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Amar é...?

13.03.2020
 

 

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Amar é...?

"Amar não é aceitar tudo.

Aliás, onde tudo é aceito,

desconfio que há falta de amor."

Vladimir Maiakóvski

  

por Fernando Soares Campos(*)

  

Estamos acostumados a ouvir as pessoas afirmarem que quem ama não mata, não maltrata, não faz sofrer... Até aí apenas corroboramos os Dez Mandamentos, que prega a inação: não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás a mulher do próximo, entre outros não-farás.


Porém o amor não pode ser compreendido através de um comportamento passivo ou inerte. Amar pressupõe agir, criar, acariciar, fazer alguém feliz, respeitar, compreender, ter disposição para perdoar erros, equívocos, transgressões acidentais e até mesmo culpas intencionais.


Geralmente as pessoas se casam criando um conjunto de expectativas ideais em relação à parceira ou ao parceiro e acabam se frustrando. Certamente a expectativa de que os dois se tornarão um só, ou mesmo acreditar no mito da alma gêmea, atrapalha, decepciona aquele que assim pensa e não é capaz de refazer seus conceitos, na medida em que se desenrola a união conjugal.  


Falamos frequentemente que certos casais já não se amam, apenas se respeitam, se toleram, como se respeito e tolerância não fossem expressões de amor amadurecido. O problema é que, talvez inconscientemente, às vezes imprimimos ao termo "tolerar" a conotação de certa penalidade imposta a quem se resigna diante do erro alheio, apesar de tanto condenarmos a intolerância às opções, atitudes ou condições dos outros.  


Sentir-se amado e desejado  


Determinada figura notável na mídia empresarial, cultuada popularmente como celebridade no âmbito da psicanálise, autora de vários livros que se expressam em temas relacionados com sexo, casamento, amor e fidelidade, entre outros que tais, pesquisadora e estudiosa dos elementos estruturais da psique e suas manifestações, dedicada com maior empenho à sexologia, em entrevista na televisão, falou que, se alguém "se sente amado e desejado", nada mais poderia querer ou exigir do parceiro, ou da parceira.


Analisemos.


Sentir-se apenas amado e desejado é uma condição passiva, não representa um comportamento sentimental de correspondência mútua, enaltece tão somente o poder de sedução, provavelmente mais intenso na figura feminina. No entanto, em ambos os gêneros, essa passividade pode causar sensação de deslumbramento, de encanto, e, tanto quanto a paixão - o amor incontrolado -, é capaz de obscurecer a razão.


Imaginemos alguém fascinado pela sua própria influência sedutora, seja de qualquer modalidade: dom-juanesca, quando é pura "lábia";  ou através dos aspectos físicos. Geralmente são pessoas que se sentem desejadas, muito mais que amadas. Por motivos diversos, esses poderes podem deixar de funcionar. A verbosidade artificial e astuciosa, em determinado momento, já não convence; e o corpo, a beleza física, sofre as mutações impostas pela ação do tempo.


Certeza de sentimentos


"Se você se sente amada e desejada, o que mais você quer ou precisa?", perguntou a psicanalista, acreditando que isso é tudo o que alguém necessita para se sentir afetivamente realizado. Porém, ao invés de postura passiva, o ideal não seria o contrário? Ou seja: "se amo e desejo" (comportamento ativo), só assim poderei fazer minha parceira, ou parceiro, feliz.


De minha parte, "se amo e desejo", já posso me sentir feliz. Principalmente "se amo", pois colocar esses dois sentimentos (amor e desejo) com funções complementares, pode-se incorrer em grave contradição, visto que a intensidade do "desejo" pode vir a se constituir em fator contrário (às vezes ao ponto de ser hostil) à expansão ou simples manifestação do amor. Acredito que seria mais coerente dizer simplesmente que, se amo, respeito, pois compreendo, por processo empático, o comportamento do outro, seja convencional ou transordinário. Quem ama de verdade pode vir a estimular o parceiro ou a parceira a libertar-se de possíveis frustrações, por ter-se negado a determinadas práticas e usos, em função de censuras sociais não claramente expressas, mas tacitamente impostas e, em geral, passivamente aceitas pela coletividade.


Sentir-se amado e desejado não corresponde necessariamente a ser amado e desejado. Podemos nos "sentir amados", no entanto, jamais poderemos ter a certeza de que o somos. Só podemos ter certeza dos nossos próprios sentimentos: se amamos, odiamos ou se somos indiferentes. Assim como somente nós mesmos temos verdadeiro conhecimento do grau de intensidade do amor que sentimos, das suas nuances, relatividades e motivações.


O amor liberta, mas não apenas o amor que sentem por nós. Este pode até nos ajudar no processo de libertação, mas o amor que sentimos pelos outros é que deve se constituir no verdadeiro instrumento libertador de nós mesmos.  


Fim do pacto de fidelidade seria o "liberou geral!"


O ponto mais polêmico entre as teses defendidas pela entrevistada é a sua proposta ao fim do "pacto de fidelidade" entre cônjuges, chegando mesmo a prever iminente dissolução desse acordo implícito entre casais. Hoje "implícito", mas, num passado não muito distante, a infidelidade conjugal (adultério) era considerada fato criminoso. (Está em vigor, desde o dia 29 de março de 2005, a Lei nº 11.106/05, que alterou diversos dispositivos do Código Penal Brasileiro. Dentre as alterações, importa discutir aquela que não mais considera o "adultério" como fato criminoso. -- Extraído de "Adultério, traição e dano moral", por Simone Moraes dos Santos, publicado em 01/2006, no site Jus.com.br.)


Reconhecemos que a mentalidade prevalecente é a de que quem ama não admite que o parceiro ou parceira transe com outro. Traição, na verdade, não tem relação direta com o sexo propriamente dito, mas, sim, com os nossos comportamentos em seus mais diversos aspectos.


Satisfações ao parceiro  


A psicanalista em questão acredita que um cônjuge não tem que dar satisfações ao outro. Se perguntado sobre possível relacionamento extraconjugal, a resposta deveria ser: "Não tenho satisfações a lhe dar", disse ela imprimindo o tom da resposta: incisivo, até agressivo. No entanto, em outro programa, ela afirma que "qualquer prática sexual só tem sentido se as duas pessoas quiserem mesmo". Evidente. Mas isso implica também dizer que qualquer relacionamento conjugal só tem sentido se as duas pessoas se combinarem e participarem um ao outro suas experiências em qualquer âmbito de ação.  


Lembrei-me de uma história contada por renomado jornalista e consagrado escritor brasileiro relatando experiência que ele teria vivenciado na companhia de um casal italiano. Contou que estava visitando esses seus amigos quando percebeu que, sutilmente, o marido o estimulava a ter relação sexual com a esposa. Inibido, ele teria se esquivado, e não rolou nada. Tempos depois, já no Brasil, soube que o amigo italiano havia se suicidado. Motivo: a mulher o traíra tendo relações amorosas com outro parceiro, mas o fazia às escondidas, sem nada lhe participar, fato que, para ele, teria caracterizado a traição.


Interpretações distorcidas


"Dois mil anos de sexo como uma coisa suja e feia", garantiu a entrevistada, alegando que, com o advento do Cristianismo, "tornou-se proibido o amor romântico". Segundo ela, a partir de então, só se podia amar a Deus, ficando proibido o amor entre as pessoas. É nisso que dá quando alguém fala daquilo que leu superficialmente e acredita que conhece e domina o assunto.


Muito pelo contrário, antes de Jesus, as escrituras hebraicas determinavam, através do primeiro dos dez mandamentos, "Amar a Deus sobre todas as coisas". Os demais mandamentos versam sobre o não-fazer, a inação. Tratamos disso logo no início dessas nossas reflexões.


Instigado a interpretar as Sagradas Escrituras Hebraicas, mais especificamente sobre a Lei do Amor, Jesus se refere ao capítulo 6, versículo 5, do livro Deuteronômio, ratificando o que lá está escrito: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento". E acrescenta: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo". Quer dizer, o Cristianismo amplifica a Lei do Amor, estimulando as pessoas a se amarem reciprocamente e não só com simpatia, mas com empatia, colocando-se no lugar do outro, com o propósito de sentir e compreender suas angústias, sofrimentos, alegrias, paixões... Amar aos outros como se ama a si próprio. Porém, se os pretensos seguidores da doutrina cristã deturparam (deturpam) os ensinamentos do Cristo, com interpretações propositadamente distorcidas, a fim de atender aos seus mais mesquinhos interesses pessoais, isso é outra questão.


Não foi o cristianismo que inaugurou o atraso, são os falsos cristãos e falsos profetas quem o mantêm.


Em relação ao progresso científico, é incontestável que avançamos a passos largos; mas, afinal, do ponto de vista moral e ético, mudamos para permanecer os mesmos ou evoluímos de verdade em algum sentido?


(*)Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar" - Chiado Editora - Portugal - 2018. 

  

 

 

Fernando Soares Campos

Autor de "Fronteiras da Realidade"

Contos para meditar e rir... ou chorar

Chiado Editora - Portugal - 2018

 


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