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A destruição dos hereges

13.09.2014
 
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Eis um assunto tão interessante quanto desconhecido, por motivos óbvios. Nas três maiores religiões mundiais, judaísmo, cristianismo e islamismo, encontramos respectivamente suas versões esotéricas: cabalá, gnosticismo e sufismo. Elas têm em comum a busca do autoconhecimento e não a conversão das massas. São de índole pacífica e contemplativa e não impõem a crença em Deus a ninguém. Iniciaremos o assunto a partir de uma interessante reflexão a respeito.

Por Ivani de Araújo Medina em 12/09/2014

O escritor Noah Gordon (judeu norte-americano), no seu romance intitulado O último judeu, narra as aventuras de um judeu perseguido pela Inquisição espanhola, chamado Yonah Toledano. Ainda adolescente (treze anos), e sem renunciar ao Judaísmo, o personagem havia sobrevivido à expulsão dos judeus da Espanha pela rainha Isabel de Castela e pelo rei Fernão de Aragão, em 1492. Nesse clima de pânico e delações, em meio a uma sanha perseguidora e assassina que se desenvolveu a partir daí, Yonah, filho de um ourives, superou todas as dificuldades e tornou-se um respeitado médico.

Essa experiência arriscada e cheia de conflitos interiores acaba por revelar na amargura e na agonia do perseguido a causa de tanto sofrimento. As vicissitudes, o terror de ser descoberto e o sentimento angustiado de fidelidade à própria origem criaram um turbilhão que apagou temporariamente da mente de Yonah parte do serviço do Shabbat (sábado). Essa parte esquecida chama-se midá, e é composta de dezoito bênçãos. Isso o deixou angustiado, frustrado por falhar no cumprimento solitário e secreto, a que se via obrigado, dos rituais da própria fé.

Yonah Toledano decorara as preces quando era um menino, sem a bagagem que a vida oferece para uma meditação mais aprofundada sobre os significados e as implicações daquilo que, inconscientemente, repetira. Subitamente, sentiu-se tremendamente perturbado por um lampejo da memória, porque dentre as dezessete bênçãos que havia conseguido lembrar, a décima segunda lhe trouxera uma inesperada revelação. Tratava-se de uma oração pela destruição dos hereges.

Yonah, que vivia na iminência de uma morte terrível numa fogueira, encontrara na própria fé o motivo do seu sofrimento e do destino pavoroso de tantos indivíduos do seu próprio povo nas mãos da Santa Inquisição. Não importava qual fosse a religião vencedora, o Cristianismo ou o Judaísmo; fosse ele, Yonah Toledano, alguém de outra religião estaria experimentando os mesmos horrores que ele tão bem conhecia. "Então se os judeus, e não a Igreja estivesse no poder, também recorreriam a Deus para destruir os não crentes? Seria axiomático que o poder religioso absoluto vem sempre acompanhado da crueldade absoluta?", página 256. A História nos garante que sim.

A Santa Inquisição foi instituída com a intenção de eliminar os hereges do mundo. No século X, Hallaj, um dos grandes representantes do sufismo, foi executado por ter ensinado em estado de êxtase que havia atingido a identidade suprema e que Deus e ele (aquele que atinge tal estado) eram um. Os sufis são perseguidos e mortos até hojepelos islâmicos ortodoxos. O fato é que se percebe um nítido confronto entre a proposta de autoconhecimento (como conhecimento de Deus) e a de manipulação das massas (com suas lendas). Quem conhece um pouco de si não se deixa manipular facilmente e isto não interessa a produção e manutenção de uma cultura massificadora que explora descaradamente a vulnerabilidade emocional das pessoas.

Essa prática exclusivista e cruelmente repressiva,que caracteriza as religiões abraâmicas, tem uma explicação simples: resulta de uma experiência muito antiga e teve sua origem na Mesopotâmia. Um método prático e conservador de controle político e social com base na desorientação provocada pelas carências humanas. Leis divinas e imutáveis dão menos trabalho e facilitam o controle social diante de fatos novos. Nesse sistema a intransigência é fundamental. Trata-se de uma solução primária de gerenciamento humano que visa o grupo em detrimento das inevitáveis necessidades individuais. Como numa marcha o passo é ajustado pelo mais lento, neste caso as regras e explicações para o grupo são estabelecidas a partir da compreensão de menor alcance.

As formas ortodoxas das religiões em questão (ortodoxo significa conformidade absoluta com certo padrão, norma ou dogma ou intolerância com relação ao que é diferente -Dic. Houaiss) em função dessa praticidade conservadora, nunca toleraram suas versões esotéricas. A força bruta sempre foi um recurso nada cerimonioso utilizado pelas ortodoxias contra seus adversários, a despeito de toda aquela conversa fiada de amor ao próximo.Matar irmãos de crença é problema algum quando se faz em nome de Deus. Aí vale tudo e não é preciso justificar nada.

Como a nossa cultura ocidental tem sua base no helenismo, esses dois componentes (judaico e helênico) jamais deixaram de se digladiarem. Os gregos antigos desconheciam soluções eternas pela forma dinâmica como eram conduzidas as prerrogativas individuais em suas sociedades. Daí eles mudavam suas leis de acordo com as necessidades do seu tempo. Uma frase de Heráclito (535-475 AEC) mostra bem esse antigo temperamento grego em contraste com o igualmente antigo temperamento mesopotâmico: "Nada é permanente, exceto a mudança".

O fato é que até hoje não se encontrou uma solução harmoniosa para a questão ancestral entre o pragmatismo mesopotâmico e a sempre atual sabedoria grega. "Conhece-te a ti mesmo" é um aforismo grego bastante significativo. O alvo prioritário da repressão das religiões abraâmicas não eram, exatamente, os descrentes em Deus(ateus), mas aqueles que escolheram outro caminho na mesma crença: os hereges. Heresia significa teoria, ideia, prática etc. que nega ou contraria a doutrina estabelecida por um grupo (Houaiss). Isto era para os ortodoxos o grande perigo, pois os argumentos em contrário não careciam de embasamento.

Ora, quando uma mesma discordância de fundamento é percebida do mesmo modo,algo precisa ser muito bem explicado aí. Mas quem vai explicar? Qual das três? Não se toca nisto porque, segundo apoiadores,os textos sagrados ortodoxos estão repletos de compaixão, bondade, amor e poesia e a imensa maioria dos seguidores dessas ortodoxias religiosas são pessoas boas e precisam delas. Uma verdade pouco significativa diante dos fatos, pois essas maiorias nunca evitaram tragédia alguma. Jamais evitarão os banhos de sangue que uma minoria ameaçadora e alucinada, antes representada por milhares de indivíduos e que hoje se faz representar por milhões, sempre estará disposta a oferecer quando contrariada.

De que adianta tentar disfarçar tamanho perigo com discursos "politicamente corretos", poesia e orações, quando o lado mais sombrio da nossa espécie é a garantia dessas "verdades ortodoxas"?

Orações têm poder algum fora da mente do crente. Aliás, a existência de Deus é completamente dependente dela. Quando as desgraças acontecem essas maiorias bondosas e bem intencionadas (que servem de engodo)ficam paralisadas sem saber o que pensar e tudo segue perigosamente na mesma. Quem sabe a opção dos hereges fosse mais benévola ao mundo de agora, diante da perspectiva inequívoca de um futuro sombrio em nome da agourenta fé ortodoxa?

*Ivani de Araújo Medina é carioca, nascido na Ilha do Governador em 1947. Formado em Artes Plásticas pela antiga Escola Nacional de Belas Artes na década de 1960, e autodidata e pesquisador em História do Cristianismo.

http://www.debatesculturais.com.br/a-destruicao-dos-hereges/

 


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