Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Entrevista com Ronaldo Cagiano

13.09.2006
 
Pages: 123
Entrevista com Ronaldo Cagiano

RONALDO CAGIANO:

contra o mercado editorial perverso, o ânimo de correr riscos

Por Chico Lopes *

Conheci Ronaldo Cagiano no ano 2000, quando foi lançado, pelo Instituto Moreira Salles/SP, em Poços de Caldas, o meu livro de contos "Nó de sombras". É de Cagiano o primeiro texto crítico de relevância que o livro recebeu, " Geografia da alma humana ", publicado em Brasília, Goiânia e outras partes.


Em retrospecto, me parece muito lógica e natural essa nossa aproximação. Já que Ronaldo Cagiano me pareceu a ponta (creio que ele recusaria o termo "liderança") de um novo Brasil literário, e, ao conhecê-lo, foram chegando-me livros de muitos lugares os mais distantes, cidades, estados que em geral não associamos à atividade literária, e eram de pessoas que conheciam Cagiano e que por ele souberam de minha existência, que tinham tido orelhas de livros por ele escritas, que com ele trocavam idéias. Cagiano, em resumo, não parecia ser ele só: parecia encarnar todo um Brasil desconhecido, novo, que chegava à literatura, por vezes através de edições sofridas, desiguais, mas com uma enorme vontade, eu diria até avidez, de Literatura. Portanto, ao falar de trigo e joio, ele com certeza sabe do que está falando. Esse Brasil de muitos livros e autores novos é sobretudo uma pergunta: quem sobreviverá? essa quantidade toda, marcada por altos e baixos evidentes, oscilando entre o surpreendente, o desnecessário, o fútil, o meramente ególatra e vaidoso e o verdadeiramente talentoso, que será feito dela?


Hoje, Cagiano tem seu lugar como organizador de antologias de contos em Brasília, onde reside, e segue exercendo o seu papel. E escrevendo seus livros. Mineiro de Cataguases, encontrou em Brasília, com seu fervilhar de brasileiros de toda parte e suas misturas insólitas, o lugar que parece lhe caber naturalmente como escritor inquieto e divulgador de uma literatura de inquietos e inconformados como ele. Cagiano, como se poderá perceber na entrevista que me concedeu, funde as "dores do mundo" com suas dores pessoais de Cataguases e prega uma literatura decidida a não calar diante das ruínas.
Ele anuncia a publicação de novos livros e não deixa o gume da lucidez enferrujar, como se pode verificar. Há muito tempo, devido a contingências umas e outras, não nos conversamos por telefone e trocamos e-mails, como no início. Mas sei que ele continua em pé.


Há nesse homem que se move para muitas direções, descrito por todos os amigos como muito amável e extremamente generoso, uma angústia e uma vontade tenaz de não sucumbir. A prova aí está.


CHICO LOPES: Há um poeta e um prosador em Ronaldo Cagiano. Quem veio primeiro, quem prevaleceu? Ou os dois seguem juntos, alternando-se e alimentando-se reciprocamente?
RONALDO CAGIANO - Cronologicamente, o poeta veio primeiro. Tanto na produção, quanto na publicação. Meus primeiros livros foram de poesia. No entanto, sempre notei uma certa tendência prosaica em minha expressão poética. Mais que isso, a necessidade vital de extrapolar a camisa de força da estrutura poética, pois seu espírito de contenção não me permitia deambular. Aliás, muitos dos meus leitores me advertiram desde cedo que eu deveria me catapultar para a prosa. A partir do final dos anos 80 para cá, mergulhei no universo ficcional, embora só tenha reunido meus primeiros trabalhos em 2001, quando "Dezembro indigesto" venceu o Concurso "Bolsa Brasília de Produção Literária", da Secretaria de Cultura do DF. E mesmo na minha narrativa assimilei aquela visão baudelaireana, segundo a qual devemos ser poetas, mesmo em prosa. Sinto que há uma simbiose, um sistema de vasos comunicantes, uma vertente se retroalimentando da outra.


CHICO LOPES: Para onde foi a poesia brasileira, nos últimos anos? As novas gerações trazem nomes que o interessam?


RONALDO CAGIANO - Creio que vivemos um impasse, porque após o Modernismo de 22, depois a tentativa da Geração de 45 de uma retomada da tradição e posteriormente, o movimento oposto instaurado pelas vanguardas (o concretismo, a poesia praxis, o neoconcretismo e outras rupturas), parece que perdemos os referenciais. Há uma tentativa de se fazer algo novo, mas que esbarra no requentamento das velhas escolas. A pretexto de inovar ou renovar, a maioria dos autores não conseguiu fazer essa transição, nem comunicar uma nova realidade estética; outros, mais performáticos, vacilam entre as seduções do mercado e da mídia; e alguns mais apenas caminham pelo terreno vago das diluições e a poesia parece patinar, tentando sair do obscurantismo ou da obviedade e não encontra ressonância. Há um centro de gravidade na poesia hoje: o egocentrismo.



javascript:ol('http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/resenha_lista2.asp?livro%3d46');

CHICO LOPES: De onde vêm os contos de seus livros, como " Dezembro indigesto " e "Concerto para arranha-céus", por vezes tão desesperados, tão urbanos e cruéis? Sendo você um homem do interior mineiro, de Cataguases, surpreende o seu gume metropolitano...

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular