violência, o terror, as bombas e o dilaceramento, impô-la compulsoriamente.

Há um mar de dificuldades a serem superadas, especialmente nas áreas onde as guerras localizadas acontecem com maior recorrência, a exemplo da questão palestina, sobre a qual há unanimidade de que a ausência de solução para ela é o fermento efervescente do morticínio a dizimar milhares de vidas. Se no longínquo Oriente as imagens são desesperadoras e chocantes, muito perto de nós desenrola-se verdadeira guerra civil nas barbas das autoridades impotentes.

Seja no Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte, são semanalmente ceifadas mais vidas do que na guerra do Iraque. A diferença é que lá longe o conflito é declarado e aqui ele se mistura com o dia a dia da população indefesa e desprevenida. O que mais acentua a gravidade da situação nas cidades brasileiras é a falência do poder de polícia e o continuado desrespeito à lei, cujo exemplo quase sempre vem de cima, bem do alto, dos responsáveis principais pelo seu efetivo cumprimento.

O resultado é este interminável festival de sangue a envolver o Brasil e o mundo. Em meio a bombas explodindo, tiros sibilando entre civis indefesos, é possível encontrar um instante de paz e esperança na palavra sempre lúcida de alguns líderes, incansáveis na doutrinação pela paz e a concórdia entre as nações.

* Murilo Badaró – Presidente da Academia Mineira de Letras


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