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Duelo russo era necessariamente mortal

14.03.2007
 
Duelo russo era necessariamente mortal

O duelo russo tinha suas características específicas. Mais cruel, poderia ser realizado a uma distância de cinco passos, ao invés de vinte como se costumava adotar na Europa, e era necessariamente mortal.

Os russos o consideravam um "ato de barbárie". mas os nobres o encaravam como uma arte que custou a vida a um dos maiores poetas russos: Alexandre Pushkin. Uma exposição dedicada ao "duelo russo" está em cartaz em Moscou até maio.

"A idéia de defender sua honra pessoal era alheia à nobreza russa", explica o texto colocado na entrada da mostra organizada no museu Pushkin de Moscou, que situa o primeiro duelo em solo russo no ano de 1637 entre oficiais alemães.

Mas as reformas de Pedro, o Grande (1672-1709) "para aproximar a Rússia da Europa fizeram todo o possível para favorecer a emergência deste ritual", ressaltou a exposição.

Graças a documentos históricos, o visitante descobre o crescente entusiasmo dos russos pelo duelo, que culminou no fim do século XVIII e no início do XIX na alta sociedade. Já a plebe não participava de duelos, pois não tinha "honra" a defender.

Rica em generais ilustres, a Rússia possui ainda um duelista célebre, um conde Tolstoi, sobrinho do grande escritor, que matou onze adversários impunemente.

"Procurava confusão com todo mundo e propunha a seus amigos duelar em seu lugar. Era um intrépido", conta Lydia Ivtchenko, comissária da exposição.

Pedro, o Grande entendeu rapidamente o efeito devastador que a violenta tradição teria nos oficiais de seu exército e a proibiu por decreto. O poderoso czar punia o duelo com a pena capital.

Apesar disso, a moda se enraizou rapidamente entre a nobreza de São Petersburgo, apaixonada pelas armas e impregnada da cultura européia. Além do mais, nem todos os czares se opunham a esta forma de justiça com as próprias mãos com forte carga romântica.

O extravagante Pavel I (1797-1801), ofuscado pelo imperador da Áustria e pelo rei da Inglaterra, os desafiou oficialmente a duelar com pistola, tendo como testemunhas seus respectivos ministros das Relações Exteriores. "Nem se dignaram a lhe responder", conta, com sorriso nos lábios, Lydia Ivtchenko.

O duelo é um tema central de Alexandre Pushkin que, segundo se comenta, teria anunciado seu próprio fim trágico em sua obra-prima, "Eugênio Onieguin". Uma sala inteira da mostra está dedicada ao duelo na literatura russa, de Pushkin a Tolstoi, de Dostoievski ao brilhante Lermontov, morto em um duelo aos 26 anos de idade.

Os duelos eram freqüentemente motivados por frivolidades, como um olhar ou uma palavra infeliz. Mas este não foi o caso de Pushkin, que desafiou o jovem barão francês Georges d'Anthès.

Integram a exposição as duas pistolas emprestadas especialmente pela França, uma das quais disparou o tiro fatal que matou o poeta na manhã de fevereiro de 1837 em um campo nevado de São Petersburgo (foto). 

A leitura da carta anônima original, em francês, que motivou a tragédia, permite avaliar a afronta sentida pelo escritor: "a grande cruz dos cavaleiros da sereníssima ordem dos cornudos reunidos nomeia Alexandre Pushkin co-adjutor do grão-mestre da ordem dos cornudos".

Para o já célebre poeta, tratava-se de defender sua honra e a de sua esposa, a bela Natalia Gonsharova, cortejada sem pudores por D'Anthès. Mas teria o jovem barão chegado a consumar o adultério? "Nunca, jamais", garante a comissária da exposição, contradizendo a versão mais difundida.

 Fonte: AFP 


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